Lady Rebel – Capítulo 17

– Espera, deixa-me ver se eu entendi bem! – Daniel fez sinal de pausa com a mão controlando a vontade de rir. – Tu saíste com ela para poder acabar com tudo, perdeste a coragem, depois voltaste a levá-la para casa e praticamente imploraste para que ela te beijasse e como se não bastasse ainda a chamaste de beija-flor? – quase gritou as palavras. – Hazza…- gargalhou alto. – Desculpa informar-te meu caro, mas tu podes esquecer a promessa que fizeste ao teu paizinho. Tu não vais matar a Carter, tu estás apaixonado por ela!

– Não digas merda senão sobra para ti!

– Ok! – consentiu tentando controlar o riso. – Acabaram-se as piadas.

Harry encostou a cabeça sobre a parede velha do edifício, pensativo.

Era claro que as coisas estavam muito mais complicadas agora. Aquela foi a prova que lhe faltava para finalmente entender, ou melhor, admitir, o que o seu coração sabia já há muito tempo.

Harry já não negava a ele mesmo o que sentia. Não se permitia iludir com outras teorias e especulações sobre o que havia vindo a crescer dentro dele, desde a primeira vez que viu Jordan.

– Eu não planeei nada disto! Eu não sei que merda é que me deu, eu ia deixá-la ir embora, mas quando a vi afastar-se… – falou com o olhar distante. – Eu estou a ser consumido a cada segundo que passa e quanto mais tempo passa…- parou meio zangado. -… mais eu penso em mandar toda esta merda de plano pelo ar!

– Então fá-lo seu idiota! Manda tudo pelo ar. Manda toda a corja se foder e vai atrás dela enquanto podes, enquanto ela ainda te quer também. Ela gosta de ti Van der Wood, ela só não quer dar o braço a torcer, a Carter é tão ou mais orgulhosa que tu. – discursava, convicto das suas palavras. – Não deixes que o orgulho estúpido se meta entre vocês, não a deixes escapar palerma!

Harry olhou-o indecifrável. West não poderia dizer o que se passava dentro do homem na sua frente, mas sabia que as suas palavras tinham surtido algum efeito.

Van der Wood perdeu-se por instantes numa batalha interna.

Sabia perfeitamente que o amigo estava certo. Ele era orgulhoso, ele era egoísta e egocêntrico, mas ele não era burro. A forma como Dan falou, como ele cuspiu tudo aquilo sem um pingo de ponderação, apenas contribuiu para a constatação de algo que Harry preferia não acreditar. Mas ainda havia aquela voz que o acompanhava há anos, sempre avisando-o do seu maldito destino, do seu condenável dever a cumprir.

Tudo era uma questão de escolha. Uma escolha que poderia mudar todo o rumo da sua vida.

Ele queria ceder. Eu queria poder escolher sem que o peso na consciência o atormentasse. Mas isso era impossível, porque fosse qual fosse a sua opção, Harry nunca sairia ileso. A pergunta que prevalecia era, qual das duas era a mais certa?

– Eu deixei-a sozinha à cerca de hora e meia. Eu não sei o que devo fazer…eu sinto-me um adolescente ridículo com um monte de merda dentro. Cheio de medo de uma miúda. Eu sou um filho da puta desgraçado que por este andar vai acabar sozinho.

Invés de refutar, West riu da confissão distorcida, porém real do outro. – É Harry, tu és isso tudo. Mas agora não há volta a dar e se queres mesmo saber o que eu penso, eu acho que tu devias ir lá agora, tu devias ir a casa dela e dizer tudo que está entalado na garganta.

– Não posso. – recuou instintivo.

– Porra, claro que podes! – subiu dois tons. – Podes e vais!

 

***

Jordan não costumava ficar sozinha na sala de estar. Sempre trancafiada no seu quarto, ou então, simplesmente fora de casa àquela hora da madrugada.

No entanto, ali estava ela, perdida em si mesma, com mais ninguém para a acompanhar.

Carter sentia-se pela primeira vez em algum tempo, realmente só. Despois de Harry a ter deixado sem mais nem menos à porta de casa, Jordan deixou que a melancolia da noite a tomasse e ficou sentada perto da lareira que ainda ardia voraz, perdendo-se nas suas memórias mais remotas.

A figura do rapaz alto, de olhos verdes e cabelos castanhos, estava clara como cristal na sua mente. Ela podia jurar que ainda sentia o aperto de quando ele a puxou. Ela conseguia ainda respirar aquele perfume inebriante e amadeirado e se fechasse os olhos, ela quase podia sentir o quanto bom era beijá-lo.

E havia depois o namorado. O que a fazia sentir-se mal por pensar em tais coisas.

Luke, ele provavelmente deveria estar perdido por aí, bebendo para afogar as mágoas, como sempre fazia quando sentia-se desolado ou inseguro. Mas estranhamente a ideia do namorado bêbado, andando pelas ruas menos bem frequentadas de Londres, não deixou Jordan tão preocupada quando deveria ou esperava ficar.

Ele havia-lhe mentido e isso era algo que Jordan não perdoava fácil. Por muito que ele a amasse e necessitasse de dinheiro, nada justificava a forma como ele o ganhava nem a maneira inconsequente como Luke acabava por a prejudicar. Porque se alguém sequer desconfiasse do que ele vendia ao treinador, todos saberiam de quem ele era namorado e Carter poderia acabar metida em sarilhos bem mais sérios do que fugidas noturnas ou consumo de drogas leves.

O toque do interfone interrompeu o seu momento de transe e Jordan respondeu com um sobressalto assustado. Levantou-se preguiçosa e um pouco intrigada com o que poderia ser às três da manhã.

– Menina Carter? – perguntou uma voz masculina e acanhada, do outro lado do aparelho.

– Sim Bullock. – usou um tom entediado.

– Está aqui o senhor Van der Wood, ele disse que precisa urgentemente falar consigo. Posso deixá-lo subir? Eu sei que já é…

“O Harry aqui?” Harry estava lá em baixo, depois de a ter deixado sem mais nem menos. O que será que ele queria?

Será que ele estava arrependido? Ou estava apenas a fim de continuar com os seus jogos?

– Menina Carter? Menina Carter?

– Sim!

– Eu acho melhor a menina descer, eu não acho que ele vá sair daqui, a chuva está a cair forte e o senhor Van der Wood não parece querer arrear o pé.

Jordan soltou um suspiro tanto cansado, quanto derrotado. Olhou pela janela para poder constatar o que Bullock lhe disse. A chuva era arrastada pelo vento e batia violenta contra o vidro do apartamento. A ideia dele debaixo daquela queda d’água deixava-a inquieta.

Harry estava provavelmente a congelar lá fora. Só para provar algo infantil e provavelmente não sairia dali até Carter falar com ele.

– Bullock, diga ao Harry que eu desço.

– Sim menina e mais uma vez desculpe o incomodo.

Jordan nem ligou para o interfone suspenso pelo fio que baloiçava de um lado para o outro. Olhou em volta para encontrar o casaco que ainda estava pousado sobre o piano e chamou o elevador. A curta viagem do 23º andar, até ao rés-do-chão, foi muito mais rápida que aquilo que ela gostaria.

Quando a campainha emitiu o som estridente, avisando a sua chegada, a hesitação pareceu impedi-la de dar o primeiro passo. Involuntariamente o seu coração tomou um rumo mais acelerado, como se de certa forma ela previsse que alguma coisa fosse acontecer. Algo que ela não esperava, mas não sabia se era bom ou mau.

 

Música (http://www.youtube.com/watch?v=ZmMQkzJTwDU)

 

Uma jorrada de água atingiu-a assim que ela saiu do edifício. A chuva era ainda mais forte do que ela previra. Os seus olhos azuis, rapidamente detetaram o vulto do rapaz perto da mota, usando só as calças jeans surradas e uma t’shirt branca.

A hesitação de antes, transformou-se em determinação e em questão de segundos, Carter já estava perto o suficiente para que o seu alarme contra Van der Wood desse os seus primeiros sinais de vida.

– Carter eu tenho que dizer uma coisa e não vai ser algo ao qual eu estou habituado, ou goste de fazer, por isso espero que me ouças até ao fim, sem interrupções! – soou surpreendentemente desajeitado.

– Rápido então, porque eu ao contrário de ti, não vejo nada de interessante em ficar na rua de madrugada, quando chove mais que sei lá eu o quê!

– Carter podes parar com as brincadeiras? Eu estou a tentar dizer uma coisa séria.

– Ah! Agora queres que eu seja séria? – gargalhou forçada. – Claro Harry, tudo como quiseres, tudo como tu achas. Avisa-me quando quiseres que “brinque” contigo! – fez aspas no ar. – Ou quando quiseres que eu seja séria! Porque pelos vistos és tu quem decide tudo, não é? Tu és um mimado, um egoísta infantil, que só se preocupa consigo mesmo.

– Ouve-me porra! – gritou exasperado tentando fazer com que a sua voz se sobrepusesse à chuva tempestuosa que molhava-os. – Eu estou a engolir o filho da puta do meu orgulho para fazer isto ok? Para de lutar, de me dizer aquilo que eu já sei. Isso não vai adiantar de nada, apenas vai adiar o inevitável e consumir-nos um pouco mais.

O olhar fulminante que ela lançava sobre Harry era cortante o suficiente para que ele percebesse a raiva que Carter estava a sentir.

– Que merda é que estas a falar? Eu não estou a lutar coisa nenhuma. O único aqui que até agora recuou sempre que dávamos um passo em frente, foste tu! – acusou-o empurrando-o com o punho cerrado contra o peito. – Foste tu quem causou isto tudo! Eu sempre dei os sinais, sempre cedi, sempre me entreguei. Mas quando as coisas pareciam escapar das nossas mãos, tu simplesmente recuavas, como se a tua necessidade por controlo superasse aquilo que ambos sentimos. Eu não sei o que te trouxe aqui depois de simplesmente me abandonares sem mais nem menos. Mas também não sei se quero saber. Porque mesmo não me querendo importar, eu importo-me. Eu sinto dor Harry, eu sou um ser humano e aquilo que me fazes, magoa como os diabos.

Harry caiu no chão, deixando claro que naquele momento, ele estava a render-se pela primeira vez.- Desculpa. Carter… Desculpa!

O desmoronar de alguém aparentemente tão inatingível, deixou-a assustada. Jordan não soube o que fazer. Nunca antes tinha conseguido ser tão verdadeira com ele. Nunca antes tinha exposto os seus reais sentimentos por Van der Wood e agora que o fez, ele implorava-lhe por perdão?

“Como assim?”

– Harry! – chamou, puxando-o para cima. – Harry por favor levanta-te!

– Jordan! – apertou-a num abraço incomum e demasiado íntimo enquanto tentava se levantava. – Ouve-me pelo amor de Deus, porque eu não sei se amanhã, ou depois poderia dizer-to de novo. Eu não te posso prometer um futuro, eu não posso prometer nada, mas o amor não tem que ser perfeito não é? Apenas real…e hoje…hoje eu posso dizer-te que eu estou completamente apaixonado por ti por isso, por tudo, perdoa-me.

Só depois de as ouvir, Jordan percebeu o quanto ela esperou por ouvir aquela palavras. O seu coração queria rebentar de felicidade, ela queria poder gritar para o mundo inteiro aquilo que Harry Van der Wood tinha acabado de admitir.

Não conseguiu dizer nenhuma palavra, assentiu sorrindo e soluçou no abraço dele sentindo o cheiro que tanto amava inebriá-la reconfortante.

 

Música: (http://www.youtube.com/watch?v=tci5Z-GKhEE)

 

A água escorria por ambas as faces e molhava graciosamente cada traço de Harry. As gotas d’água deslizavam pela sua cara, descendo ao longo do seu pescoço até se desvanecerem dentro da t’shirt encharcada.

Como ela gostaria de ser uma daquelas gotas, poder tocar e explorar cada milésimo de espaço daquele corpo. Descobrir o que estava por trás daquela casca sempre tão densa e inatingível. Encontrar o coração que mesmo por vezes ocultado, existia e batia forte e exasperado em uníssimo com o dela.

Os cabelos dele estavam lindos e despenteados, os seus olhos…Céus os seus olhos estavam mais verdes do que alguma vez antes testemunhado por Carter. Brilhavam como pequenos diamantes e hipnotizavam-na tal como da primeira vez que se viram. E ele olhava-a como nunca antes o fez. Não havia malicia, desejo, nem quaisquer segundas intensões naquele olhar, mas ainda assim, ele conseguia despi-la, desfragmentá-la e possui-la sem restrições.

Lentamente ele foi-se aproximando até acabar com o vácuo que existia entre ambos. As correntes do vento, gelavam e os corpos tremiam. No entanto, nenhum parecia notar esse detalhe, sempre que aqueles olhares se encontravam era como se não houvesse mais nada no mundo, mais ninguém.

Ele e ela. Ela e ele.

O medo que Carter alguma vez possa ter sentido foi substituído pela pura necessidade de proximidade a Harry. Os olhos dela estavam coincidindo entre os olhos verdes e os lábios dele. As palpitações do seu coração aumentavam gradualmente e quando ela materializou o que estava prestes a acontecer sentiu como se uma explosão tivesse tomado o seu corpo e uma descarga de adrenalina percorresse cada uma das suas veias.

Então as testas de encostaram-se. As respirações encontraram-se.

Os lábios colidiram. Um toque suave e superficial, lento e significativo.

Não havia frio, receio do desconhecido. Não havia incerteza, nem vontade de fugir.

As mãos dele subiram até ao rosto da sua menina, segurando cada um dos lados do rosto dela como se temesse que a qualquer momento Jordan se afastasse e não houvesse nada que pudesse retomar àquele ato.

Ambos reconheciam a necessidade de apagar aquele fogo que queimava e consumia cada uma das células dos seus corpos desde o último beijo.

Foi então que ela sentiu a língua do rapaz tocar os seus lábios e nada hesitante, deixou que ele aprofundasse. O reconhecimento da textura dele fora muito além do que ela se lembrava e nesse espaço de tempo ela soube que não queria esquecer qual era a sensação.

Não mais.

A sensualidade e a tensão palpável que costumam ser tão características de Harry, foram transformadas em delicadeza e até mesmo ternura.

A mão direita dele soltou-a e tomando um novo curso, deslizou por todo aquele corpo até repousar nas costas dela e comprimi-la contra ele.

Um gesto que fez Jordan abrir os olhos e se deparar com a expressão de Harry.

Havia entrega na ação, mas os olhos estavam fechados e apertados agressivamente.

Como se sentisse dor. Como se sentisse culpa por beijá-la.

De repente a boca dele tornou-se exigente e a atenção de Jordan foi toda puxada para o momento que se desenrolava e ela deixou-se levar.

A luz da lua cheia era o holofote daquele cenário cliché e romântico. O céu estava escuro e nublado e os únicos sons captados por ambos eram o da chuva, do vento e das suas respirações ofegantes e inconstantes.

Mas o que era aquilo? Era ódio? Era amor? Era luxuria? Sequer era verdadeiro no final das contas?

Talvez não fosse nada.

Mas ela não queria pensar nisso, porque no fundo ela sabia.

Aquele não era mais um beijo roubado no meio da noite em qualquer bar. Aquele era o primeiro beijo apaixonado de Jordan Carter e Harry Van der Wood.

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