Lady Rebel
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Lady Rebel – Capítulo 12

Música http://www.youtube.com/watch?v=tYXxGiC4I0E

Drogas, sexo e muito, muito Rock’N Roll. Sim! Aquela era a noite. A noite em que a sua liberdade seria finalmente atingida em plenitude. Onde ela fumaria, beberia e dançaria até o seu corpo implorar por descanso.

Há meses que ela sonhava com aquele dia. E tal como sonhou, “17Black” seria o palco do seu espetáculo. Nada melhor que festejar a primeira noite de liberdade do resto da sua vida, do que com a sua parceira de crimes pouco pecaminosos, Eleanor Lawrence.

Depois de um brunch matinal com a sua mãe e amigos mais chegados, Jordan disse que não passaria a noite em casa. A mãe reprovou a sua ideia, mas isso não impediu Carter de sair para celebrar o seu aniversário de 18 anos, com a melhor amiga.

O bar estava a abarrotar de conhecidos e desconhecidos a dançar nas pistas de dança, em cima de balcões e mesas, adolescentes suados e cheios de hormônios e testosterona, nuvens de tabaco e perfumes de grife.

Sim! Os milionários de Ashbourne College estavam em peso naquela noite, no “17Black”.

O vestido preto marcava toda a silhueta elegante e sensual da garota, as pernas destapadas atraiam os olhares de todos que por ela passavam. Jordan estava sentada sobre o balcão com as pernas cruzadas, o cigarro na ponta dos dedos e os olhos em Van der Wood.

– Jay por quanto tempo vocês vão ficar nisso? – Eleanor segurava uma palhinha no canto da boca, já mordiscada.

Jordan olhou para a amiga.

– Jordan eu posso não estar a olhar para a pista de dança, mas sei muito bem quem está lá a conseguir a tua atenção.

Carter não respondeu. Deu um impulso para a frente e saltou do balcão. – Ronnie!

– Sim Carter!

– 15 Shots se faz favor. Para mim e para a Lawrence!

O homem de cabelo negro sorriu malicioso. Estava muito provavelmente, interessado em saber quantos shots elas conseguiriam suportar.

***

– Porra Jay, eu acho que desta eu entro em coma alcoólico! – Eleanor exclamou por cima da música, batendo com o seu 6º copo de vodca no balcão, depois de exibir a inevitável careta.

Jordan bateu também com o seu copo no balcão escuro e riu da careta de Eleanor.

– Carter!

Ela virou-se para a voz que a chamava. Era Harry quem estava na sua frente, usando um par de calças pretas, uma t’shirt de decote em “V” em tons de verde-escuro e o mesmo casaco de cabedal que usou na noite em que saíram juntos.

Eleanor sorriu saindo de fininho propositadamente.

– Van der Wood! – entoou falsamente desanimada com a proximidade.

– O próprio. – sorriu presunçoso. – E a seu inteiro dispor.

– Não, mas obrigado. – respondeu seca, seguindo o mesmo caminho que Eleanor.

Harry agarrou-a pelo pulso obtendo automaticamente a atenção dela. – Carter, não te acanhes. – ironizou afrouxando o aperto. – Podes tocar-me, eu não mordo.

Jordan olhou para outro ponto do bar amaldiçoando-se mentalmente por querer agir de forma contrária ao que o seu corpo transparecia. Depois de duas respirações fortes ela conseguiu encará-lo novamente.  – Tu não vais conseguir o que queres só por porque te apetece. – antes que ele pudesse protestar, ela continuou. – Van der Wood tu não és nada de mais!

– Não? – interrogou-a espicaçando.

– Não Harry! Tu és só um mau vício.

– Vício? – perguntou retórico. – Acho que posso viver com isso.

– Um mau vício que eu vou corrigir. – completou afastando-se.

– Boa sorte com isso Carter! – gritou

Jordan não se conteve, levando a mão ao ar, ainda que virada de costas, levantou o dedo do meio para o rapaz, fazendo-o rir.

***

Música http://www.youtube.com/watch?v=OlvRcVGez6Y

A música mudou e Icona Pop passou a ser a nova música, Jordan saltava ao ritmo da batida da música e Eleanor acompanhava-a nos passos improvisados. Ambas riam sem propósito, graças ao efeito já notório do álcool.

Copos meio bebidos, estimulantes entre anfetaminas e drogas alucinogénias, eram ingeridos por todos naquele bar. Um antro de punição e ilegalidade, mas ninguém parecia estar consciente ou são o suficiente, para se preocupar com isso.

Alguns jogavam Guitar Hero, outros dançavam, bebiam, agarravam-se em cantos ou permitiam-se fazer pequenos espetáculos de strip tease sob os olhares desenvergonhados de vários adolescentes. Bartenders, de roupa justa e insinuante borrifavam mangueiradas de cerveja para grupos de jovens alucinados e excitados. As luzes irregulares, eram coloridas em tons de verde e azul.

A vista turva e entorpecida contribuía para a evasão da Jordan. As formas disformes e os ruídos provindos das colunas enormes não pareciam abalar a estranha sensação de leveza e serenidade que os medicamentos causavam no seu sistema.

Um par de mãos enlaçou a cintura dela quando ela menos esperava, de repente dois olhos azuis cintilantes encontraram os seus.

– Luke! – sorriu.

O moreno acabou com o espaço que os separava e depositou estrategicamente a sua cara no pescoço dela. – Feliz aniversário Jay! – sussurrou no ouvido dela, mordiscando o lóbulo da orelha dela.

O evidente arrepio de Carter, fê-lo sorrir satisfeito por ainda conseguir despertar algum efeito nela. Mas Luke era seu amigo e ela não queria dar-lhe falsas esperanças.

Pelo menos foi o que ela pensou até ao segundo em que os seus olhos pousaram sobre um certo Van der Wood acompanhado por uma mulher visivelmente mais velha e voluptuosa.

Harry beijava descaradamente a morena e fazia-o de forma provocadora, e a certeza de que ele estava a tentar provocar-lhe ciúmes, veio quando os olhos de Harry se abriram durante o beijo, apenas para ter a certeza que Jordan estava a ver.

Carter rosnou internamente antes de pagar na mesma moeda. E sabia quem seria o seu cúmplice naquele pecado.

Luke não precisou de concordar em nada, Carter simplesmente puxou-o mais para si e começou a dançar colada ao rapaz.

A sensualidade do balançar das suas ancas proibia que o instinto masculino de Luke as largasse. A bebida era sempre uma grande ajuda na sua inibição e Carter estava a aproveitar cada milésima de coragem que naquele momento lhe era oferecida, usando o seu corpo sem pudor para obter a sua tão desejada vingança.

Quando ela teve a certeza que os olhos verdes estavam a cercá-la, Carter deu o último sinal que faltava e deixou que Luke a cobrisse de pequenos beijos ao longo do pescoço.

A sensação de arrepios era boa e prazerosa. Luke não era nem tão agressivo, nem tão intenso quanto Van der Wood. Ele era apenas morno e reconfortante, mesmo em momentos menos românticos como aquele.

– Carter! – chamou-a ofegante. – Eu não sei…O que isto significa, mas eu só quero que saibas que eu…

– Luke. – Afastou-o. – Não digas, por favor não digas…

– Mas…

– Não digas. – gritou antes de fugir.

***

– Ronnie! Um Devil’s Springs. – pediu cruzando ambas as mãos sobre o balcão.

– Carter eu não sei se isso é boa ideia.

– Eu não te perguntei se achavas boa ideia. – olhou séria. – Ou perguntei?

O copo cheio de álcool diluído em água, foi colocado estrategicamente na sua frente. Carter mexeu-se para pegar no objeto e num movimento descoordenando atirou a bebida garganta abaixo, permitindo que o ardor a consumisse durante poucos segundos.

Música (http://www.youtube.com/watch?v=GchEVSx9XEA)

O DJ mudou a música e ela sentiu a palpitação acelerada do coração.

A última vez que a ouviu fora na noite em que o viu pela primeira vez. Em mil anos ela nunca esperaria se recordar da canção, mas por mais estranho que possa parecer ela se recordou. Mesmo estando já em estado crítico.

Deambulando entre os suados e drogados, Jordan andou sem rumo procurando pela sua melhor amiga. Ela precisava sair dali. Um pouco de ar fresco ia ajudá-la a acalmar o seu coração teimoso e espairecer as ideias.

– Jordan tu não vais deixar-me pendurado quando a nossa música está a tocar, pois não?

Jordan não soube o que mais a pasmou, se foi o facto de Harry se lembrar da música, ou o facto de ele pedir-lhe para ela ficar.

Num passo de distância apenas, os braços fortes de Van der Wood acorrentaram-na e os lábios dela chocaram contra os dele.

Um desejo insano e uma sensualidade tangível, formavam uma bolha invisível em volta daqueles dois.

O gosto de tabaco e álcool identificava-se nas línguas quentes e angustiadas. Os sempre bem-vindos calafrios enlouqueciam a rapariga de cabelos castanhos. Ele segurava-a forte contra ele, movendo-se vagaroso sem querer libertá-la.

Harry cambaleou até encontrar onde pousar Jordan, para que ela ficasse ao nível dele.

A casa de banho masculina era o centro daquele momento escaldante. Os lábios dele descaíram em busca da pele morna e inebriante de Carter e o calor dentro deles, avisou-os que era hora de abrandar. Aquele não era o local certo para prolongar a ação que ambos tinham em mente.

Harry encostou a testa à dela. As respirações fortes e irregulares faziam com que os peitos se movimentassem freneticamente. Os olhos azuis e verdes estavam fechados e pensativos.

As imagens da noite em que o conheceu passaram como um filme lento na sua memória. Carter podia se lembrar detalhadamente de cada segundo que esteve em contacto com Harry pela primeira vez…

– Eu queria…- começou rouco – Eu queria ter feito isto no momento em que te conheci Carter.

Abrindo os olhos, Carter encontrou os verdes de Harry. Ele estava demasiado próximo e os seus lábios demasiado convidativos. Nenhum tinha vontade de ignorar aquela vontade crescente e lasciva. Apertando as bocas uma contra outra Harry sentiu uma lágrima entrar em contacto com a sua pele. Rapidamente entendeu que era de Carter.

– Jordan por que…

– Não é nada! – respondeu comprimindo mais os lábios, contra os dele.

Harry afastou-a. Pensou em dizer algo, mas não sabia o quê.

Sem grande experiência na matéria, Van der Wood limitou-se a abraçar a rapariga vulnerável, aconchegando-a no conforto dos seus braços.

***

Música http://www.youtube.com/watch?v=UvMZGSsXkJ8

Eles não tinham a real noção de quanto tempo ficaram abraçados, mas era certo que estavam ali fechados há mais de uma hora. A atmosfera voltou a diminuir a tensão. Depois de acalmar o choro e de se recompor dentro dos possíveis, Jordan reanimou o espírito e deu início a um diálogo banal e eclético. Ambos riam genuinamente alegres das piadas que eram contadas, de vez em quando, Harry roubava beijos rápidos e calorosos fazendo com que a linha de raciocínio de Jordan se perdesse. Ela protestava dando pequenos socos no ombro dele, pedindo que ele parasse e isso só fazia com que ele tivesse mais vontade de beijar.

Ela sentia-se plena. Estava realmente feliz pela primeira vez naquela noite e por mais incrível que pudesse paracer, era Harry o motivo das suas gargalhadas honestas.

– Shhh! – gesticulou Jay colocando o dedo indicador na frente da boca. – Cala-te Van der Wood.

Ainda segurando-a contra ele, Harry levantou uma das sobrancelhas, mantendo o sorriso torto. – O que foi Jay?

Ela sorriu bêbada e passou as costas da mão na bochecha dele antes de responder.- Preciso de um minuto de silêncio.

Ele olhou-a estranho e ela riu infantil.

– Preciso de um momento de silêncio em memória a tudo que eu nunca disse, mas deveria ter dito. – explicou.

– E o que seriam essas coisas? – a voz saiu arrastada e sensual, enquanto ele entregava beijos ao longo do peito e pescoço dela.

– Se eu te contasse… eu teria que te matar! – Harry parou para poder olhá-la surpreendido. – Foi o que tu me disseste uma vez.

Puxando-a pela nuca, plantou um pequeno beijo molhado nos lábios dela. – Eu sei de algo que devias ter contado.

Jordan que começou a brincar com fecho do casado de Harry, levantou o olhar no mesmo instante. Um vislumbre de coragem ou o efeito do álcool, pareceu querer expor-se e ela tragou um pouco de oxigénio antes de falar…

– Eu já sei quem é a Bella. – cuspiu crua. – A tua mãe contou-me.

A escuridão tomou os verdes olhos. Harry fixo em frente parecendo ter uma ideia.

– Eu sei que tu e o Fitz beijaram-se Carter.

Não foi preciso dizer mais nada para que aquele clima se desvanecesse no mesmo instante. Jordan olhou-o profunda e colocando ambas as mãos no peito dele, empurrou-o com toda a força que ainda tinha.

– Aquilo foi um erro. – atirou as palavras exasperada.

– Eu acho que não ouvi bem!

Como se tudo ficasse em câmara lenta, Eleanor entrou na casa de banho a passos curtos mas eficazes, caminhou ao encontro daquela que conhecia como melhor amiga e olhou-a. O pior dos olhares. Ira, ódio, rancor, horror e desprezo.

Aquele olhar foi o suficiente para que o chão desaparecesse e o abismo o substituísse. A mão de Eleanor sobre a cara da Carter, soou clara e dolorosa. A inevitável marca vermelha logo deixou a sua estampa na bochecha dorida. Jordan colocou a mão sobre o hematoma demasiado assustada para encarar Lawrence. Demasiado culpada para olhá-la nos olhos. O azulejo frio gelava as suas pernas descobertas, mas era a dor que fazia estremecer. O castanho dos olhos de Eleanor estava diluído em água que escorria como uma cascata. Jordan também chorava mas não mostrava as lágrimas, porque no fundo sabia que era merecedora delas, sabia que eram justas e devidas. Ela não era digna de chorar em frente a Eleanor, não era digna de se sentir mal perto da única vitima naquele lugar.

– Vadia. – gritou.

Uma palavra tão pequena com um efeito tão destrutivo. Aquela não era a primeira vez que alguém a chamava assim, mas era a primeira vez que aquela palavra havia adquirido um significado real. Carter sentia-se uma vadia, desde os pés até à ponta dos seus cabelos. Ela tornara-se desprezível no momento em que pecou, em que enganou, em que fingiu nada ter acontecido. Ela merecia sofrer.

– Els… – soluçou embaraçada.

– CALA A BOCA. – disse três oitavas acima. – Porquê? Eu pensei…- limpou bruscamente as lágrimas que teimavam rolar. – Eu pensei que éramos amigas, pensei que éramos irmãs.

– Els..

– EU JÁ DISSE PARA CALARES A MERDA DA BOCA CARTER! – o descontrolo era visível a quilómetros, Eleanor estava desequilibrada, desgovernada, despedaçada. A voz lacrimosa ameaçava o impacto que aquela verdade tão bruta tinha causado no coração da morena. – Tu és a maior deceção da minha vida. – disse fria. – Eu não acredito. De todas as pessoas neste mundo, eu nunca pensei que TU tivesses a coragem de me trair assim.

Antes que Eleanor tivesse a oportunidade de levantar a mão mais uma vez, Harry reagiu e segurou o punho dela no ar.

– Larga-me Van der Wood! – tentou empurra-lo, mas em vão.

– Lawrence vai-te embora, tu não estás em condições de continuar esta discussão. – falou sério. – Aliás, nenhuma de vocês está em condições.

Eleanor manuseou o seu braço para trás, conseguindo soltar-se do rapaz. Olhou ríspida para ele e depois para Carter. A maquilhagem manchava a sua pele branca, dando-lhe um aspeto acabado e macabro. Sem mais nada a acrescentar, Lawrence saiu porta fora sem olhar para trás ou hesitar uma vez, deixando Carter desolada.

Música http://www.youtube.com/watch?v=B2IBn41eI4A

Harry não vacilou ao pegar na rapariga caída no chão. Jordan não conseguia falar, apenas chorava culposamente enterrando a cabeça no pescoço dele que a segurava no colo, como quem segura uma criança pequena.

Ela tinha acabado de perder a única pessoa que amava no dia em que supostamente deveria estar a comemorar a sua liberdade na companhia de Eleanor.

– Jay…Eu sinto muito.

Jordan respondia com mais lágrimas e soluços. Envolvendo o pescoço dele com os braços, ela manteve a cabeça enterrada no seu peito, molhando a camisa verde com o choro infindável e melancólico.

Um surto de consciencialização pareceu doma-la de repente. Carter começou a balançar-se e a debater-se contra o corpo de Van der Wood, tentando que este a largasse. A força com que arqueava as pernas e agitava o corpo, fez com que Harry a pousasse. Os olhos azuis dela estavam rodeados de vermelho e preto, o desgaste do seu choro misturado com a maquilhagem desbotada, faziam-na parecer decadente. No entanto havia uma intensidade negativa naquele olhar, Harry sabia que algo não estava certo.

– A culpa é tua. – acusou-o frígida.

Ele ficou embasbacado e perplexo, mesmo sabendo que a sua acusação não era de todo mentira, ele não gostou do tom que ela usou para o incriminar. Harry não era o vilão daquela desgraça, mas também não era a sua vítima. Ele tinha culpa no cartório e Jordan estava a tentar aproveitar-se disso para justificar o seu erro.

– A culpa é minha? – perguntou apontando para o próprio peito.

– Sim! – disse alto batendo também o dedo no peito dele. – Se tu não tivesses falado nada a Els não teria ouvido e eu…

– Hey calma aí Carter! – levantou as mãos no ar. – Eu só disse a verdade, quem beijou o Fitz foste tu!

– Mas foste tu quem lhe contou.

A denuncia era em parte injusta, Van der Wood sabia muito bem que aquilo foi incorreto e maldoso, mas Carter estava a tentar tirar vantagem da situação.

Irritado, Harry agarrou os braços de Jordan e apertou-os propositadamente.

– Tu falaste da Bella! – uma lágrima caiu.

Alguns dizem que os olhos são o espelho da alma.

Naquele momento Jordan confirmou que de facto, eles eram. O sofrimento de Harry era quase palpável e a raiva também. Ela ficou com medo, ficou petrificada. O seu corpo tremia em sincronia, com as mãos agitadas de Harry.

O ódio explícito por trás dos olhos, o rancor, o desprezo e a tristeza, refletidas nas mãos grandes que seguravam-na com força. A dor começava a ser latejante. Jordan respirava nervosa em companhia do seu batimento cardíaco desenfreado.

– Harry larga-me. – implorou baixo.

Harry franziu o cenho e então olhou o seu reflexo no espelho. Um ar maníaco, e assassino, um aspeto de pânico e terror. Virou-se para ela, demasiado assustado para encarar o seu próprio retrato e largou-a.

As mãos continuaram erguidas no ar, ele parecia lunático e vazio ao mesmo tempo. O olhar perdido e solitário que ninguém conhecia, o rosto infeliz e desolado que ninguém sabia da existência. Se não fosse o medo que sentia naquele momento e Harry não tivesse feito o que fez, talvez Jordan o tivesse abraçado naquele momento. Contudo os instintos falaram mais alto e ela preferiu sair ao invés de permanecer como mais uma espectadora daquele espetáculo de horrores.

Correndo o mais rápido que as suas pernas suportavam, Jordan saiu do bar e foi procurar a melhor amiga. A vista turva, sintoma do excesso de álcool e do choro, não permitiam que Jay visse as coisas com clareza. A noite era fria e escura, Carter cambaleava perdida em ruas desconhecidas e vandalizadas.

Num passo em falso, Carter caiu no meio da calçada esfolando o joelho no concreto.

– Ai! – choramingo.

As lágrimas fluíram naturais e desalmadas. Chorava perdida e inconsolável no meio do incógnito.

Eram lágrimas de ódio, de humilhação, de desespero, de medo. Lágrimas reprimidas e verdadeiras.

O som estridente e lamentável expunha todo o seu autodesprezo. Aquela não devia ser uma noite de sofrimento, não devia ser uma noite em que perdia a única pessoa com quem realmente se importava, a única com quem realmente partilhava algum sentimento puro. Não era suposto ela acabar a noite no meio da rua, a chorar lastimável, caída no chão. Não! Aquela devia ter sido uma boa noite, da qual um dia ela poderia se recordar um dia quando fosse mais velha.

Carter respirava fundo entre soluços espontâneos, tentando recuperar o folego e acalmar um pouco, quando de repente sentiu a presença de alguém a ajoelhar-se na sua frente. – Jay? – chamou num tom notoriamente preocupado. – Deus do céu Jordan! – Luke agarrou a menina de cabelos longos e envolveu-a no seus braços, tentando impedir que o vento gélido a atingisse.- Jordan o que aconteceu? – Carter tremia gelada e inconsolável. – Shhh. – sussurrava baixo tentando silenciar o choro. Luke movia os braços meigos, num embalo calmo e reconfortante e Jordan começava a amainar. – O que aconteceu flor? – perguntou apertando-a mais contra si. – O que te fizeram Jay?

Segurando a face de Jordan, Luke trouxe o olhar dela ao seu, tentando mostrar-lhe tudo que sentia sem que palavras fossem necessárias. A sinceridade nos olhos azuis do rapaz era tocante.

As lágrimas ainda escorriam pela face de Carter como se aquela fosse a única forma de expulsar toda a sua tristeza, toda a sua repulsa, toda a sua autoaversão.

Luke esfregou os seus polegares limpando a tristeza que não cessava. O frio daquela noite fazia com que ambos os corpos se contorcessem e as almas se abraçassem naquele momento tão verdadeiro e natural. Luke beijou todos os cantos da face de Jordan, limpando e varrendo a água que não queria parar de descer. Quando ele beijou o canto do lábio dela ele hesitou, ambos sabiam onde realmente ele queria colocar os seus lábios, mas aquele não era o momento.

Libertando o abraço, Luke sentiu as mãos de Carter segurá-lo em protesto.

– Luke por favor não me soltes. – implorou entre soluços. – Por favor.

Ele olhou-a surpreso e apaixonado. – Eu não te vou deixar Jay. – prometeu ele retomando o embalo – Eu não vou deixar que nada nem ninguém te magoe. Não mais.

***

Música http://www.youtube.com/watch?v=WfzRlcnq_c0

Quando chegaram ao apartamento, Luke pousou-a sobre a sua cama improvisada e deixou o aposento avisando que iria até à cozinha pegar um copo de água para Carter. Estar sozinha fê-la sentir outra vez o aperto no peito que ativava a alavanca para que o lacrimejar recomeçasse.

Luke voltou pouco depois com o copo na mão, mas assim que viu-a correr para a casa de banho, deixou cair o copo partindo-o em mil cacos de vidro.

Carter debruçou-se sobre o vaso sanitário e despejou todo o álcool do seu sistema. Luke segurou o cabelo dela, impedindo que este se sujasse.

O cenário infeliz de uma noite inesperada.

Quando Carter percebeu que a sua garganta já sangrava de esforço, deixou que a fraqueza a tomasse e desmaiou.

– Jay? – ouviu vagamente. – Jordan acorda. – o corpo era agitado freneticamente, mas as suas pálpebras pesavam demais. – Carter por tudo que é mais sagrado, acorda!

A escuridão surgiu e como em muitas outras noites, abraçou-a como uma filha querida.

Luke pegou na rapariga desacordada e deitou-a sob o seu peito, na banheira branca e enferrujada, com a mão livre procurou a torneira e a água gelada começou a cair sobre ambos.

O frio hipotérmico despertou Jordan e Luke suspirou aliviado.

– Luke?

– Estou aqui Jay!

Indo ao encontro do olhar azul cintilante, Jordan virou-se para Luke e abraçou-o grata. Luke fechou os olhos e deixou que aquele momento se registasse na sua memória. O corpo quente de Jordan contra o seu, o batimento cardíaco dela perto do seu peito, o toque suave e verdadeiro que tantas vezes ansiou sentir. Tudo aquilo, no mais inesperado dos cenários.

– Luke! – chamou-o novamente ainda abraçando-o. – Porque é que cuidas de mim assim?

Os olhos azuis abriram-se de súbito. Pareceram adquirir uma maior profundidade quando aquela questão foi libertada. Ele podia dizer as coisas de forma objetiva, dizer o que realmente sentia, mas ele não queria correr o risco de tê-la longe de si outra vez.  – Porque eu me preocupo mais com os teus sentimentos do que com os meus Jay.

– Não devias.

***

Deitá-la na sua cama sempre foi um sonho utópico e apesar das circunstâncias, ele estava a acontecer naquele momento.

Quando finalmente perdeu os sentidos, Luke deixou-se ficar encostado a Carter, observando a sua beleza adormecida, o escuro impedia-o de analisar todos os traços, mas ainda assim ela continuava a achá-la linda.

– Se tu soubesses o quanto eu te amo Jordan Carter. – suspirou aconchegado contra o corpo da rapariga adormecida. – Só Deus sabe o quanto eu imploro pelo dia em que tu serás só minha.

2 Comments

  1. Eu não sei como fazes isto Carol, mas é simplesmente incrível! Num só capítulo tu consegues fazer-me sorrir e chorar, de uma forma demasiado intensa para ser compreendida. A maneira como expressas cada pequeno detalhe, como explicas cada sentimento é tão real que consigo imaginar-me a vivê-lo. Porquê que fazes isto?! Tu, melhor que ninguém, sabes o efeito que LR tem sobre mim e, no entanto, pareces não querer parar… Honestamente eu também não quero que pares, tudo isto é demasiado bom para ficar guardado no teu roupeiro. Agora, por favor, não deixes que o meu batimento cardíaco aumente ainda mais e trata de me deixar feliz com o próximo capítulo! Estou mais que orgulhosa de ti…

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