Lady Rebel – Capítulo 13

Um mês. Foi o quanto passou.

Harry ainda não tinha ganho a coragem para dirigir-lhe a palavra. Não confiava nele mesmo para o fazer. Tinha medo de antecipar o inevitável e sofrer as consequências que os seus atos obviamente trariam. Nunca imaginou que cumprir a sua missão fosse tão fatigante, tão complicado. Aquela noite no “17Black” trouxe-lhe uma nova perspetiva de todo o seu plano. Era difícil admitir que agora havia sentimentos em jogo. Talvez não tão nobres como os do Luke, mas Harry sabia que algo havia nascido dentro dele e aos poucos começava a desabrochar.

A ideia de esquecer e fugir, passou-lhe pela cabeça várias vezes naquelas últimas semanas. Seria tudo melhor sem Nicholas, sem Grace, sem Luke e sem Carter. Jordan era o principal motivo dos seus pensamentos de fuga, de evasão. Ela era também a principal razão de tudo, o seu maior problema, a sua maior dor de cabeça. Ele queria desaparecer sem que não houvesse quaisquer consequências no seu ato, sem correr o risco de ser perseguido pelo seu passado. Mas sempre que a ideia ganhava forma, a sua mente traidora trazia-lhe à tona a promessa que ele nunca iria quebrar. A promessa que começava a soar mais como uma maldição inquebrável. Então ele optava pela escapatória curta, mas eficaz. A vodka.

Contudo, por mais que ele tentasse afogar os seus demónios em bebida, eles sempre arranjavam forma de se safar, permanecendo submersos por apenas uns instantes, mas voltando horas depois acompanhados por uma ressaca impiedosa.

– Por quanto mais tempo vais ficar com essa cara de trocha a olhar para o nada? – Daniel West estava sentado em uma poltrona de couro velha, no fundo do escritório. Harry não havia notado a sua chegada, muito menos sabia se Daniel estava ali mesmo antes dele ter entrado. – Van der Wood eu não sei o que se passa e para ser franco nem quero saber, mas seja lá o que for eu aposto que tem dedo de mulher na história!

– Antes fosse só dedo. – riu sem humor.

– Eu tenho apenas uma solução para o teu problema meu caro. – disse Daniel despertando o interesse do amigo. – Vem comigo até ao “17Black” esta noite, garanto-te que eu, tu e o meu amigo Jack vamos resolver esse teu problema.

– O teu amigo Jack?

– Ah Hazza, Jack Daniels! Aquele que te faz companhia sempre que a vida decide te colocar na merda.

Harry olhou mal disposto para a cara de Daniel. -West eu bebi mais este mês, do que aquilo que eu bebo por ano! – falou. – Não acredito que o teu amiguinho me vá ajudar.

Daniel olhou para diferentes pontos do escritório improvisado, tentando pensar em algo que conseguisse arrastar o amigo daquele buraco em que ele próprio se havia enterrado. Mas nada lhe restava se não a insistência infantil.

– Vamos lá Hazza! Levanta esse rabo branco e milionário desse banco imundo e vem comigo beber um pouco.

Harry inclinou o rosto, exibindo uma careta que denunciava algo que não se assemelhou nem um pouco àquilo que disse em seguida.- Vai buscar o capacete, esta noite eu saio com a Indian*!

 

***

 

A chuva de final de tarde era sempre bem-vinda quando a vontade de sair era pouca. Deitada no velho sofá de Sparks, Jordan fingia ler poesia, enrolado na manta xadrez do seu namorado. A palavra ainda soava estranha na sua cabeça. Não havia desagrado ou mentira quando a falava em voz alta, mas sempre que parava para pensar no que realmente significava, sentia que esta era mal empregue para definir aquela relação.

Luke era tudo aquilo que uma rapariga poderia querer. Bonito, preocupado, fiel e inteiramente devoto àquele romance de pequenas faíscas. Nunca exigia nada em troca ou forçava Jordan a fazer algo que ela não quisesse. Ele era o pilar daquela relação rotulada como leve e carinhosa. Ele tratava-a como se ela fosse feita de cristal, sempre com medo de parti-la, de a machucar, de a arranhar. E Jordan procurava compensar a sua apatia sempre que a oportunidade surgia, mas a verdade é que ela não conseguia oferecer a Luke metade daquilo que ele lhe dava. Não conseguia retornar os abraços calorosos, os beijos apaixonados, os olhares cúmplices. Ela sentia-se uma farsa naquele teatro amador. Ela era como uma má representação de Julieta ao lado do mais perfeito dos Romeus.

Naquele último mês muita coisa mudou. Eleanor simplesmente sumiu da vida de Carter. Nunca mais a viu fora do recinto escolar ou falou com ela, a única coisa que soube da morena foi que ela acabou tudo que podia ainda existir com o professor de história da arte. Facto que se tornou bastante visível assim que o Mr. Fitz começou a surgir na escola com barba por fazer e 10 anos a mais nas suas pálpebras. No entanto, o que mais a surpreendeu foi o facto do professor não a questionar sobre nada, não pedir justificações ou sequer lhe lançar um olhar acusatório. E isso realmente foi um alívio. Mas agora que Carter não tinha mais a sua parceira de crimes para apoia-la, para partilhar o cigarro ou a garrafa meia bebida, ela sentia-se desnorteada, até mesmo desamparada.

Por mais que tentasse negar, Jordan não era a mesma pessoa sem Lawrence do seu lado. Como poderia ela andar sem o seu braço direito, sem a sua melhor amiga, sem a sua irmã? Não havia nada que a pudesse consolar ou tirar o peso de cima dos seus ombro, mas também não podia ficar a chorar e a lamentar-se pelo leito derramado, ela era madura o suficiente para ter noção dos seus erros e tinha consciência de que aquilo que fez excedia os limites de uma fácil reconciliação.

Todos os sábados daquele mês de Outubro eram passados na companhia de Sparks. Jordan sempre ia para o apartamento do namorado no fim-de-semana e vez ou outra ficava lá a dormir. Camille nunca estava em casa, então não notava a falta de Jordan. Milla era de pouca conversa, vez ou outra Carter encontrava-se a trocar palavras banais com a prima, mas não passava disso. Emma no entanto não gostava nada da situação, sempre refilava e ameaçava contar tudo à mãe da rapariga, mas Jordan sabia que ela nunca o faria, Emma era demasiado meiga para tal, não tinha coragem de entregar a sua menina de bandeja para a mãe. No fundo Emma tinha inteira confiava em Carter, conhecia-a bem demais e não esperava que Jordan a desapontasse. E Jordan tentava de tudo, para nunca desiludir a única figura maternal que ela tinha como modelo.

Fechou o livro nas suas mãos e pousou-o no chão perto do sofá. Com pouca vontade de levantar, Jordan esticou os seus membros despertando-os da moleza. O corpo estremeceu assim que ela sentiu o frio percorrer-lhe a espinha. Apertou o cobertor contra si e ergueu-se vagarosa.

O chão de madeira gelava nos pés descalços que se dirigiam ao fogão da cozinha. Como era de esperar Luke não saiu de casa sem deixar o twinings* pronto para ser aquecido. Jordan sorriu pensando no quão impressionante era o facto de não existir vez que o namorado esquecesse de deixar o chá pronto para ela.

Afastou a cintura do balcão, para poder abrir a gaveta teimosa e retirou de lá a caixa de fósforos. Assim o fogo foi aceso, Jordan elevou o fósforo até o seu campo de visão e observou o objecto queimar na sua mão. A sobrancelha franziu em pura confusão, olhando para aquela pequena chama a arder na sua frente, Jordan conseguiu entender algo que até então não parecia sequer ter passado pela sua cabeça. A sensação de calor que aquela pequena tocha emanava sobre a sua pele fria, fê-la sentir algo que o seu corpo tinha saudade, mas a sua memória não reconhecia. Um flash de memórias começou a ataca-la bruscamente. Nessas memórias distorcidas e sequenciadas, Carter recordava os beijos que trocou com Van der Wood e então tudo fez sentido.

“Amor é fogo que arde sem se ver.” Essa foi a única frase que chegou a fixar quando decidiu apanhar o livro na biblioteca da mãe. O fogo, a volúpia, o desejo insano e a paixão eram oferecidos pelo rapaz de olhos verdes. O rapaz de cabelos bagunçados e tatuagens ao longo do corpo. O único de quem ela queria distância e proximidade simultaneamente.

– AH! – Carter gritou ao sentir a pele queimar. – Merda.

 

***

 

– Duas cervejas Ronnie! –  Daniel levantou a mão chamando a atenção dor barman. – Esta noite começamos devagar. Então Van der Wood…- rodou o banco giratório para ficar de frente para o amigo. -…vou tentar fisgar-te alguma informação e depois vou embebedar-te até te esqueceres do teu nome. Combinado? – sorrio tosco.

Harry sorriu de volta.

– Parece-me um bom plano.

– Este meu caro…-gesticulou com os braços -…é o melhor plano de sempre! Ok! Talvez não o melhor. – baixou os braços e ponderou. – Mas continua a ser um bom plano.

Harry riu do idiota ao seu lado. Daniel West era sem dúvida uma figura engraçada de se ver. Se alguém o visse na rua nunca imaginaria que na realidade ele traficava droga, ou fazia serviço sujo quando lhe era mandado. O seu ar simpático e as suas patetices amigáveis mostravam a sua real essência, o seu verdadeiro eu. West era a única pessoa que gostava de Harry por aquilo que ele era. Ele era seu amigo.

– West tu és o bandido mais imbecil que eu conheço! – Van der Wood conteve o riso.

– E ainda assim continuo a ser o teu único amigo. – acrescentou presunçoso.

Quando as cervejas foram pousadas na frente deles, pegaram-nas em simultâneo e bateram as garrafas uma contra outra, saudando-se pela primeira bebida da noite.

Depois de um primeiro gole, Daniel pousou a garrafa no balcão observando o movimento do bar naquela noite de sábado. O ambiente estava calmo demais para um fim-de-semana, mas eram ainda 23.00H e a música eletrónica só começava a tocar depois da meia-noite, ou seja, era sem dúvida o que ele precisava para ter uma conversa com Van der Wood.

Um grupo de homens entrou pela cortina de veludo vermelha e o som das gargalhas espalhafatosas preencheu o espaço. Eram 5, as suas idades variavam provavelmente entre os 18 e 30 anos. Todos vestiam roupas escuras e discretas. West franziu o cenho, quando percebeu Sparks entre eles. A pouco e pouco, o grupo de amigos foi-se aproximando do balcão, até Luke e os seus amigos estarem a menos de um metro de distância de Harry e Daniel.

– Sparks! – exclamou territorial, alertando Harry, que estava virado de costas para eles.

– Ora veja só, se não é Harry Van der Wood e a sua escumalha.

– O meu nome é Daniel. – rosnou desagradado com o apelido enfadonho que lhe foi empregue.

– Desculpa se ofendi o teu orgulho. Não era a minha intenção. Eu só vim cumprimentar o meu antigo camarada Van der Wood.

Harry olhou-o de cima a baixo, sem se importar se estava a ser evidente o seu olhar de enjoo ou não. Ele queria que Luke simplesmente desaparecesse sem que fosse necessário partir para a violência com já havia acontecido algumas vezes. – Já cumprimentaste Sparks, agora se me fazes o favor, põe-te andar!

– Van der Wood onde ficaram as tuas boas maneiras?

Harry pensou em ignorar a pergunta desnecessária de Luke, mas a verdade era que a sua vontade de responder à letra estava a queimar-lhe a ponta da língua e quando deu por si, as palavras já tinham saído. – No mesmo lugar que o teu cérebro Sparks, na merda.

Lucas não respondeu, engoliu o orgulho e afastou-se ladeado pelos outros quatro. Sentaram-se a duas mesas de distância do bar e agiram como se nada se tivesse passado.

– Qual é o problema do Sparks? – perguntou Daniel.

– Ele é um drogadinho de porra que acha que me consegue irritar com as suas palavras de bêbado e as suas indiretas ridículas.

– Eu acho que ele é um idiota de merda que conseguiu a miúda que tu queres!

Harry olhou-o embasbacado. A forma rápida e eficaz com que Daniel chegou a conclusões tão exatas fez com que Harry temesse a sua capacidade de descrição.

– Descansa Harry! – falou após um longo gole. – Eu conheço-te bem demais, mas só eu te conheço assim.

***

 

Duas margueritas depois e Harry e Daniel já nem se lembravam da presença dos outros. Os assuntos rondavam entre problemas de mercadoria e piadas do West. Harry ria verdadeiramente descontraído e relaxado como há muito não se sentia. Daniel West tinha a capacidade natural de baixar a temperatura hostil dos momentos mais tensos e criar um clima agradável. Ele era sem sombra de dúvidas a melhor companhia que Harry podia arranjar naquele momento.

– Luke como vai o namoro? – a pergunta, lançada por um dos amigos de Sparks, saiu propositadamente alta.

– Melhor impossível, sinto que cada dia que passa a Jordan está cada vez mais apaixonada por mim. – contou Luke, num tom mal ensaiado.

– Este teatrinho mal encenado…Filhos da..

– Calma Hazza! – West pousou a mão no ombro do amigo. – Eles querem-te provocar. Não lhes dês o gosto de ceder.

Harry respirou fundo levando ambas as mãos aos cabelos. Sabia perfeitamente que Luke estava bêbado e sedento por marcar o seu território. As falas preparadas para o momento saiam arrastadas e sonoras. Luke estava a tentar mostrar a Harry, de quem Carter realmente era e isso irritava-o. Ele não a amava, mas também não a odiava, longe disso. Sabia também que Daniel estava certo. Ele não devia ligar, não devia deixar que as palavras de Sparks o afetassem, mas era difícil fingir-se passivo.

– Porque ela não veio hoje connosco Luke?

– A Jay gosta de ficar no apartamento de vez em quando. – continuou provocante. – Ela sempre tem alguma surpresa quando eu chego a casa.

Harry levantou a cabeça obviamente instigado a virar-se, mas mais uma vez o aperto da mão de Daniel sobre o seu ombro, alertou-o de que aquela não era uma boa ideia.

– Uhhh! – cantarolou outro. – Parece que as coisas vão de vento em popa!

– Aquela miúda faz-me subir paredes Detroit.

As mãos de Daniel não foram fortes o suficiente para segurar o corpo que numa questão de segundos estava encostado à mesa dos 5 homens.

– Algum problema Van der Wood? – perguntou retórico. – O gato comeu-te a língua?

– Não Sparks, ninguém comeu a língua dele. – defendeu-o Daniel. – Harry vamos sair daqui antes que as coisas fiquem feias! – sussurrou em aviso.

– As madames vão ficar a cochichar, ou vão dizer aquilo que querem? – manifestou-se o loiro do grupo.

– Não queremos nada. – respondeu Harry cerrando os dentes. – Nós já estávamos de saída.

Harry recebeu um olhar aprovador do colega, e começou a ir para a saída. Apreciou o facto de o seu controle ter levado a melhor. Com a ajuda de Daniel não cedeu às bocas daquele filho da mãe como temia e conseguiu livrar-se de mais uma confusão desnecessária.

– Vai Van der Wood, vai para casa e sonha com a Carter. – gritou Luke usando a coragem bêbada para falar o que queria. – Só fica sabendo que é o meu nome que ela grita de noite, não o teu.

Basto um segundo. Quando percebeu, Harry já se encontrava por cima de Luke sincronizando golpes fortes e pesados na cara do rapaz. A descarga de adrenalina começou a tomar conta de si e o estrago que os seus punhos pesados causavam, era visível no rosto ensanguentado do outro.

Dois do grupo de Sparks conseguiram agarrar nele e seguraram-no pelos braços. Harry tentou debater-se contra esses dois, mas a força deles impediu-o de se soltar. Daniel tentou ajudar, mas logo apareceu o loiro na sua frente pronto para o atacar.

Luke levantou-se do chão com o olhar fulminante direcionado para Van der Wood. A passos lentos caminhou até perto do garoto rico. Encostou a face desfigurada na orelha dele e segurou-o pela nuca.

– Ela é minha Van der Wood. – murmurou ameaçador. – Eu já abdiquei de muita coisa por tua causa. A Carter não será uma delas.

A dor alastrou-se do seu estômago para o resto do corpo, quando o golpe forte e certeiro atingiu-lhe o abdómen sem dó nem piedade. O sabor metálico de sangue foi sentido na sua boca e o urrar de dor saiu-lhe pela garganta.

*Indian é uma marca de motos.

*Twinings – Marca de chá inglês.

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