Lady Rebel
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Lady Rebel – Capítulo 10

 

* A chuva caía pesada, naquele final de tarde Londrino. Harry estava sentado no sofá da sala com as pernas cruzadas e um ar aborrecido, enquanto assistia A Walk To Rebember pela vigésima vez. A lareira estava acesa deixando o ambiente reconfortante. Era sem dúvida o dia perfeito para ficar em casa.

De acordo com Bella, dias chuvosos e chá das 17.00H, eram a combinação ideal para uma tarde bem passada, na companhia dos romances de Nicholas Sparks.

Ela não desgrudava os olhos cinza do ecrã. Olhos que grande parte do tempo eram verdes, mas sempre que o inverno ameaçava a sua chegada, mudavam para um tom de cinza cristal.

Assim que o filme começava, era como se rapariga entrasse num estado de transe e mais nada a seu redor fizesse sentido. Ela torcia habilidosamente, o seu cabelo castanho e pousava-o sobre o ombro esquerdo, uma atitude de pura concentração que Harry adorava observar.

A boca dela mexia-se em completa sintonia com a dos atores, mostrando que Bella sabia demasiadamente bem casa uma das palavras que seriam pronunciadas um segundo antes de elas serem ditas, e Harry não podia deixar de sorrir com isso.

Ela era a única capaz de o convencer a perder uma tarde de sábado para ver um filme romântico e lamechas.

A casa estava vazia e o único som ouvido por Van der Wood, era o da chuva e o da TV. Quando o filme acabou e os créditos começaram a surgir na tela, Harry olhou para a sua companhia.

Bella dormia exprimida no canto do sofá, agarrada a uma almofada. A sua expressão serena e angelical transmitiam paz a Harry. Era impressionante como nada nela parecia mudar ao longo dos anos. Harry podia jurar que em todas as vezes que assistiu filmes com ela, não houve uma vez em que ela não acabasse por adormecer nos últimos minutos do filme.

O estomago do rapaz roncou e Harry levantou-se desajeitadamente para buscar algo na cozinha, mas a voz de Bella interrompeu-o antes de ele mal dar o segundo passo.- Haz? – chamou-o ela.

Ele rapidamente correu para se ajoelhar perto dela. – Desculpa Bels eu não queria acordar-te!

A preocupação por trás das suas palavras era bastante lúcida.

– Harry tu não me acordaste, eu já estava acordada! – respondeu sonolenta.

– Claro, claro!. – brincou prendendo o riso.

– Estás a duvidar de mim Van der Wood? – Bella perguntou com falsa indignação.

– O que te faria pensar que eu estou a duvidar de ti?

– O que ias fazer?- a expressão alegre de Bella caiu assim que ela tirou as suas próprias conclusões- Não ias fumar, pois não?

– Não Bels, eu ia comer…

Por muito que Harry a amasse ele não podia deixar de se aborrecer com a constante implicância de Bella, ela sempre estava com um pé atrás em tudo que ele fazia e essa falta de confiança dela, magoava-o.

– Eu não gosto que fumes Harry! – sussurrou passando a mão no rosto do rapaz.

Harry colocou a sua mão por cima da de Bella e apertou-a, semicerrando os olhos. – Bella não vamos discutir isso agora, pois não?- perguntou ainda de olhos fechados.

Soltou um suspiro entristecido.- Não! Nós não vamos.

*

Era pelo menos a terceira vez que Harry revirara no meio da confusão de lençóis e almofadas.

O seu estado era deplorável. Inchaço forte em volta dos seus olhos, suor a encharcar-lhe o pijama e vazio estampado na sua cara. Era assim que Harry acordava quase todas as noites, nesta última semana.

Os demónios do passado e do presente pareciam querer juntar-se para poder criar um cenário melancólico e triste dentro do rapaz. Sempre surgindo nas suas madrugadas mal dormidas, como seres vagando sem rumo. Ele sentia- se encurralado na sua própria mente. Fez de tudo para evitar chegar àquele estado depressivo, mas fora inevitável.

Os mesmos sonhos vinham a atormentá-lo noite atrás de noite. As imagens turvas e caóticas passavam como fantasmas perdidos há muito tempo. Mas infelizmente os seus fantasmas não eram fruto da sua imaginação, eles eram reais e não morreriam tão cedo se ele continua-se a reviver o passado, a esmiuçar sobre ele e consequentemente, a torna-lo no presente.

Sempre que acordava ele podia jurar de pés juntos, que o cheiro a rosas e mel adentrava nos seus pulmões após uma primeira inspiração, depois ele desaparecia como se nunca lá tivesse estado.

O cheiro de Bella era inconfundível e nem em um milhão de ele esqueceria como ele o fazia sentir pacífico e reconfortado. Era como se ela estivesse do seu lado durante os seus momentos de inconsciência, e assim que ele voltava a si, ela simplesmente sumia, deixando apenas a saudade.

 

Os seus poucos momentos de esquecimento, aconteciam quando o álcool dominava-o, o tabaco sufocava-o e o sexo o distraia.

Este último em especial conseguia fazer com que a sua mente se esvaziasse e ficasse leve durante os poucos momentos de prazer carnal. A luxuria de ter uma mulher em baixo de si, fazia com que ele se esquecesse momentaneamente dos seus problemas. Hazza não se incomodava em usar um corpo vez ou outra. E o melhor de tudo era que nunca lhe pediam nada em troca, nunca lhe perguntavam nada, nem justificações. Funcionava como um negócio, um ato consensual sem quaisquer afetos, sem problemas.

Contudo, o seu dilema tornava-se mais insustentável de dia para dia e Harry não sabia durante quanto tempo estas escapatórias fariam efeito.

Ele era uma tragédia, um erro a ser corrigido. Um problema que a natureza preferiu ignorar.

A pergunta que pendia no seu inconsciente era, quem seria aquele a corrigi-lo. Aquele que o salvaria de si mesmo.

Essa ainda era uma incógnita à qual Harry acreditava não haver resposta possível.

Porque desde que ele perdeu a Bella, ele também perdeu tudo aquilo que o motivava a ser uma pessoa melhor.

A sua sorte era a sua personagem. Essa sim fora bem criada, mas deixara-lhe o mau hábito de não conseguir viver sem ela sempre que o sol raiava e mais um dia se punha de pé.

Ele era só, vazio e triste, mas não tinha conhecimento disso.

Van der Wood só enxergava a sua maldade interior, era essa que o alimentava, era essa que o impulsionava a agir.

Ele sabia muito bem quais os motivos que o levaram a sair com Carter há cinco noites atrás. Sabia que as suas intenções eram as piores possíveis e a pena não tinha espaço no seu coração.

Se não fosse Liam Hayes, ele teria resolvido o seu problema naquela noite. Mas Harry sempre acreditou que, se não era desta, era porque não tinha que ser. Ele esperaria cautelosamente até a sua justiça ser feita.

“Quem espera 3 anos pode esperar mais alguns meses!”

Não suportando mais um minuto de insónias, Van der Wood decidiu sair para espairecer. Na companhia de uma boa bebida e do fiel cigarro, Harry sabia que poderia pensar mais coerentemente.

Abandonou o quarto, ainda apertando os últimos botões da camisa e saiu discretamente.

 

XXX

 

A noite sempre foi mais real que o dia. É na calada da noite que a realidade vem ao de cima. No escuro tudo fica mais claro, mais autêntico. De noite, Harry Van der Wood era ele mesmo. Sem falsas conversas, sem falsos sorrisos. A farsa era deixada de lado e a verdade emergia em toda sua grandiosidade.

De noite ele era livre.

 

***

 

O antigo edifício que já não era utilizado desde 1967. Estava vazio naquela fria madrugada de sábado. Momento perfeito para esfriar a cabeça e reformular as ideias.

O casino abandonado servia de cede principal para Harry e o seu grupo, se juntarem sempre que necessário. A fachada principal do edifício, apesar de degradado, mantinha o seu ar imponente e arrojado, mostrando que um dia aquele foi um lugar de grandes festas e riqueza. A porta principal, estava presa por correntes e um cadeado que as unia, impedindo a entrada de qualquer um que tentasse invadir o casino. Harry no entanto, tinha a chave que destrancava aquela porta em vidro e metal o que permitia a sua entrada, que já era habitual à 2 anos.

Assim que a porta principal foi aberta, o primeiro vislumbre do seu interior fora o de uma grande escadaria em mármore, a escassa luminosidade não permitia uma perfeita análise do espaço àquela hora da noite, mas a beleza do casino não conseguia ser ofuscada pela falta de obras e limpeza. As paredes antes coloridas em tons extravagantes, eram agora sujas e empoeiradas em cinza. Máquinas de jogos, mesas de póquer, roletas, um palco onde um dia tocaram grandes orquestras e dançaram belas mulheres em trajes pouco apropriados há época, balcões corridos de bancos altos no mesmo tom de castanho, mesas circulares, cobertas por lençóis de tecido desgastado. A carcaça de um local, onde um dia homens e mulheres pecaram juntos, onde a ganância, a luxuria e a gula se juntaram em um só espaço e se congregaram num santuário de pecado humano.

Um cenário aprazível e propício para o seu dono. Harry era o rei naquele lugar. O chefe daquele bando de miseráveis. Mas ali ele era feliz. Ou pelo menos julgava ser.

– Van der Wood? O que fazes aqui? – Daniel West estava encostado numa das grandes pilastras que sustentavam o edifício, enquanto fumava um cigarro pacificamente.

– Desde quando é que te devo satisfações do que estou a fazer? – reagiu arrogante e defensivo. – Estou só a precisar de relaxar um pouco.

Daniel largou o cigarro no chão e caminhou até Harry.

– O Benny está a tratar das mercadorias esta noite! – informou. – Parece que o James ficou mais uma vez no Highway a tentar vender alguma coisa.

– Óptimo. – falou subindo o primeiro lance de escadas.

– Haz onde vais?

Harry ignorou a pergunta do capanga e subiu as escadarias de mármore no intuito de ficar sozinho e beber.

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1 Comentário

  1. Carol, Carol… Continuas a deixar-me apaixonada como se fosse a primeira vez. Não sei como o fazes, mas quando começo a ler Lady Rebel é como se entrasse numa nova atmosfera em que apenas respiro as palavras que escreves. Incrível, como sempre. Tu sabes muito bem o que penso e sinto em relação a isto.

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