Lady Rebel
Comments 4

Lady Rebel – Capítulo 15

Lady

*

– Eu nem te sei explicar porque é que ainda me surpreendo! Andar à porrada com o Luke. –Jordan gritava. – Até para alguém como tu isso é baixo!

 Harry mantinha-se cabisbaixo, sentado na cama apenas com a parte de baixo do pijama. Tentava a todo o custo ficar calado, dando a permissão a Carter, para tirar as suas próprias conclusões, para acreditar nas próprias palavras.

 Assim seria mais fácil, se ela o odiasse as coisas não custariam tanto, a promessa não seria tão difícil de cumprir. Ele não iria sofrer nem sentiria remorso.

– Não vais dizer nada?

– O que queres que diga? – Harry levantou finalmente o rosto, encontrando os olhos azuis. – Tu já fizeste o teu discurso Carter. Já acreditas no que precisas de acreditar, já sabes o que precisas de saber! Queres que eu acrescente alguma coisa? – foi ao encontro dela. – Queres que eu te diga o quão bom foi colocar o meu punho na cara dele? Queres que te conte como foi a adrenalina de bater no teu namorado, ou ver todo aquele sangue ser derramado?

 As respirações rápidas e nervosas batiam uma contra a outra enquanto Harry e Jordan se olhavam intensos e furiosos.

 Harry estava a conseguir surtir o efeito que queria. Jordan estava com raiva e talvez até repulsa dele. Do que ele sabia dela, Harry apostava que Jordan estava naquele exato instante a arquitetar na sua mente, uma forma de o fazer sofrer e pagar por aquilo que ela achava que ele era culpado. E Harry não podia estar mais satisfeito ao ver todo aquele ódio nos olhos azuis da rapariga.

– Há apenas um sentimento que abomino e espero que nunca ninguém o sinta por mim. – encarou-o determinada e seca. – Eu tenho pena de ti Harry, pena por seres quem és, egoísta, egocêntrico e manipulador. – acusou-o com as lágrimas ansiosas por escorrer.

 Harry sabia que Carter não queria dar-lhe o gosto de derramá-las na frente dele. Ela era demasiado orgulhosa para mostrar que estava afetada e ele de certa forma preferia que assim fosse, caso contrário, não sabia se iria conseguir manter-se fiel ao seu plano sem que o choro da menina o enfraquecesse. Não gostava de ver uma mulher chorar na sua frente, muito menos quando nutria sentimentos por ela, fortes ou fracos.

– Eu estou a ver que não vale a pena falar contigo, não é? – perguntou retórica soltando uma risada falsa. – És incrível Van der Wood. Eu só não sei como me deixei encantar por ti. Não sei como pude-me deixar encantar…

  Aquela ele soube que não podia deixar escapar, estava certo de que depois daquilo que ele ia dizer, Jordan sairia porta fora sem pensar duas vezes…

– Simples Jay, muito simples. – deu ênfase na última palavra. – Tu precisas de alguém que te faça sentir viva, alguém que te faça perder o controlo, alguém que te leve ao limite, alguém que te consuma. – olhou-a penetrante. – Alguém como eu! – constatou satisfeito. – Admite Carter. Tu precisas de mim, mais do que tu própria gostarias.

– Isso é men…

– Não! – exclamou calando-a. – Eu posso não estar sempre certo de tudo, mas algumas coisas são demasiado óbvias para serem desmentidas. E isto! – Apontou para o peito de ambos. – Isto existe e tu necessitas como quem precisa de ar para viver!

 E tal como ele esperava, ela saiu. Saiu rápido demais para ser notada, assustada demais para desafia-lo, confusa demais para refutar.

*

– Porque não lhe contaste o que realmente aconteceu? – olhou-o Daniel confuso.

– Nada do que eu dissesse iria mudar o que ela sente por mim neste momento. Ela não quer saber de mim e eu não devia querer saber dela.

Daniel pousou a mão pesarosa sobre as costas do amigo mesmo sabendo que nada mudaria com aquele ato.

– Eu não sei o que sinto Dan, eu não me devia importar com ela, eu devia odiá-la, tal como ela me odeia agora. Eu tenho uma promessa, uma vingança a cumprir.

– Hazza eu não sei…eu não acho que tu devias fazer isso, tu vais-te arrepender, tu vais acabar contigo mesmo. E eu não vou ter a força necessária para te ajudar amigo.

– Eu não vou voltar atrás, eu vou fazer o que tenho a fazer! – levantou-se da cadeira, impulsionado pelo determinismo. – Eu e o meu pai já andamos nisto há demasiado tempo. Eu vivo neste inferno há dois anos. Eu tenho que acabar com ela de uma vez. – gesticulou mostrando a mágoa ressentida no brilhar dos olhos. – Essa é a única forma de vingar a morte da Bella.

– Não. Não é! – Daniel negou. – E tu sabes muito bem disso! Não é a matar a miúda que tu vais sentir alívio, ou vais trazer a tua irmã de volta. A rapariga não tem culpa de nada. Ela nem sequer conhecia a tua irmã.

Uma hora mais tarde, West abandonou o casino, cansado de não conseguir surtir qualquer efeito, que fizesse Van der Wood mudar de ideias.

Quando deu meia-noite, Harry ainda estava lá. Nostálgico e pensativo.

 

At night when the stars

(À noite, quando as estrelas)

Light up my room

(Iluminam o meu quarto)

I sit by myself

(Me sento sozinho)

Talking to the moon

(Falando com a lua)

Try to get to you

(Tento chegar até você)

In hopes you’re on

(Na esperança de que você esteja)

The other side

(No outro lado)

Talking to me too

(Falando comigo também)

Or am I a fool

(Ou eu sou um tolo)

Who sits alone

(Que fica sentado sozinho)

Talking to the moon

(Conversando com a lua)

*Talking to the Moon, Bruno Mars

 

Em passo cauteloso, Harry chegou perto de uma das diversas janelas do velho casino. A luz da lua incidia sobre a sua face, impedindo que a escuridão tomasse o seu rosto angelical. Ele olhou-a convicto de que aquela esfera prateada podia iluminar não só a sua face, mas também o seu interior. Ajudá-lo a distinguir o que ele queria, daquilo que ele tinha que fazer. Observarr a imensidão da esfera prateada, era já algo que ele fazia por hábito desde a morte da irmã.

Bella ia todas as noites para o alpendre da janela do quarto, sentava-se segurando entre as mãos a chávena de chá e conversava. Conversava com a lua como se esta fosse a sua terapia noturna. Falava de amores, de amizades, falava de tristezas e confidenciava alguns segredos. Harry ouvia, sentado na cama do seu quarto, com o cigarro aceso entre os lábios, a janela aberta e os ouvidos atentos a cada uma das palavras dela.

Ele pensava que aquilo era algo inútil e ridículo, algo de menininha. Nunca tinha percebido qual era o real ponto de todo aquele ritual. E mesmo assim, não deixava de a escutar. Sempre curioso sobre aquilo que ela ia contar daquela vez, sempre atento às suas lamúrias como se a felicidade dele, dependesse do bem-estar dela.

O hábito dele nasceu daí, a necessidade de ter com quem falar, com quem desabafar o seu desgosto, a sua vontade de acabar com tudo, a sua podridão interior.

Havia ainda a esperança, aquela réstia de esperança de que tudo não passava de um sonho e que ela estava ainda viva. Sentada no seu alpendre, falando com a lua, respondendo às preces desesperadas do irmão que acreditava que talvez um dia ela o pudesse responder.

Era assim, ele tentava chegar até ela, procurava a sua única amiga, aquela que tinha o dom da palavra, aquela que o salvava da sua escuridão. Esperançoso de que ela estivesse do outro lado, falando também com ele, mas sempre em vão. Porque ele nunca obteria a resposta, nunca ouviria a voz, nunca a voltaria a ver.

A realidade atingia-o bruta e impiedosa e então a maldita noite acontecia mais uma vez na sua cabeça. O pesadelo do qual ele não se livrava, o principal culpado de toda aquela maldição. A noite em que a sua vida perdeu sentido e mais nada voltou a interessar.

A imagem era nítida, como numa tela de cinema, ele via tudo a passar em câmara lenta. O hospital estava lotado e o desespero não deixava agir coerente. A porta do quarto 311 estava aberta e Bella estava lá. Deitada na cama de ferro, ligada a máquinas, frágil, vulnerável. Harry queria não chorar, mas era mais forte do que ele.

*

 – Desculpa! Desculpa Bels, desculpa por não ter sido quem tu gostarias que eu fosse! – as lágrimas queimavam a pele branca do rapaz.. – Desculpa por te ter desiludido.

– Hazza.Tu nunca me desiludiste. Nunca! Tu…-a tosse incomodativa interrompeu Bella.

– Bella não fales. Não te esforces. – implorou segurando firme a mão da irmã. – Eu não quero ter que dizer adeus. Eu não posso…

– Hazza, isto não é um adeus…nunca será!- sorriu com as lágrimas nos olhos. – Porque se fosse… Tu ias-te esquecer de mim.

 Harry apertou os olhos e deixou as lágrimas caírem. Pensar que aquele podia ser o seu último momento com a irmã destruía-o.

 Harry não queria, não aceitava.

 Apertou os olhos, vincando-os com força e então começou a rezar. Mas as suas preces vieram demasiado tarde para a irmã.

 Do nada, a mão de Bella enfraqueceu gradualmente o aperto. Harry abriu os olhos mas não encontrou os cinza da sua irmã.

 Uma lágrima pesada escorreu, quando a máquina que registava os batimentos cardíacos emitiu um som contínuo e estridente.

*

Ela faleceu deixando para trás memórias de algo que nunca mais seria o mesmo. Bella morreu e levou com ela a única parte boa do seu irmão mais novo. O vazio foi o que sobrou daquele rapaz de 16 anos que perdeu a única pessoa que amava, cedo demais.

O telemóvel de repente tocou despertando-o. – Van der Wood.

Onde raio te meteste? – cuspiu ríspido.

– Eu estou…eu estou só num bar. – mentiu.

Anda para casa imediatamente. A tua mãe está a perguntar por ti e eu estou sem paciência para a aturar.

Harry soltou uma respiração pesada e apoiou uma das mãos na cintura. – Eu já estou a sair pai.

Espera! – falou impedindo o rapaz de desligar a chamada. – Sobre a Carter, como andam as coisas?

Harry semicerrou os olhos obviamente ciente de que a resposta que ele tinha para dar não era do agrado do pai. Então achou melhor mentir. – As coisas estão a correr bem. Já não falta muito para que isto tudo acabe.

Ótimo. Assim é que eu gosto. – Harry podia imaginar o sorriso rasgado de Nicholas do outro lado do telefone. – Parece que no final de contas, sempre posso contar contigo para alguma coisa.

– É! Eu já estou a caminho.

Bom mesmo. – desligou sem cerimónias.

 

***

 

– Carter, Carter! – falou uma voz pouco conhecida no escuro da sala-de-estar.

– Milla! – exclamou quando viu a prima sentada no escuro.

– A própria. – levantou-se até chegar perto da outra. – Então, como vão as coisas com o Luke?

Jordan mostrou a carranca mais confusa que o seu semblante poderia suportar. – Como é que sabes do Luke?

– E desde quando é que eu não sei de tudo? – retrocou. – Oh! Vamos lá priminha, tu sabes perfeitamente que eu sei sempre tudo o que se passa, sabes também que eu nunca te irei dar explicação para tal, mas uma coisa é certa, eu sou apenas uma espectadora de todo este espetáculo. E que espetáculo!

– Espetáculo? – Jordan levantou as sobrancelhas ao uso da expressão da prima.

– Sim Jay e tu…- apontou para a de cabelos castanhos. – És a protagonista!

Jordan manteve-se ereta, mirando a prima sem mostrar qualquer simpatia por ela, mas Milla ignorou-a simplesmente e continuou o seu “papo furado”, como Jordan costumava dizer para Emma, sobre a vida.

– As coisas nem sempre são o que parecem. – disparou sem contexto. – Nem sempre o que vemos, corresponde à realidade.

– Não estou a ver onde realmente queres chegar com esta conversa. – bufou entediada.

– Claro que não! Tu só entendes aquilo que queres entender. Aquilo que te convém, aquilo que é mais fácil. Carter tu gostas de fácil e a vida nem sempre te pode fazer esse favor.

– Olha lá…

– Carter tu achas que a verdade está na tua frente, mas ela não está. Pelo contrário, ela está sempre a um passo atras de ti. Tu acreditas naquilo que vês, nunca olhas para trás. Nunca questionas. E é aí! – subiu meio-tom a voz. – É aí que erras. As mentiras circulam à tua volta como carroceis loucos, elas esperam pela hora em que tu vais parar, pela hora que tu vais pensar e analisar tudo. Enquanto esse dia não chegar, tu vais continuar a acreditar apenas naquilo que os teus olhos, a tua cabeça e o teu coração querem que acredites.

 

***

Ficar calada pareceu ser o mais prudente a fazer visto que Jordan ficou sem resposta para dar. Ela não conseguia descobrir o que realmente estava escondido em cada uma das palavras da Milla, mas fosse o que fosse era forte e tinha impacto sobre ela. Mais uma vez Milla tinha lançado a sua carta, deixado cheiro de segredo no ar.

Milla era assim, um poço de segredos, de indiretas e pequenas contradições, sempre com a resposta certa, no momento menos propício. Na hora exacta.

Depois da milésima volta dada na cama, Jordan desistiu de tentar entender a prima. Não valia a pena perder tempo com uma lunática.

Pegou no telemóvel para enviar uma mensagem de boa noite para Luke quando viu outro nome no visor.

Harry tinha enviado um sms. Algo estranho e inédito.

Choque e espanto, definiam-na muito bem. A raiva dizia-lhe para não ler, simplesmente ignorar, mas a outra parte, aquela parte dela que não queria deixar de pensar nele. Aquela pequena parte que ela desejava espezinhar, persistia e crescia dentro como uma bola de neve.

Jordan fechou os olhos e pousou o telemóvel perto do seu travesseiro. Contou até 10 várias vezes, tentando acalmar os nervos e a ansiedade.

Quando achou estar pronta, voltou a pegar no aparelho. Ainda hesitante carregou no temido botão e leu:

Mensagem de Harry V.

Amanhã depois das 23.00H em frente ao London Eye. Não te atrases e leva algo quente. Vais precisar.

Xx H.

This entry was posted in: Lady Rebel

por

Carol. 21 anos. Sonhadora a tempo inteiro, escritora nas horas vagas. Apaixonada por música, dança, moda e literatura. UMinho- Design e Marketing de Moda

4 Comments

  1. OH MY GOD !! Perfect *o* Continuaaa pleaseee !! Eu amo o jeito que você escreve a fic.. Ela é detalhada e tem uma emoção.. Isso faz com que eu tenha vontade de ler cada dia mais

  2. bruna says

    Preciso de uma Mila na minha vida, realmente a Jordan só vê aquilo que ela quer, acho que ela tem medo da realidade , Perfeito como sempre

  3. Armanda says

    A tua fic é perfeita cada palavra k escreves se junta a outra e torna tudo simples e perfeito. Tu es uma escritora fantastica comum dom incrivel. Continua porque tu es fantastica com as palavras…

Comenta aqui!

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s