Lady Rebel
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Lady Rebel – Capítulo 7

Lady

Libertando o seu pescoço do aperto da gravata, Van der Wood percorreu o parque de estacionamento da Ashbourne College em direção ao seu Land Rover preto

Ele estava a suar frio das mãos, enquanto lutava internamente para conter a imensa vontade de entrar na sala de aula e agredir o professor de História da Arte. Mas ele não o podia fazer sem mais nem menos.

E pelo pouco que sabia sobre si mesmo, Harry não nutria qualquer sentimento afetuoso por Carter, era tudo um jogo de sensualidade que ele usava para atingir os seus objetivos, que até ao momento não eram nem um pouco nobres. Contudo ele não conseguia evitar o orgulho ferido, venda-a tão entregue a um outro homem que não ele, sem que o mesmo tivesse feito grande esforço.

– Merda! – resmungou batendo com o punho no capô do carro. – Isto só vai atrapalhar os meus planos.

– A falar sozinho Van der Wood?

A voz era já tão conhecida de outros tempos, não o enganou nem por um segundo.

Soltou um suspiro alto e cerrou os olhos numa tentativa de acalmar o seu temperamento instável, ou pelo menos mante-lo controlado.

– Sparks. – soou seco. – O que fazes aqui? – Harry afastou-se do veículo e olhou para o rapaz de cabelos escuros e olhos azuis.

– Estava só a resolver uns negócios. –  Luke respondeu despreocupado.

– Negócios? – questionou-o cruzando os braços sobre o peito. – E que tipo de negócios um homem como tu tem para resolver aqui na Ashbourne?

– Coisa de peixe grande Van der Wood. – disse com um sorriso confiante.

– Vender drogas a um bando de adolescentes viciados, deve ser algo em grande para uma pessoa como tu, não é Luke – espicaçou em tom sarcástico. – Honestamente Sparks! Ou tu estás mesmo desesperado pelo dinheiro, ou então estás a perder as tuas qualidades.

– Aqui ninguém está a perder qualidades nenhumas! – Luke rebateu, tomando uma posição defensiva. – E tu sabes perfeitamente que o dinheiro é o meu real problema, caso contrário nunca teria convencido a Jordan a ir até ao 17Black durante a semana. E falando nela, tu ainda não me explicaste porque é que me pagaste para eu levar a Jay até lá?

Van der Wood manteve-se cabisbaixo, disperso à pergunta de Luke. O nome da garota reavivava as suas últimas memórias dela. Memórias essas que ele fazia questão de não recordar.

Aquilo era um problema. Um problema dos grandes. Se ele não tomasse rédeas à situação rapidamente, tudo que ele havia planeado iria acabar mesmo antes de começar.

Harry encarou a face curiosa e intrigada de Luke e sorriu em deboche. – Não é da tua conta. –respondeu por fim.

– Tudo que envolve a Jordan é da minha conta! – argumentou zangado. – E aliás… – acrescentou ainda, colocando o dedo indicador em frente da face de Harry. – Se tu estás a pensar em fazer-lhe alguma coisa eu…

– Tu o quê? – Harry levantou a voz. – Ouve bem Sparks. Eu não te quero ver envolvido mais do que já estiveste. Se tu por um acaso tentares seja de que forma for, meter-te nos meus planos, as coisas vão acabar muito mal para o teu lado.

– Então há um plano! – aquilo não foi uma pergunta.

Aquele assunto já estava a prolongar-se mais do que o que devia. De impulso, Harry empurrou Sparks para longe, focando nos intensos olhos azuis de Luke antes de entrar no carro.

Acelerou e saiu da escola com a cabeça cheia e os pensamentos a mil.

XXX

A ampla sala de estar dos Van der Wood era decorada em variados tons de pastel. As janelas que permitiam acesso à varanda, cobriam quase toda a parede a Este do local. Harry sentiu-se aliviado quando chegou a casa.

Aquele era o único local onde ele não tinha que fingir ser alguém que não fosse ele mesmo, onde ele não tinha que vestir a pele de Harry Van der Wood o bom menino.

Em casa, Harry podia ser apenas Harry. O rapaz solitário e incompreendido. O rapaz triste e vazio que ele sempre soube ser, desde à 3 anos atrás.

Entrou no seu quarto com o intuito de passar lá o resto do seu dia para refletir e se possivelmente chegar a alguma solução, mas a tarefa foi adiada assim que ouviu a voz da sua mãe pedindo que ele fosse até à sala de estar.

De contragosto, Harry levantou-se da cama, soltando um resmungo baixo e arrastou-se até ao encontro de Grace. Não se preocupou em vestir uma camisola, que escondesse as várias tatuagens que a sua mãe tanto odiava. Estava em casa e não se ia privar de estar à vontade no seu próprio lar.

Chegando na sala, viu a sua mãe levantar-se e sorrir-lhe, um passo mais á frente, surpreendeu-se com a outra figura que se encontrava do lado da matriarca da família Van der Wood.

Jordan estava ali. No único local onde ele achava que podia se expor sem que ninguém o julgasse.

E ela olhava-o de forma diferente.

Jordan olhava-o compreensiva, como se naquele nano segundo de contacto visual, ela tivesse entendido quem ele realmente era, o que ele realmente queria e do que ele mais precisava.

E invés do ódio que ele costumava sentir, ele sentiu alívio. Alívio por saber que ela já não estava mais com aquele homem, alívio por ver aquele novo olhar meigo vindo dela, alívio por tê-la por perto, mesmo que na maior parte das vezes, ele preferisse que ela estivesse longe.

– Harry! – chamou-o Grace, tirando Harry dos seus desvaneios momentâneos. – Eu chamei a Jordan aqui porque achei que fosses querer conversar com ela. A Jordan pode apresentar-te alguns dos seus amigos e talvez tu possas criar novas amizades, não achas?

Harry olhou para a mãe, sem saber o que responder ao certo. Muita coisa lhe passava na cabeça e nem uma dessas coisas servia de resposta à pergunta de Grace.

– Já que não me dizes nada eu deixo-vos aqui sozinhos. – avisou antes de sair da sala. – Ah! E Jordan! – recuou recebendo logo de seguida a atenção da garota. – Qualquer coisa que precisares é só pedir. Aqui não há quaisquer cerimónias, finge que esta é a tua casa.

– Obrigada.

XXX

 

Harry apresentava calma, até mesmo, uma certa indiferente à presença de Jordan.

Desde que Grace abandonou a sala, ele manteve-se sentado no sofá, desligado de tudo a seu redor. Soube que Jordan também mudou de posição, pois ouviu passos que acusaram os seus movimentos. Ele podia senti-la perto de si. Sabia que Carter estava à espera do momento em que ele desse início ao diálogo.

Mas a plenitude de Van der Wood, era apenas uma fachada. Por dentro ele estava a conter o seu tumulto interior. Harry estava a pisar em terreno desconhecido, e todo o cuidado era pouco. Ele tinha de manter o controlo e fingir que não tinha apanhado Jordan com o Mr. Fitz.

– Eu não sabia que tinhas tatuagens. – comentou baixo.

Foi uma observação interessante, pensou ele. E obviamente inteligente. Iniciar o assunto com algo simples e banal, para evitar os momentos tensos que sempre se instalavam entre eles.

– Porque é que vieste? – contrapôs, tomando controlo da conversa.

– O que se passa contigo Van der Wood? – perguntou, enquanto observava uma estante cheia de fotografias emolduradas.

Harry não gostou nem um pouco daquela pergunta. Foi inesperadamente invasiva e ele não queria dar-lhe satisfações sobre fosse o que fosse. O facto de a pergunta ter-lhe saído tão naturalmente, mostrava que ela havia ficado a estudá-lo durante os minutos de silêncio. E se existia coisa que Harry odiava, era ser observado. Jordan estava a tentar descobri-lo e isso ele não iria permitir. Ela não tinha o direito de saber de nada. Nada que fosse dele lhe dizia respeito. Nada, exceto uma coisa. Mas isso ficaria guardado até ao momento certo.

– Porque é que vieste? – insistiu ele impaciente.

Jordan bufou obviamente aborrecida com a insistência infantil de Harry, mas não se deixou afetar pela óbvia atitude defensiva.

– Eu vim porque a tua mãe me pediu. – falou segurando um porta-retratos nas mãos.

– Imaginei! – murmurou.

Ele sabia que tinha de haver um motivo por trás da vinda de Jordan à casa dos Van der Wood. Não fazia qualquer sentido ela visitá-lo sem mais nem menos.

No entanto, estranhou que ela tenha ido a sua casa, só porque Grace lhe pediu. Talvez estivesse entediada, talvez não tivesse nada para fazer naquela tarde, ou…Ou talvez estivesse na esperança que Harry lhe pudesse fazer esquecer do professor.

“Não! Não é isso”

– Quem é esta? – Jordan virou a fotografia para ele.

Aquela foi a gota d’água. A estabilidade que poderia haver, acabou assim que Harry colocou os seus olhos verdes sobre o porta-retratos que Jordan lhe mostrou.

Era uma memória de um dos seus últimos momentos felizes antes do trágico acidente. Eles passeavam por Londres com sorrisos alegres e sinceros. Sorrisos jovens e esperançosos.

Harry não soube explicar qual a sensação que teve naquele momento, mas a primeira coisa que ele quis fazer foi arrancar aquela moldura das mãos de Carter.

Colocou-se de pé e rapidamente foi ao encontro da garota. Sem se preocupar se a magoava ou não, Harry tirou a fotografia da mão dela e cerrou o punho.

Jordan ficou assustada. – Desculpa Harry eu não queria…

– Cala-te! – gritou. – Sai daqui!

– Mas…

– Merda, sai Jordan! – gritou mais uma vez olhando profundo no azul dos olhos dela. – Já!

O medo falou mais alto e ela preferiu não enfrentar a raiva que Van der Wood exalava naquele momento, então afastou-se do garoto e dirigiu-se para a saída, sem retornar a visão ou a palavra. Porém não conseguiu sair antes de pedir desculpa pela última vez.

A porta bateu e Harry cerrou os olhos apertando com força a moldura na mão. Suspirou pesado e deslocou-se até à estante, pousou o objeto e observou-o. Era estranho o quão vulnerável aquilo ainda o deixava. Ver aquela fotografia fazia-o reviver enumeras memórias onde a felicidade ainda lhe pertencia. Eram tantas as recordações que ele nem sabia como todas elas ainda cabiam no seu coração, na sua memória.

Aquela dor que sempre acabava por vir, explodiu finalmente dentro dele e ele lutou contra aquela vontade ridícula de chorar. Ali estava ela, imortalizada numa imagem linda. O seu sorriso iluminado, os seus traços angelicais e os seus olhos sonhadores e esperançosos por um futuro que nunca chegou. E tudo acabou da forma mais cruel possível. Tudo por causa de um erro estúpido, tudo por causa de motivos fúteis. Mas se dependesse dele, a justiça chegaria, cedo ou tarde, mas ela chegaria.

– Harry?

– Agora não mãe! – avisou ainda virado de costas.

Tudo que ele menos precisava no momento era da sua mãe a tentar acalma-lo e a dizer-lhe que tudo acabaria por ficar bem.

Ele odiava aquele discurso, sempre as mesmas palavras, sempre a mesma alusão ao tempo que passaria e afastaria as tristezas deixando apenas as memórias felizes.

“Mentira desmedida!” Era o que ele pensava sobre aquilo.

– Onde está a Jordan querido?

Não quis parecer simpático depois daquela pergunta, então para evitar confusões abandonou a sala…

– Foi-se embora! – respondeu saindo para o seu quarto. – Como todos os outros.

Quando chegou finalmente ao seu refugiu, Harry sentiu a humidade escorrer-lhe pela face. Ele não chorava há muito tempo e não era agora que ele quereria recuperar esse hábito. Num ato desesperado e aversivo, ele esfregou as mãos violentamente pela cara e tentou manter o pouco de lucidez que ainda achava ter.

Jordan havia sido impertinente. Ela não deveria saber de nada. Ainda era muito cedo.

Tudo parecia estar fora de controlo e Harry tinha acabado de estragar ainda mais a situação com o seu temperamento tempestuoso. Jordan fugiu dele. Ela havia ficado com medo e fugira. Ele agora teria que reparar aquilo, ou tudo que seria em vão. Se ele queria justiça, ele teria que resolver aquele problema o mais rápido possível.

Abriu os olhos e encarou o espelho à sua frente. Viu-se no reflexo e pensou mais uma vez em tudo que lhe aconteceu ao longo daquele dia. Carter e o Mr. Fitz, Luke na Ashbourne, Jordan em sua casa e finalmente, Jordan a questioná-lo sobre ela.

De tudo de mal que lhe poderia ter acontecido, decidira acontecer-lhe o pior. Ele ainda não estava preparado para enfrentar aquele fantasma. Ainda não era a altura certa, mas mesmo assim a sua falta de paciência arruinara aquele pequeno vínculo que começava a criar com Carter e agora ele teria que reconstrui-lo.

Não estranhou aquele olhar depressivo, carregado de dúvidas e incertezas na sua frente. Aquele era Harry Van der Wood.

No reflexo do espelho era ele. Era só ele. Ele e mais ninguém. Ele e a sua sombra, a sua única companheira. Harry estava sozinho na escuridão do seu quarto.

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