Lady Rebel
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Lady Rebel – Capítulo 11

Lady

– Obrigada Abigail.

A empregada sorriu meiga para as duas mulheres à sua frente e depois retirou-se silenciosamente.

– Então Jordan… – Grace falou. – Qual é o assunto que te trouxe aqui?

Desde a atitude bruta e indelicada que Harry teve naquela noite, Jordan criou uma espécie de necessidade sobrenatural em descobrir quem era a garota da fotografia. Ponderou várias vezes em falar com Grace, mas depois de muito deliberar, chegou à conclusão que se realmente queria obter uma resposta para aquele quebra-cabeças, a única pessoa que poderia ajudá-la era mãe de Harry.

Agora, que estava sentada ao lado de Grace, no sofá da sala de estar dos Van der Wood, segurando uma chávena de chá entre as suas mãos, a missão que a arrastou até ali, pareceu ter-se se dificultar mil vezes mais.

– Er.. Bem eu…- Jordan gaguejou tirando um punhado de cabelo da frente da cara. – Grace eu queria-lhe fazer uma pergunta.

Grace sorriu abertamente. Havia algo naquela mulher que deixava todos ao seu redor à vontade para falar de qualquer tema. Jordan não sabia dizer se era a sua extrema simpatia ou a sua aura iluminada, mas Grace tinha a capacidade de tornar tudo mais fácil, bastava mostrar o mais doce dos sorrisos e a tensão se dissipava.

– Eu…- respirou fundo deixando que o assunto fluísse. – Há cerca de duas semanas atrás, quando eu estive aqui pela primeira vez…– começou olhando vagamente para a chávena entre as suas mãos. – …Eu fiz uma pergunta ao Harry que inesperadamente o incomodou…- a rapariga de cabelos castanhos fechou os olhos ganhando a coragem que lhe faltava .- …Eu juro, juro que não tive a intensão de o magoar ou perturbá-lo, quando eu perguntei-lhe sobre ela foi na pura inocência.

O semblante sorridente de Grace desapareceu no mesmo segundo em que percebeu o quanto angustiada, Jordan parecia estar. Mantendo a postura angelical, Grace pousou a sua chávena na mesa de centro e colocou uma das mão no ombro de Carter, tentando acalmá-la com aquele pequeno carinho.

– Jordan, meu anjo não precisas de ficar assim.

– Desculpe.

– Oh! Meu anjo não há o que desculpar. – Grace levantou o olhar em busca de algo que Jordan não soube dizer. – Eu sei o que te trouxe aqui e não te preocupes, eu vou contar tudo.

– Eu só quero saber…

– Quem é a Bella. – completou-a assertiva.

– Sim. – Jordan olhou-a surpresa.

Seria estranho não admitir, que a rapariga ficou um pouco admirada, com o conhecimento prévio do assunto em questão..

Grace endireitou mais as costas e passou as mãos sobre a saia verde, adquirindo uma postura mais séria.

Sem trocar o olhar com Jordan, começou a falar. – A Bella foi a pessoa que o meu filho mais amou nesta vida. Ela e o Harry tinham uma relação demasiadamente especial. – sorriu para o nada, como quem recorda um bom momento há muito distante. – Quando tudo aconteceu, o meu menino não conseguiu lidar bem com a situação. O Harry não conseguia aceitar o facto da Bella ter morrido. Ele…Ele perdeu-se. –  a voz era profunda e infeliz. – Começou por fumar… Quer dizer, ele já fumava antes, eu sempre soube, mas não tanto! Depois veio a bebida…- Jordan reparou quando ela virou o rosto para o lado.-… As saídas de noite eram constantes…A tatuagem com o nome dela. E a manhã em que ele simplesmente não apareceu. Fiquei desesperada, perdida…Eu pensei que…Deus nem gosto de o dizer em voz alta.

Com os olhos a marejar, Grace olhou novamente para a menina na sua frente.

Jordan fez questão de pegar na sua mão, em puro ato de condolência. – Sra. Van der Wood, não chore. – a rapariga pediu. – As pessoas boas nunca deviam chorar. Pelo menos, foi o que o meu pai me sempre disse, enquanto ainda era vivo. Não tem de continuar esta conversa se não quiser, eu compreendo perfeitamente.

– Eu sei! Mas eu quero. – Grace falou convicta devolvendo a simpatia. – A Bella… Ela morreu apenas com 18 anos. Na verdade ela morreu na véspera dos seus 19 anos. – acrescentou. – Nessa noite, o Nicholas ligou para casa a pedir ao Harry que o fosse buscar ao aeroporto, ele tinha passado toda a semana fora a tratar de negócios da empresa e o carro que tinha ido buscá-lo teve uma avaria. Ele ligou por volta das oito e quem atendeu foi a Bella. Assim que desligou, a Bella foi chamar o Harry para que ele fosse buscar o pai, mas ele disse que não podia, então a Bella como boa irmã ofereceu-se para ir no seu lugar…

– Boa irmã?– interrompeu confusa.

– Sim!

– Eu pensei que a Bella fosse namorada do Harry.

– Não minha querida, Bella Van der Wood era a minha filha, ela era irmã do Harry.

– Eu não fazia ideia. – disse ainda surpreendida. –  Mas desculpe pela interrupção.

Grace sorriu meiga e recomeçou. – Onde é que eu ia mesmo? Ah sim… Ela saiu cerca de 10 minutos depois do pai ter ligado e…- parou de falar, como se tivesse em busca das melhores palavras para relatar o que vinha de seguida. – Cerca de uma hora e meia depois de ela ter saído, eu recebi uma chamada. Era do hospital e… – naquele momento, as lágrimas que até então lutavam para ser contidas dentro do oceano azul, caiam como uma cascata melancólica, deixando Jordan com sentimento de culpa dentro dela por fazer Grace reviver memórias tão dolorosas. – Ela não suportou, o acidente foi muito violento, o carro capotou… ficou completamente destruído. – continuou entre suspiros pesados e olhares pesarosos. – A minha Bella não conseguiu, ela acabou por falecer pouco depois de termos chegado no hospital e foi o Harry a última pessoa a falar com ela.

– Grace não precisa…

– Ele culpa-se, Jordan. Ele culpa-se pela morte da irmã.

Dor. Uma profunda dor. Nada mais do que dor. Pela Bella, por Grace e acima de tudo, por Harry.

Os flashes de tudo o que se passou até ao momento, deram uma volta de 360º a 1000km/hora e Jordan percebeu. Percebeu o olhar lúgubre, desolado, o olhar morto de Harry.

Ele culpava-se pela morte da irmã. A pessoa que supostamente ele mais amou.

A perplexidade tomou-a por completo e Jordan não conseguiu não chorar.

Agora ela entendia a repentina frieza, a maneira maliciosa como ele a tratava, as bocas e os jogos mentais.

Era tudo uma grande fachada. Uma personagem criada, em prol da sua necessidade de esconder o seu passado. O seu coração.

 

***

Depois de as lágrimas cessarem e de ambas se recomporem, Carter agradeceu e desculpou-se por ter causado tanto transtorno.

Grace amável como sempre, não culpou a rapariga pelo sucedido e abraçou-a de forma carinhosa, antes de ela despedir-se.

Prestes a sair, Carter lembrou-se de algo e voltou para poder esclarecer uma última dúvida repentina. – Grace?

– Sim querida?

– Só mais uma pergunta! Como é que soube que este era o assunto que eu queria abordar.

Mais uma vez a matriarca dos Van der Wood sorriu. – Jordan, eu conheço o meu filho muito mais do que ele pensa. E existe apenas um assunto que é capaz de deixá-lo desolado. Esse assunto é a Bella.

Jordan deu um meio sorriso e assentiu com a cabeça, antes de se virar e abandonar a casa definitivamente.

***

Durante todo o percurso até o apartamento, Jordan errou duas vezes no caminho.

Quando finalmente chegou, foi direta para o quarto. Até alguém ter chamado a sua atenção.

Uma moça loira estava sentada no banco do piano preto da sala. Ela usava um colete de ganga claro e um vestido comprido e colorido em tons de castanho e laranja. O cabelo estava solto e despenteado. Os olhos castanhos encontravam-se concentrados em algo na sua frente e estranhamente, ela não tinha reparado ainda em Carter.

Jay pensou em abordá-la, mas quando viu Emma a passar do corredor para a cozinha sem comentar nada sobre a presença da loira, ela foi atrás da empregada esclarecer a sua dúvida.

– Emma? – Carter chamou a empregada, enfiando a cabeça para dentro da cozinha.

– Ai Jesus! – exclamou Emma colocando uma mão sobre o peito. – Jordan assustaste-me.

– Desculpa Emma! Eu queria fazer-te uma pergunta. – disse enquanto acompanhava Emma com o olhar, a arrumar a loiça. – Quem é a maluca ali na sala?

A empregada parou, fechando a porta do armário em cima dela e limpou as mãos no avental branco do seu uniforme. – Aquela na sala de estar é a menina Carter.

Jordan franziu o cenho confusa.

– Ela é tua prima Jordan.

– Minha quê?

– Aquela moça na sala de estar é tua prima. – repetiu. – Pelo pouco que entendi da conversa dela com a tua mãe, ela era prima do teu pai, prima de 2º grau se não me engano! – acrescentou levando o dedo indicador ao canto da boca. – Os pais dela vivem em Portugal e ela veio para Londres estudar.

– E o que exatamente ela está a fazer aqui?

– Tu e a dona Camille são a única família dela aqui em Londres. – respondeu como se fosse obvio.

– Como é que ela se chama?

– Milla!

– Milla? – torceu a boca.

– Milla.

– Ok! Acho que vou dar uma palavrinha com a prima Milla.

***

Nicholas Van der Wood deambulava de um lado para o outro no escritório e Harry permanecia sentado na poltrona em frente à secretária de carvalho negro do pai.

– Como estão a correr as coisas? – Nicholas soou ríspido.

– Correndo.

– Harry eu não gosto de rodeios! – parou junto à poltrona. – Ou estão a correr bem ou mal! Esses joguinhos mentais não funcionam comigo. Lembra-te que fui eu quem te ensinou a jogar. Se eu confiei em ti para tratares disto é suposto fazeres as coisas da forma certa.

Harry não contrapôs o pai. Sempre que o fazia acaba mal, muito mal.

O medo de o desapontar, chegava a superar o seu medo de morrer em certos momentos. Harry não gostava quando o olhar reprovador do seu pai, lhe era dirigido de forma tão crua. Fazia-o sentir pior do que ele já pensava ser.

– As coisas estão a correr bem pai. Eu só preciso de tempo.

Nick soltou uma gargalhada escabrosa, digna de medo. – Tempo! Já estamos nisto há demasiado tempo. Já reviramos este plano de uma ponta à outra. Ele tem tudo para dar certo, ou dar errado. Se não conseguiste nada no Highway não quer dizer que não consigas amanhã ou depois. – olhou para Harry e sentou-se no seu cadeirão de couro, ficando separado do filho, pela imponente mesa. – Porque é que não tens estado com ela?

Harry levantou os olhos e encarou o pai. – Ela tem perguntas que eu não quero responder. Mas o aniversário dela é este fim-de-semana. Vou tentar recuperar o tempo perdido e conquistá-la de vez

– Estás com medo das perguntas de uma miúda de 17 anos Harry? – perguntou em puro deboche. – Honestamente nem pareces meu filho. Começo a achar que és um bastardo. – apoiou um dos braços na mesa de carvalho e aproximou-se um pouco mais do rapaz. – Tu nem honrar o nome que te corre nas veias honras. És ridículo!

– Às vezes eu preferia ser mesmo um bastardo. – Harry não quis mostrar o quão magoado ele estava, ele sabia que se mostrasse o que realmente sentia quando aquelas palavras lhe eram dirigidas, o seu pai apenas comprovaria a sua teoria. Ele era ridículo, ele era um nada. – Este sobrenome é como uma maldição. – falou em sussurro.

– Qual é a pergunta que te assusta tanto?

– Ela quer saber quem é a Bella!

– Contas a verdade! – exclamou. -Parte dela.

– Contar a verdade? Eu não sei se tenho estômago para contar a verdade. A Bella…a Bella morreu por causa dela. Ela não tem o direito de sequer pronunciar o nome dela.

– Engole essa porra desse medo ridículo, veste a tua melhor máscara e se for necessário conta a verdade. – Gritou duas oitavas acima do necessário.

– Eu não vou conseguir.

– Ah vais, vais sim! – gritou ameaçador. – A bem ou a mal.

– Pai…

Nick levantou-se da cadeira e lançou-se para a frente agarrando o colarinho da camisa do filho. – Cala a boca e ouve-me! Tu vais acabar aquilo que começaste ou eu próprio o farei e tu podes ter a certeza que eu serei mil vezes pior. Eu não fui um assassino de um assassino porque tive medo ou receio da verdade! – os olhos azuis do homem brilhavam doentios e assustadores quando palavras tão horrendas, saiam de forma tão natural da sua boca. – Eu sou bem capaz de acabar com outra vida. Se isso implicar vingar a morte da Bella, eu mato.  – empurrou o corpo de Harry para trás. – Veste as calças e enfrente este filho da puta de destino porque ele não pensou duas vezes antes de te fuder! – o tom de voz insalubre era assustador até mesmo para Harry que já estava habituado. – Tu achas que aquele Carter teve pena do que fez? Achas? Ele não teve piedade quando matou a Bella. – parou pensativo. – Ele não teria em fazer o mesmo contigo. E se ele não o fez, foi porque morreu!

 

***

Jordan ainda não tinha tomado a iniciativa, continuava à espreita, a uma distância de segurança, enquanto observava a prima.

– Quando é que sais de trás dessa pilastra e vens perguntar aquilo que te está a atormentar desde que me viste?

– Eu não estava a esconder-me! – retrocou.

Milla mirou a prima no outro canto da sala e esboçou um sorrio de lado. – Eu não disse que te estavas a esconder!

– Touché.

Ambas sorriram.

– Tu não te lembras pois não? – Milla perguntou.

– É suposto em lembrar-me de algo?

A loira ignorou a sua questão e voltou a atenção para as teclas do piano. – Não. Mas pensei que te lembravas.

A passos rápidos e pesados, Jordan acabou com a distância que a separava da prima e numa tentativa frustrada de conseguir uma resposta, bateu com o punho no teclado do piano, obtendo um som estridente e doloroso para os tímpanos de ambas.

Os olhos castanhos de Milla encontraram os azuis de Carter sem qualquer vislumbre de intimidação ou medo, num movimento calmo e confiante ela levantou-se para ficar ao mesmo nível da outra. – “Vocês estão escritos nas estrelas.” – falou hipnotizante. – Agora já te lembras?

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Carol. 21 anos. Sonhadora a tempo inteiro, escritora nas horas vagas. Apaixonada por música, dança, moda e literatura. UMinho- Design e Marketing de Moda

1 Comentário

  1. Eu poderia ler Lady Rebel para o resto da minha vida e seria incapaz de me fartar. Tudo é tão mágico como se fosse sempre a primeira vez. E eu adoro isso, essa essência que tu pões nas palavras e me prende à história vezes e vezes sem conta. Fazes-me apaixonar de cada vez que abro um novo capítulo.

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