Lady Rebel – Capítulo 12

Música http://www.youtube.com/watch?v=tYXxGiC4I0E

Drogas, sexo e muito, muito Rock’N Roll. Sim! Aquela era a noite. A noite em que a sua liberdade seria finalmente atingida em plenitude. Onde ela fumaria, beberia e dançaria até o seu corpo implorar por descanso.

Há meses que ela sonhava com aquele dia. E tal como sonhou, “17Black” seria o palco do seu espetáculo. Nada melhor que festejar a primeira noite de liberdade do resto da sua vida, do que com a sua parceira de crimes pouco pecaminosos, Eleanor Lawrence.

Depois de um brunch matinal com a sua mãe e amigos mais chegados, Jordan disse que não passaria a noite em casa. A mãe reprovou a sua ideia, mas isso não impediu Carter de sair para celebrar o seu aniversário de 18 anos, com a melhor amiga.

O bar estava a abarrotar de conhecidos e desconhecidos a dançar nas pistas de dança, em cima de balcões e mesas, adolescentes suados e cheios de hormônios e testosterona, nuvens de tabaco e perfumes de grife.

Sim! Os milionários de Ashbourne College estavam em peso naquela noite, no “17Black”.

O vestido preto marcava toda a silhueta elegante e sensual da garota, as pernas destapadas atraiam os olhares de todos que por ela passavam. Jordan estava sentada sobre o balcão com as pernas cruzadas, o cigarro na ponta dos dedos e os olhos em Van der Wood.

- Jay por quanto tempo vocês vão ficar nisso? – Eleanor segurava uma palhinha no canto da boca, já mordiscada.

Jordan olhou para a amiga.

- Jordan eu posso não estar a olhar para a pista de dança, mas sei muito bem quem está lá a conseguir a tua atenção.

Carter não respondeu. Deu um impulso para a frente e saltou do balcão. – Ronnie!

- Sim Carter!

- 15 Shots se faz favor. Para mim e para a Lawrence!

O homem de cabelo negro sorriu malicioso. Estava muito provavelmente, interessado em saber quantos shots elas conseguiriam suportar.

***

- Porra Jay, eu acho que desta eu entro em coma alcoólico! – Eleanor exclamou por cima da música, batendo com o seu 6º copo de vodca no balcão, depois de exibir a inevitável careta.

Jordan bateu também com o seu copo no balcão escuro e riu da careta de Eleanor.

- Carter!

Ela virou-se para a voz que a chamava. Era Harry quem estava na sua frente, usando um par de calças pretas, uma t’shirt de decote em “V” em tons de verde-escuro e o mesmo casaco de cabedal que usou na noite em que saíram juntos.

Eleanor sorriu saindo de fininho propositadamente.

- Van der Wood! – entoou falsamente desanimada com a proximidade.

- O próprio. – sorriu presunçoso. – E a seu inteiro dispor.

- Não, mas obrigado. – respondeu seca, seguindo o mesmo caminho que Eleanor.

Harry agarrou-a pelo pulso obtendo automaticamente a atenção dela. – Carter, não te acanhes. – ironizou afrouxando o aperto. – Podes tocar-me, eu não mordo.

Jordan olhou para outro ponto do bar amaldiçoando-se mentalmente por querer agir de forma contrária ao que o seu corpo transparecia. Depois de duas respirações fortes ela conseguiu encará-lo novamente.  – Tu não vais conseguir o que queres só por porque te apetece. – antes que ele pudesse protestar, ela continuou. – Van der Wood tu não és nada de mais!

- Não? – interrogou-a espicaçando.

- Não Harry! Tu és só um mau vício.

- Vício? – perguntou retórico. – Acho que posso viver com isso.

- Um mau vício que eu vou corrigir. – completou afastando-se.

- Boa sorte com isso Carter! – gritou

Jordan não se conteve, levando a mão ao ar, ainda que virada de costas, levantou o dedo do meio para o rapaz, fazendo-o rir.

***

Música http://www.youtube.com/watch?v=OlvRcVGez6Y

A música mudou e Icona Pop passou a ser a nova música, Jordan saltava ao ritmo da batida da música e Eleanor acompanhava-a nos passos improvisados. Ambas riam sem propósito, graças ao efeito já notório do álcool.

Copos meio bebidos, estimulantes entre anfetaminas e drogas alucinogénias, eram ingeridos por todos naquele bar. Um antro de punição e ilegalidade, mas ninguém parecia estar consciente ou são o suficiente, para se preocupar com isso.

Alguns jogavam Guitar Hero, outros dançavam, bebiam, agarravam-se em cantos ou permitiam-se fazer pequenos espetáculos de strip tease sob os olhares desenvergonhados de vários adolescentes. Bartenders, de roupa justa e insinuante borrifavam mangueiradas de cerveja para grupos de jovens alucinados e excitados. As luzes irregulares, eram coloridas em tons de verde e azul.

A vista turva e entorpecida contribuía para a evasão da Jordan. As formas disformes e os ruídos provindos das colunas enormes não pareciam abalar a estranha sensação de leveza e serenidade que os medicamentos causavam no seu sistema.

Um par de mãos enlaçou a cintura dela quando ela menos esperava, de repente dois olhos azuis cintilantes encontraram os seus.

- Luke! – sorriu.

O moreno acabou com o espaço que os separava e depositou estrategicamente a sua cara no pescoço dela. – Feliz aniversário Jay! – sussurrou no ouvido dela, mordiscando o lóbulo da orelha dela.

O evidente arrepio de Carter, fê-lo sorrir satisfeito por ainda conseguir despertar algum efeito nela. Mas Luke era seu amigo e ela não queria dar-lhe falsas esperanças.

Pelo menos foi o que ela pensou até ao segundo em que os seus olhos pousaram sobre um certo Van der Wood acompanhado por uma mulher visivelmente mais velha e voluptuosa.

Harry beijava descaradamente a morena e fazia-o de forma provocadora, e a certeza de que ele estava a tentar provocar-lhe ciúmes, veio quando os olhos de Harry se abriram durante o beijo, apenas para ter a certeza que Jordan estava a ver.

Carter rosnou internamente antes de pagar na mesma moeda. E sabia quem seria o seu cúmplice naquele pecado.

Luke não precisou de concordar em nada, Carter simplesmente puxou-o mais para si e começou a dançar colada ao rapaz.

A sensualidade do balançar das suas ancas proibia que o instinto masculino de Luke as largasse. A bebida era sempre uma grande ajuda na sua inibição e Carter estava a aproveitar cada milésima de coragem que naquele momento lhe era oferecida, usando o seu corpo sem pudor para obter a sua tão desejada vingança.

Quando ela teve a certeza que os olhos verdes estavam a cercá-la, Carter deu o último sinal que faltava e deixou que Luke a cobrisse de pequenos beijos ao longo do pescoço.

A sensação de arrepios era boa e prazerosa. Luke não era nem tão agressivo, nem tão intenso quanto Van der Wood. Ele era apenas morno e reconfortante, mesmo em momentos menos românticos como aquele.

- Carter! – chamou-a ofegante. – Eu não sei…O que isto significa, mas eu só quero que saibas que eu…

- Luke. – Afastou-o. – Não digas, por favor não digas…

- Mas…

- Não digas. – gritou antes de fugir.

***

- Ronnie! Um Devil’s Springs. – pediu cruzando ambas as mãos sobre o balcão.

- Carter eu não sei se isso é boa ideia.

- Eu não te perguntei se achavas boa ideia. – olhou séria. – Ou perguntei?

O copo cheio de álcool diluído em água, foi colocado estrategicamente na sua frente. Carter mexeu-se para pegar no objeto e num movimento descoordenando atirou a bebida garganta abaixo, permitindo que o ardor a consumisse durante poucos segundos.

Música (http://www.youtube.com/watch?v=GchEVSx9XEA)

O DJ mudou a música e ela sentiu a palpitação acelerada do coração.

A última vez que a ouviu fora na noite em que o viu pela primeira vez. Em mil anos ela nunca esperaria se recordar da canção, mas por mais estranho que possa parecer ela se recordou. Mesmo estando já em estado crítico.

Deambulando entre os suados e drogados, Jordan andou sem rumo procurando pela sua melhor amiga. Ela precisava sair dali. Um pouco de ar fresco ia ajudá-la a acalmar o seu coração teimoso e espairecer as ideias.

- Jordan tu não vais deixar-me pendurado quando a nossa música está a tocar, pois não?

Jordan não soube o que mais a pasmou, se foi o facto de Harry se lembrar da música, ou o facto de ele pedir-lhe para ela ficar.

Num passo de distância apenas, os braços fortes de Van der Wood acorrentaram-na e os lábios dela chocaram contra os dele.

Um desejo insano e uma sensualidade tangível, formavam uma bolha invisível em volta daqueles dois.

O gosto de tabaco e álcool identificava-se nas línguas quentes e angustiadas. Os sempre bem-vindos calafrios enlouqueciam a rapariga de cabelos castanhos. Ele segurava-a forte contra ele, movendo-se vagaroso sem querer libertá-la.

Harry cambaleou até encontrar onde pousar Jordan, para que ela ficasse ao nível dele.

A casa de banho masculina era o centro daquele momento escaldante. Os lábios dele descaíram em busca da pele morna e inebriante de Carter e o calor dentro deles, avisou-os que era hora de abrandar. Aquele não era o local certo para prolongar a ação que ambos tinham em mente.

Harry encostou a testa à dela. As respirações fortes e irregulares faziam com que os peitos se movimentassem freneticamente. Os olhos azuis e verdes estavam fechados e pensativos.

As imagens da noite em que o conheceu passaram como um filme lento na sua memória. Carter podia se lembrar detalhadamente de cada segundo que esteve em contacto com Harry pela primeira vez…

- Eu queria…- começou rouco – Eu queria ter feito isto no momento em que te conheci Carter.

Abrindo os olhos, Carter encontrou os verdes de Harry. Ele estava demasiado próximo e os seus lábios demasiado convidativos. Nenhum tinha vontade de ignorar aquela vontade crescente e lasciva. Apertando as bocas uma contra outra Harry sentiu uma lágrima entrar em contacto com a sua pele. Rapidamente entendeu que era de Carter.

- Jordan por que…

- Não é nada! – respondeu comprimindo mais os lábios, contra os dele.

Harry afastou-a. Pensou em dizer algo, mas não sabia o quê.

Sem grande experiência na matéria, Van der Wood limitou-se a abraçar a rapariga vulnerável, aconchegando-a no conforto dos seus braços.

***

Música http://www.youtube.com/watch?v=UvMZGSsXkJ8

Eles não tinham a real noção de quanto tempo ficaram abraçados, mas era certo que estavam ali fechados há mais de uma hora. A atmosfera voltou a diminuir a tensão. Depois de acalmar o choro e de se recompor dentro dos possíveis, Jordan reanimou o espírito e deu início a um diálogo banal e eclético. Ambos riam genuinamente alegres das piadas que eram contadas, de vez em quando, Harry roubava beijos rápidos e calorosos fazendo com que a linha de raciocínio de Jordan se perdesse. Ela protestava dando pequenos socos no ombro dele, pedindo que ele parasse e isso só fazia com que ele tivesse mais vontade de beijar.

Ela sentia-se plena. Estava realmente feliz pela primeira vez naquela noite e por mais incrível que pudesse paracer, era Harry o motivo das suas gargalhadas honestas.

- Shhh! – gesticulou Jay colocando o dedo indicador na frente da boca. – Cala-te Van der Wood.

Ainda segurando-a contra ele, Harry levantou uma das sobrancelhas, mantendo o sorriso torto. – O que foi Jay?

Ela sorriu bêbada e passou as costas da mão na bochecha dele antes de responder.- Preciso de um minuto de silêncio.

Ele olhou-a estranho e ela riu infantil.

- Preciso de um momento de silêncio em memória a tudo que eu nunca disse, mas deveria ter dito. – explicou.

- E o que seriam essas coisas? – a voz saiu arrastada e sensual, enquanto ele entregava beijos ao longo do peito e pescoço dela.

- Se eu te contasse… eu teria que te matar! – Harry parou para poder olhá-la surpreendido. – Foi o que tu me disseste uma vez.

Puxando-a pela nuca, plantou um pequeno beijo molhado nos lábios dela. – Eu sei de algo que devias ter contado.

Jordan que começou a brincar com fecho do casado de Harry, levantou o olhar no mesmo instante. Um vislumbre de coragem ou o efeito do álcool, pareceu querer expor-se e ela tragou um pouco de oxigénio antes de falar…

- Eu já sei quem é a Bella. – cuspiu crua. – A tua mãe contou-me.

A escuridão tomou os verdes olhos. Harry fixo em frente parecendo ter uma ideia.

- Eu sei que tu e o Fitz beijaram-se Carter.

Não foi preciso dizer mais nada para que aquele clima se desvanecesse no mesmo instante. Jordan olhou-o profunda e colocando ambas as mãos no peito dele, empurrou-o com toda a força que ainda tinha.

- Aquilo foi um erro. – atirou as palavras exasperada.

- Eu acho que não ouvi bem!

Como se tudo ficasse em câmara lenta, Eleanor entrou na casa de banho a passos curtos mas eficazes, caminhou ao encontro daquela que conhecia como melhor amiga e olhou-a. O pior dos olhares. Ira, ódio, rancor, horror e desprezo.

Aquele olhar foi o suficiente para que o chão desaparecesse e o abismo o substituísse. A mão de Eleanor sobre a cara da Carter, soou clara e dolorosa. A inevitável marca vermelha logo deixou a sua estampa na bochecha dorida. Jordan colocou a mão sobre o hematoma demasiado assustada para encarar Lawrence. Demasiado culpada para olhá-la nos olhos. O azulejo frio gelava as suas pernas descobertas, mas era a dor que fazia estremecer. O castanho dos olhos de Eleanor estava diluído em água que escorria como uma cascata. Jordan também chorava mas não mostrava as lágrimas, porque no fundo sabia que era merecedora delas, sabia que eram justas e devidas. Ela não era digna de chorar em frente a Eleanor, não era digna de se sentir mal perto da única vitima naquele lugar.

- Vadia. – gritou.

Uma palavra tão pequena com um efeito tão destrutivo. Aquela não era a primeira vez que alguém a chamava assim, mas era a primeira vez que aquela palavra havia adquirido um significado real. Carter sentia-se uma vadia, desde os pés até à ponta dos seus cabelos. Ela tornara-se desprezível no momento em que pecou, em que enganou, em que fingiu nada ter acontecido. Ela merecia sofrer.

- Els… – soluçou embaraçada.

- CALA A BOCA. – disse três oitavas acima. – Porquê? Eu pensei…- limpou bruscamente as lágrimas que teimavam rolar. – Eu pensei que éramos amigas, pensei que éramos irmãs.

- Els..

- EU JÁ DISSE PARA CALARES A MERDA DA BOCA CARTER! – o descontrolo era visível a quilómetros, Eleanor estava desequilibrada, desgovernada, despedaçada. A voz lacrimosa ameaçava o impacto que aquela verdade tão bruta tinha causado no coração da morena. – Tu és a maior deceção da minha vida. – disse fria. – Eu não acredito. De todas as pessoas neste mundo, eu nunca pensei que TU tivesses a coragem de me trair assim.

Antes que Eleanor tivesse a oportunidade de levantar a mão mais uma vez, Harry reagiu e segurou o punho dela no ar.

- Larga-me Van der Wood! – tentou empurra-lo, mas em vão.

- Lawrence vai-te embora, tu não estás em condições de continuar esta discussão. – falou sério. – Aliás, nenhuma de vocês está em condições.

Eleanor manuseou o seu braço para trás, conseguindo soltar-se do rapaz. Olhou ríspida para ele e depois para Carter. A maquilhagem manchava a sua pele branca, dando-lhe um aspeto acabado e macabro. Sem mais nada a acrescentar, Lawrence saiu porta fora sem olhar para trás ou hesitar uma vez, deixando Carter desolada.

Música http://www.youtube.com/watch?v=B2IBn41eI4A

Harry não vacilou ao pegar na rapariga caída no chão. Jordan não conseguia falar, apenas chorava culposamente enterrando a cabeça no pescoço dele que a segurava no colo, como quem segura uma criança pequena.

Ela tinha acabado de perder a única pessoa que amava no dia em que supostamente deveria estar a comemorar a sua liberdade na companhia de Eleanor.

- Jay…Eu sinto muito.

Jordan respondia com mais lágrimas e soluços. Envolvendo o pescoço dele com os braços, ela manteve a cabeça enterrada no seu peito, molhando a camisa verde com o choro infindável e melancólico.

Um surto de consciencialização pareceu doma-la de repente. Carter começou a balançar-se e a debater-se contra o corpo de Van der Wood, tentando que este a largasse. A força com que arqueava as pernas e agitava o corpo, fez com que Harry a pousasse. Os olhos azuis dela estavam rodeados de vermelho e preto, o desgaste do seu choro misturado com a maquilhagem desbotada, faziam-na parecer decadente. No entanto havia uma intensidade negativa naquele olhar, Harry sabia que algo não estava certo.

- A culpa é tua. – acusou-o frígida.

Ele ficou embasbacado e perplexo, mesmo sabendo que a sua acusação não era de todo mentira, ele não gostou do tom que ela usou para o incriminar. Harry não era o vilão daquela desgraça, mas também não era a sua vítima. Ele tinha culpa no cartório e Jordan estava a tentar aproveitar-se disso para justificar o seu erro.

- A culpa é minha? – perguntou apontando para o próprio peito.

- Sim! – disse alto batendo também o dedo no peito dele. – Se tu não tivesses falado nada a Els não teria ouvido e eu…

- Hey calma aí Carter! – levantou as mãos no ar. – Eu só disse a verdade, quem beijou o Fitz foste tu!

- Mas foste tu quem lhe contou.

A denuncia era em parte injusta, Van der Wood sabia muito bem que aquilo foi incorreto e maldoso, mas Carter estava a tentar tirar vantagem da situação.

Irritado, Harry agarrou os braços de Jordan e apertou-os propositadamente.

- Tu falaste da Bella! – uma lágrima caiu.

Alguns dizem que os olhos são o espelho da alma.

Naquele momento Jordan confirmou que de facto, eles eram. O sofrimento de Harry era quase palpável e a raiva também. Ela ficou com medo, ficou petrificada. O seu corpo tremia em sincronia, com as mãos agitadas de Harry.

O ódio explícito por trás dos olhos, o rancor, o desprezo e a tristeza, refletidas nas mãos grandes que seguravam-na com força. A dor começava a ser latejante. Jordan respirava nervosa em companhia do seu batimento cardíaco desenfreado.

- Harry larga-me. – implorou baixo.

Harry franziu o cenho e então olhou o seu reflexo no espelho. Um ar maníaco, e assassino, um aspeto de pânico e terror. Virou-se para ela, demasiado assustado para encarar o seu próprio retrato e largou-a.

As mãos continuaram erguidas no ar, ele parecia lunático e vazio ao mesmo tempo. O olhar perdido e solitário que ninguém conhecia, o rosto infeliz e desolado que ninguém sabia da existência. Se não fosse o medo que sentia naquele momento e Harry não tivesse feito o que fez, talvez Jordan o tivesse abraçado naquele momento. Contudo os instintos falaram mais alto e ela preferiu sair ao invés de permanecer como mais uma espectadora daquele espetáculo de horrores.

Correndo o mais rápido que as suas pernas suportavam, Jordan saiu do bar e foi procurar a melhor amiga. A vista turva, sintoma do excesso de álcool e do choro, não permitiam que Jay visse as coisas com clareza. A noite era fria e escura, Carter cambaleava perdida em ruas desconhecidas e vandalizadas.

Num passo em falso, Carter caiu no meio da calçada esfolando o joelho no concreto.

- Ai! – choramingo.

As lágrimas fluíram naturais e desalmadas. Chorava perdida e inconsolável no meio do incógnito.

Eram lágrimas de ódio, de humilhação, de desespero, de medo. Lágrimas reprimidas e verdadeiras.

O som estridente e lamentável expunha todo o seu autodesprezo. Aquela não devia ser uma noite de sofrimento, não devia ser uma noite em que perdia a única pessoa com quem realmente se importava, a única com quem realmente partilhava algum sentimento puro. Não era suposto ela acabar a noite no meio da rua, a chorar lastimável, caída no chão. Não! Aquela devia ter sido uma boa noite, da qual um dia ela poderia se recordar um dia quando fosse mais velha.

Carter respirava fundo entre soluços espontâneos, tentando recuperar o folego e acalmar um pouco, quando de repente sentiu a presença de alguém a ajoelhar-se na sua frente. – Jay? – chamou num tom notoriamente preocupado. – Deus do céu Jordan! – Luke agarrou a menina de cabelos longos e envolveu-a no seus braços, tentando impedir que o vento gélido a atingisse.- Jordan o que aconteceu? – Carter tremia gelada e inconsolável. – Shhh. – sussurrava baixo tentando silenciar o choro. Luke movia os braços meigos, num embalo calmo e reconfortante e Jordan começava a amainar. – O que aconteceu flor? – perguntou apertando-a mais contra si. – O que te fizeram Jay?

Segurando a face de Jordan, Luke trouxe o olhar dela ao seu, tentando mostrar-lhe tudo que sentia sem que palavras fossem necessárias. A sinceridade nos olhos azuis do rapaz era tocante.

As lágrimas ainda escorriam pela face de Carter como se aquela fosse a única forma de expulsar toda a sua tristeza, toda a sua repulsa, toda a sua autoaversão.

Luke esfregou os seus polegares limpando a tristeza que não cessava. O frio daquela noite fazia com que ambos os corpos se contorcessem e as almas se abraçassem naquele momento tão verdadeiro e natural. Luke beijou todos os cantos da face de Jordan, limpando e varrendo a água que não queria parar de descer. Quando ele beijou o canto do lábio dela ele hesitou, ambos sabiam onde realmente ele queria colocar os seus lábios, mas aquele não era o momento.

Libertando o abraço, Luke sentiu as mãos de Carter segurá-lo em protesto.

- Luke por favor não me soltes. – implorou entre soluços. – Por favor.

Ele olhou-a surpreso e apaixonado. – Eu não te vou deixar Jay. – prometeu ele retomando o embalo – Eu não vou deixar que nada nem ninguém te magoe. Não mais.

***

Música http://www.youtube.com/watch?v=WfzRlcnq_c0

Quando chegaram ao apartamento, Luke pousou-a sobre a sua cama improvisada e deixou o aposento avisando que iria até à cozinha pegar um copo de água para Carter. Estar sozinha fê-la sentir outra vez o aperto no peito que ativava a alavanca para que o lacrimejar recomeçasse.

Luke voltou pouco depois com o copo na mão, mas assim que viu-a correr para a casa de banho, deixou cair o copo partindo-o em mil cacos de vidro.

Carter debruçou-se sobre o vaso sanitário e despejou todo o álcool do seu sistema. Luke segurou o cabelo dela, impedindo que este se sujasse.

O cenário infeliz de uma noite inesperada.

Quando Carter percebeu que a sua garganta já sangrava de esforço, deixou que a fraqueza a tomasse e desmaiou.

- Jay? – ouviu vagamente. – Jordan acorda. – o corpo era agitado freneticamente, mas as suas pálpebras pesavam demais. – Carter por tudo que é mais sagrado, acorda!

A escuridão surgiu e como em muitas outras noites, abraçou-a como uma filha querida.

Luke pegou na rapariga desacordada e deitou-a sob o seu peito, na banheira branca e enferrujada, com a mão livre procurou a torneira e a água gelada começou a cair sobre ambos.

O frio hipotérmico despertou Jordan e Luke suspirou aliviado.

- Luke?

- Estou aqui Jay!

Indo ao encontro do olhar azul cintilante, Jordan virou-se para Luke e abraçou-o grata. Luke fechou os olhos e deixou que aquele momento se registasse na sua memória. O corpo quente de Jordan contra o seu, o batimento cardíaco dela perto do seu peito, o toque suave e verdadeiro que tantas vezes ansiou sentir. Tudo aquilo, no mais inesperado dos cenários.

- Luke! – chamou-o novamente ainda abraçando-o. – Porque é que cuidas de mim assim?

Os olhos azuis abriram-se de súbito. Pareceram adquirir uma maior profundidade quando aquela questão foi libertada. Ele podia dizer as coisas de forma objetiva, dizer o que realmente sentia, mas ele não queria correr o risco de tê-la longe de si outra vez.  – Porque eu me preocupo mais com os teus sentimentos do que com os meus Jay.

- Não devias.

***

Deitá-la na sua cama sempre foi um sonho utópico e apesar das circunstâncias, ele estava a acontecer naquele momento.

Quando finalmente perdeu os sentidos, Luke deixou-se ficar encostado a Carter, observando a sua beleza adormecida, o escuro impedia-o de analisar todos os traços, mas ainda assim ela continuava a achá-la linda.

- Se tu soubesses o quanto eu te amo Jordan Carter. – suspirou aconchegado contra o corpo da rapariga adormecida. – Só Deus sabe o quanto eu imploro pelo dia em que tu serás só minha.

Lady Rebel – Capítulo 11

- Obrigada Abigail.

A empregada sorriu meiga para as duas mulheres à sua frente e depois retirou-se silenciosamente.

- Então Jordan… – Grace falou. – Qual é o assunto que te trouxe aqui?

Desde a atitude bruta e indelicada que Harry teve naquela noite, Jordan criou uma espécie de necessidade sobrenatural em descobrir quem era a garota da fotografia. Ponderou várias vezes em falar com Grace, mas depois de muito deliberar, chegou à conclusão que se realmente queria obter uma resposta para aquele quebra-cabeças, a única pessoa que poderia ajudá-la era mãe de Harry.

Agora, que estava sentada ao lado de Grace, no sofá da sala de estar dos Van der Wood, segurando uma chávena de chá entre as suas mãos, a missão que a arrastou até ali, pareceu ter-se se dificultar mil vezes mais.

- Er.. Bem eu…- Jordan gaguejou tirando um punhado de cabelo da frente da cara. – Grace eu queria-lhe fazer uma pergunta.

Grace sorriu abertamente. Havia algo naquela mulher que deixava todos ao seu redor à vontade para falar de qualquer tema. Jordan não sabia dizer se era a sua extrema simpatia ou a sua aura iluminada, mas Grace tinha a capacidade de tornar tudo mais fácil, bastava mostrar o mais doce dos sorrisos e a tensão se dissipava.

- Eu…- respirou fundo deixando que o assunto fluísse. – Há cerca de duas semanas atrás, quando eu estive aqui pela primeira vez…– começou olhando vagamente para a chávena entre as suas mãos. – …Eu fiz uma pergunta ao Harry que inesperadamente o incomodou…- a rapariga de cabelos castanhos fechou os olhos ganhando a coragem que lhe faltava .- …Eu juro, juro que não tive a intensão de o magoar ou perturbá-lo, quando eu perguntei-lhe sobre ela foi na pura inocência.

O semblante sorridente de Grace desapareceu no mesmo segundo em que percebeu o quanto angustiada, Jordan parecia estar. Mantendo a postura angelical, Grace pousou a sua chávena na mesa de centro e colocou uma das mão no ombro de Carter, tentando acalmá-la com aquele pequeno carinho.

- Jordan, meu anjo não precisas de ficar assim.

- Desculpe.

- Oh! Meu anjo não há o que desculpar. – Grace levantou o olhar em busca de algo que Jordan não soube dizer. – Eu sei o que te trouxe aqui e não te preocupes, eu vou contar tudo.

- Eu só quero saber…

- Quem é a Bella. – completou-a assertiva.

- Sim. – Jordan olhou-a surpresa.

Seria estranho não admitir, que a rapariga ficou um pouco admirada, com o conhecimento prévio do assunto em questão..

Grace endireitou mais as costas e passou as mãos sobre a saia verde, adquirindo uma postura mais séria.

Sem trocar o olhar com Jordan, começou a falar. – A Bella foi a pessoa que o meu filho mais amou nesta vida. Ela e o Harry tinham uma relação demasiadamente especial. – sorriu para o nada, como quem recorda um bom momento há muito distante. – Quando tudo aconteceu, o meu menino não conseguiu lidar bem com a situação. O Harry não conseguia aceitar o facto da Bella ter morrido. Ele…Ele perdeu-se. –  a voz era profunda e infeliz. – Começou por fumar… Quer dizer, ele já fumava antes, eu sempre soube, mas não tanto! Depois veio a bebida…- Jordan reparou quando ela virou o rosto para o lado.-… As saídas de noite eram constantes…A tatuagem com o nome dela. E a manhã em que ele simplesmente não apareceu. Fiquei desesperada, perdida…Eu pensei que…Deus nem gosto de o dizer em voz alta.

Com os olhos a marejar, Grace olhou novamente para a menina na sua frente.

Jordan fez questão de pegar na sua mão, em puro ato de condolência. – Sra. Van der Wood, não chore. – a rapariga pediu. – As pessoas boas nunca deviam chorar. Pelo menos, foi o que o meu pai me sempre disse, enquanto ainda era vivo. Não tem de continuar esta conversa se não quiser, eu compreendo perfeitamente.

- Eu sei! Mas eu quero. – Grace falou convicta devolvendo a simpatia. – A Bella… Ela morreu apenas com 18 anos. Na verdade ela morreu na véspera dos seus 19 anos. – acrescentou. – Nessa noite, o Nicholas ligou para casa a pedir ao Harry que o fosse buscar ao aeroporto, ele tinha passado toda a semana fora a tratar de negócios da empresa e o carro que tinha ido buscá-lo teve uma avaria. Ele ligou por volta das oito e quem atendeu foi a Bella. Assim que desligou, a Bella foi chamar o Harry para que ele fosse buscar o pai, mas ele disse que não podia, então a Bella como boa irmã ofereceu-se para ir no seu lugar…

– Boa irmã?– interrompeu confusa.

- Sim!

- Eu pensei que a Bella fosse namorada do Harry.

- Não minha querida, Bella Van der Wood era a minha filha, ela era irmã do Harry.

– Eu não fazia ideia. – disse ainda surpreendida. –  Mas desculpe pela interrupção.

Grace sorriu meiga e recomeçou. – Onde é que eu ia mesmo? Ah sim… Ela saiu cerca de 10 minutos depois do pai ter ligado e…- parou de falar, como se tivesse em busca das melhores palavras para relatar o que vinha de seguida. – Cerca de uma hora e meia depois de ela ter saído, eu recebi uma chamada. Era do hospital e… – naquele momento, as lágrimas que até então lutavam para ser contidas dentro do oceano azul, caiam como uma cascata melancólica, deixando Jordan com sentimento de culpa dentro dela por fazer Grace reviver memórias tão dolorosas. – Ela não suportou, o acidente foi muito violento, o carro capotou… ficou completamente destruído. – continuou entre suspiros pesados e olhares pesarosos. – A minha Bella não conseguiu, ela acabou por falecer pouco depois de termos chegado no hospital e foi o Harry a última pessoa a falar com ela.

- Grace não precisa…

- Ele culpa-se, Jordan. Ele culpa-se pela morte da irmã.

Dor. Uma profunda dor. Nada mais do que dor. Pela Bella, por Grace e acima de tudo, por Harry.

Os flashes de tudo o que se passou até ao momento, deram uma volta de 360º a 1000km/hora e Jordan percebeu. Percebeu o olhar lúgubre, desolado, o olhar morto de Harry.

Ele culpava-se pela morte da irmã. A pessoa que supostamente ele mais amou.

A perplexidade tomou-a por completo e Jordan não conseguiu não chorar.

Agora ela entendia a repentina frieza, a maneira maliciosa como ele a tratava, as bocas e os jogos mentais.

Era tudo uma grande fachada. Uma personagem criada, em prol da sua necessidade de esconder o seu passado. O seu coração.

 

***

Depois de as lágrimas cessarem e de ambas se recomporem, Carter agradeceu e desculpou-se por ter causado tanto transtorno.

Grace amável como sempre, não culpou a rapariga pelo sucedido e abraçou-a de forma carinhosa, antes de ela despedir-se.

Prestes a sair, Carter lembrou-se de algo e voltou para poder esclarecer uma última dúvida repentina. – Grace?

- Sim querida?

- Só mais uma pergunta! Como é que soube que este era o assunto que eu queria abordar.

Mais uma vez a matriarca dos Van der Wood sorriu. – Jordan, eu conheço o meu filho muito mais do que ele pensa. E existe apenas um assunto que é capaz de deixá-lo desolado. Esse assunto é a Bella.

Jordan deu um meio sorriso e assentiu com a cabeça, antes de se virar e abandonar a casa definitivamente.

***

Durante todo o percurso até o apartamento, Jordan errou duas vezes no caminho.

Quando finalmente chegou, foi direta para o quarto. Até alguém ter chamado a sua atenção.

Uma moça loira estava sentada no banco do piano preto da sala. Ela usava um colete de ganga claro e um vestido comprido e colorido em tons de castanho e laranja. O cabelo estava solto e despenteado. Os olhos castanhos encontravam-se concentrados em algo na sua frente e estranhamente, ela não tinha reparado ainda em Carter.

Jay pensou em abordá-la, mas quando viu Emma a passar do corredor para a cozinha sem comentar nada sobre a presença da loira, ela foi atrás da empregada esclarecer a sua dúvida.

- Emma? – Carter chamou a empregada, enfiando a cabeça para dentro da cozinha.

- Ai Jesus! – exclamou Emma colocando uma mão sobre o peito. – Jordan assustaste-me.

- Desculpa Emma! Eu queria fazer-te uma pergunta. – disse enquanto acompanhava Emma com o olhar, a arrumar a loiça. – Quem é a maluca ali na sala?

A empregada parou, fechando a porta do armário em cima dela e limpou as mãos no avental branco do seu uniforme. – Aquela na sala de estar é a menina Carter.

Jordan franziu o cenho confusa.

- Ela é tua prima Jordan.

- Minha quê?

- Aquela moça na sala de estar é tua prima. – repetiu. – Pelo pouco que entendi da conversa dela com a tua mãe, ela era prima do teu pai, prima de 2º grau se não me engano! – acrescentou levando o dedo indicador ao canto da boca. – Os pais dela vivem em Portugal e ela veio para Londres estudar.

- E o que exatamente ela está a fazer aqui?

- Tu e a dona Camille são a única família dela aqui em Londres. – respondeu como se fosse obvio.

- Como é que ela se chama?

- Milla!

- Milla? – torceu a boca.

- Milla.

- Ok! Acho que vou dar uma palavrinha com a prima Milla.

***

Nicholas Van der Wood deambulava de um lado para o outro no escritório e Harry permanecia sentado na poltrona em frente à secretária de carvalho negro do pai.

- Como estão a correr as coisas? – Nicholas soou ríspido.

- Correndo.

- Harry eu não gosto de rodeios! – parou junto à poltrona. – Ou estão a correr bem ou mal! Esses joguinhos mentais não funcionam comigo. Lembra-te que fui eu quem te ensinou a jogar. Se eu confiei em ti para tratares disto é suposto fazeres as coisas da forma certa.

Harry não contrapôs o pai. Sempre que o fazia acaba mal, muito mal.

O medo de o desapontar, chegava a superar o seu medo de morrer em certos momentos. Harry não gostava quando o olhar reprovador do seu pai, lhe era dirigido de forma tão crua. Fazia-o sentir pior do que ele já pensava ser.

- As coisas estão a correr bem pai. Eu só preciso de tempo.

Nick soltou uma gargalhada escabrosa, digna de medo. – Tempo! Já estamos nisto há demasiado tempo. Já reviramos este plano de uma ponta à outra. Ele tem tudo para dar certo, ou dar errado. Se não conseguiste nada no Highway não quer dizer que não consigas amanhã ou depois. – olhou para Harry e sentou-se no seu cadeirão de couro, ficando separado do filho, pela imponente mesa. – Porque é que não tens estado com ela?

Harry levantou os olhos e encarou o pai. – Ela tem perguntas que eu não quero responder. Mas o aniversário dela é este fim-de-semana. Vou tentar recuperar o tempo perdido e conquistá-la de vez

- Estás com medo das perguntas de uma miúda de 17 anos Harry? – perguntou em puro deboche. – Honestamente nem pareces meu filho. Começo a achar que és um bastardo. – apoiou um dos braços na mesa de carvalho e aproximou-se um pouco mais do rapaz. – Tu nem honrar o nome que te corre nas veias honras. És ridículo!

- Às vezes eu preferia ser mesmo um bastardo. – Harry não quis mostrar o quão magoado ele estava, ele sabia que se mostrasse o que realmente sentia quando aquelas palavras lhe eram dirigidas, o seu pai apenas comprovaria a sua teoria. Ele era ridículo, ele era um nada. – Este sobrenome é como uma maldição. – falou em sussurro.

- Qual é a pergunta que te assusta tanto?

- Ela quer saber quem é a Bella!

- Contas a verdade! – exclamou. -Parte dela.

- Contar a verdade? Eu não sei se tenho estômago para contar a verdade. A Bella…a Bella morreu por causa dela. Ela não tem o direito de sequer pronunciar o nome dela.

- Engole essa porra desse medo ridículo, veste a tua melhor máscara e se for necessário conta a verdade. – Gritou duas oitavas acima do necessário.

- Eu não vou conseguir.

- Ah vais, vais sim! – gritou ameaçador. – A bem ou a mal.

- Pai…

Nick levantou-se da cadeira e lançou-se para a frente agarrando o colarinho da camisa do filho. – Cala a boca e ouve-me! Tu vais acabar aquilo que começaste ou eu próprio o farei e tu podes ter a certeza que eu serei mil vezes pior. Eu não fui um assassino de um assassino porque tive medo ou receio da verdade! – os olhos azuis do homem brilhavam doentios e assustadores quando palavras tão horrendas, saiam de forma tão natural da sua boca. – Eu sou bem capaz de acabar com outra vida. Se isso implicar vingar a morte da Bella, eu mato.  – empurrou o corpo de Harry para trás. – Veste as calças e enfrente este filho da puta de destino porque ele não pensou duas vezes antes de te fuder! – o tom de voz insalubre era assustador até mesmo para Harry que já estava habituado. – Tu achas que aquele Carter teve pena do que fez? Achas? Ele não teve piedade quando matou a Bella. – parou pensativo. – Ele não teria em fazer o mesmo contigo. E se ele não o fez, foi porque morreu!

 

***

Jordan ainda não tinha tomado a iniciativa, continuava à espreita, a uma distância de segurança, enquanto observava a prima.

- Quando é que sais de trás dessa pilastra e vens perguntar aquilo que te está a atormentar desde que me viste?

- Eu não estava a esconder-me! – retrocou.

Milla mirou a prima no outro canto da sala e esboçou um sorrio de lado. – Eu não disse que te estavas a esconder!

- Touché.

Ambas sorriram.

- Tu não te lembras pois não? – Milla perguntou.

- É suposto em lembrar-me de algo?

A loira ignorou a sua questão e voltou a atenção para as teclas do piano. – Não. Mas pensei que te lembravas.

A passos rápidos e pesados, Jordan acabou com a distância que a separava da prima e numa tentativa frustrada de conseguir uma resposta, bateu com o punho no teclado do piano, obtendo um som estridente e doloroso para os tímpanos de ambas.

Os olhos castanhos de Milla encontraram os azuis de Carter sem qualquer vislumbre de intimidação ou medo, num movimento calmo e confiante ela levantou-se para ficar ao mesmo nível da outra. – “Vocês estão escritos nas estrelas.” – falou hipnotizante. – Agora já te lembras?

Lady Rebel – Capítulo 10

 

* A chuva caía pesada, naquele final de tarde Londrino. Harry estava sentado no sofá da sala com as pernas cruzadas e um ar aborrecido, enquanto assistia A Walk To Rebember pela vigésima vez. A lareira estava acesa deixando o ambiente reconfortante. Era sem dúvida o dia perfeito para ficar em casa.

De acordo com Bella, dias chuvosos e chá das 17.00H, eram a combinação ideal para uma tarde bem passada, na companhia dos romances de Nicholas Sparks.

Ela não desgrudava os olhos cinza do ecrã. Olhos que grande parte do tempo eram verdes, mas sempre que o inverno ameaçava a sua chegada, mudavam para um tom de cinza cristal.

Assim que o filme começava, era como se rapariga entrasse num estado de transe e mais nada a seu redor fizesse sentido. Ela torcia habilidosamente, o seu cabelo castanho e pousava-o sobre o ombro esquerdo, uma atitude de pura concentração que Harry adorava observar.

A boca dela mexia-se em completa sintonia com a dos atores, mostrando que Bella sabia demasiadamente bem casa uma das palavras que seriam pronunciadas um segundo antes de elas serem ditas, e Harry não podia deixar de sorrir com isso.

Ela era a única capaz de o convencer a perder uma tarde de sábado para ver um filme romântico e lamechas.

A casa estava vazia e o único som ouvido por Van der Wood, era o da chuva e o da TV. Quando o filme acabou e os créditos começaram a surgir na tela, Harry olhou para a sua companhia.

Bella dormia exprimida no canto do sofá, agarrada a uma almofada. A sua expressão serena e angelical transmitiam paz a Harry. Era impressionante como nada nela parecia mudar ao longo dos anos. Harry podia jurar que em todas as vezes que assistiu filmes com ela, não houve uma vez em que ela não acabasse por adormecer nos últimos minutos do filme.

O estomago do rapaz roncou e Harry levantou-se desajeitadamente para buscar algo na cozinha, mas a voz de Bella interrompeu-o antes de ele mal dar o segundo passo.- Haz? – chamou-o ela.

Ele rapidamente correu para se ajoelhar perto dela. – Desculpa Bels eu não queria acordar-te!

A preocupação por trás das suas palavras era bastante lúcida.

- Harry tu não me acordaste, eu já estava acordada! – respondeu sonolenta.

- Claro, claro!. – brincou prendendo o riso.

- Estás a duvidar de mim Van der Wood? – Bella perguntou com falsa indignação.

- O que te faria pensar que eu estou a duvidar de ti?

- O que ias fazer?- a expressão alegre de Bella caiu assim que ela tirou as suas próprias conclusões- Não ias fumar, pois não?

- Não Bels, eu ia comer…

Por muito que Harry a amasse ele não podia deixar de se aborrecer com a constante implicância de Bella, ela sempre estava com um pé atrás em tudo que ele fazia e essa falta de confiança dela, magoava-o.

- Eu não gosto que fumes Harry! – sussurrou passando a mão no rosto do rapaz.

Harry colocou a sua mão por cima da de Bella e apertou-a, semicerrando os olhos. – Bella não vamos discutir isso agora, pois não?- perguntou ainda de olhos fechados.

Soltou um suspiro entristecido.- Não! Nós não vamos.

*

Era pelo menos a terceira vez que Harry revirara no meio da confusão de lençóis e almofadas.

O seu estado era deplorável. Inchaço forte em volta dos seus olhos, suor a encharcar-lhe o pijama e vazio estampado na sua cara. Era assim que Harry acordava quase todas as noites, nesta última semana.

Os demónios do passado e do presente pareciam querer juntar-se para poder criar um cenário melancólico e triste dentro do rapaz. Sempre surgindo nas suas madrugadas mal dormidas, como seres vagando sem rumo. Ele sentia- se encurralado na sua própria mente. Fez de tudo para evitar chegar àquele estado depressivo, mas fora inevitável.

Os mesmos sonhos vinham a atormentá-lo noite atrás de noite. As imagens turvas e caóticas passavam como fantasmas perdidos há muito tempo. Mas infelizmente os seus fantasmas não eram fruto da sua imaginação, eles eram reais e não morreriam tão cedo se ele continua-se a reviver o passado, a esmiuçar sobre ele e consequentemente, a torna-lo no presente.

Sempre que acordava ele podia jurar de pés juntos, que o cheiro a rosas e mel adentrava nos seus pulmões após uma primeira inspiração, depois ele desaparecia como se nunca lá tivesse estado.

O cheiro de Bella era inconfundível e nem em um milhão de ele esqueceria como ele o fazia sentir pacífico e reconfortado. Era como se ela estivesse do seu lado durante os seus momentos de inconsciência, e assim que ele voltava a si, ela simplesmente sumia, deixando apenas a saudade.

 

Os seus poucos momentos de esquecimento, aconteciam quando o álcool dominava-o, o tabaco sufocava-o e o sexo o distraia.

Este último em especial conseguia fazer com que a sua mente se esvaziasse e ficasse leve durante os poucos momentos de prazer carnal. A luxuria de ter uma mulher em baixo de si, fazia com que ele se esquecesse momentaneamente dos seus problemas. Hazza não se incomodava em usar um corpo vez ou outra. E o melhor de tudo era que nunca lhe pediam nada em troca, nunca lhe perguntavam nada, nem justificações. Funcionava como um negócio, um ato consensual sem quaisquer afetos, sem problemas.

Contudo, o seu dilema tornava-se mais insustentável de dia para dia e Harry não sabia durante quanto tempo estas escapatórias fariam efeito.

Ele era uma tragédia, um erro a ser corrigido. Um problema que a natureza preferiu ignorar.

A pergunta que pendia no seu inconsciente era, quem seria aquele a corrigi-lo. Aquele que o salvaria de si mesmo.

Essa ainda era uma incógnita à qual Harry acreditava não haver resposta possível.

Porque desde que ele perdeu a Bella, ele também perdeu tudo aquilo que o motivava a ser uma pessoa melhor.

A sua sorte era a sua personagem. Essa sim fora bem criada, mas deixara-lhe o mau hábito de não conseguir viver sem ela sempre que o sol raiava e mais um dia se punha de pé.

Ele era só, vazio e triste, mas não tinha conhecimento disso.

Van der Wood só enxergava a sua maldade interior, era essa que o alimentava, era essa que o impulsionava a agir.

Ele sabia muito bem quais os motivos que o levaram a sair com Carter há cinco noites atrás. Sabia que as suas intenções eram as piores possíveis e a pena não tinha espaço no seu coração.

Se não fosse Liam Hayes, ele teria resolvido o seu problema naquela noite. Mas Harry sempre acreditou que, se não era desta, era porque não tinha que ser. Ele esperaria cautelosamente até a sua justiça ser feita.

“Quem espera 3 anos pode esperar mais alguns meses!”

Não suportando mais um minuto de insónias, Van der Wood decidiu sair para espairecer. Na companhia de uma boa bebida e do fiel cigarro, Harry sabia que poderia pensar mais coerentemente.

Abandonou o quarto, ainda apertando os últimos botões da camisa e saiu discretamente.

 

XXX

 

A noite sempre foi mais real que o dia. É na calada da noite que a realidade vem ao de cima. No escuro tudo fica mais claro, mais autêntico. De noite, Harry Van der Wood era ele mesmo. Sem falsas conversas, sem falsos sorrisos. A farsa era deixada de lado e a verdade emergia em toda sua grandiosidade.

De noite ele era livre.

 

***

 

O antigo edifício que já não era utilizado desde 1967. Estava vazio naquela fria madrugada de sábado. Momento perfeito para esfriar a cabeça e reformular as ideias.

O casino abandonado servia de cede principal para Harry e o seu grupo, se juntarem sempre que necessário. A fachada principal do edifício, apesar de degradado, mantinha o seu ar imponente e arrojado, mostrando que um dia aquele foi um lugar de grandes festas e riqueza. A porta principal, estava presa por correntes e um cadeado que as unia, impedindo a entrada de qualquer um que tentasse invadir o casino. Harry no entanto, tinha a chave que destrancava aquela porta em vidro e metal o que permitia a sua entrada, que já era habitual à 2 anos.

Assim que a porta principal foi aberta, o primeiro vislumbre do seu interior fora o de uma grande escadaria em mármore, a escassa luminosidade não permitia uma perfeita análise do espaço àquela hora da noite, mas a beleza do casino não conseguia ser ofuscada pela falta de obras e limpeza. As paredes antes coloridas em tons extravagantes, eram agora sujas e empoeiradas em cinza. Máquinas de jogos, mesas de póquer, roletas, um palco onde um dia tocaram grandes orquestras e dançaram belas mulheres em trajes pouco apropriados há época, balcões corridos de bancos altos no mesmo tom de castanho, mesas circulares, cobertas por lençóis de tecido desgastado. A carcaça de um local, onde um dia homens e mulheres pecaram juntos, onde a ganância, a luxuria e a gula se juntaram em um só espaço e se congregaram num santuário de pecado humano.

Um cenário aprazível e propício para o seu dono. Harry era o rei naquele lugar. O chefe daquele bando de miseráveis. Mas ali ele era feliz. Ou pelo menos julgava ser.

- Van der Wood? O que fazes aqui? – Daniel West estava encostado numa das grandes pilastras que sustentavam o edifício, enquanto fumava um cigarro pacificamente.

- Desde quando é que te devo satisfações do que estou a fazer? – reagiu arrogante e defensivo. – Estou só a precisar de relaxar um pouco.

Daniel largou o cigarro no chão e caminhou até Harry.

- O Benny está a tratar das mercadorias esta noite! – informou. – Parece que o James ficou mais uma vez no Highway a tentar vender alguma coisa.

- Óptimo. – falou subindo o primeiro lance de escadas.

- Haz onde vais?

Harry ignorou a pergunta do capanga e subiu as escadarias de mármore no intuito de ficar sozinho e beber.

Peça- Chave deste Inverno

 CHAPÉUS e GORROS…

Já não é novidade para ninguém, que estes acessórios de cabeça, fazem diferença em qualquer guarda-roupa e neste Inverno, eles são a aposta acertada, para quem quer entrar nesta estação com o pé direito.

9375943800_1_1_3 

Chapéu Fedora tipo rodeio

17,99 €  BERSHKA

 

 

 

Capturar

CHAPÉU DE ABAS LARGAS COM PORMENOR DE FITA

19,95 € STRADIVARIUS

 

 

33085664_02

 

GORRO INTERIOR PELO

12.99 € MANGO

 

 

33085626_ND

 

GORRO MALHA POMPOM

12.99 € MANGO

 

33083569_48 

CHAPEU OLGA C

25.99 € MANGO

 

1323207800_1_1_1

Gorromalha orelhas

7,95€ ZARA

 

 

 

Lady Rebel – Capítulo 9

Ela estava deitada na cama com um dos braços por baixo da cabeça e o outro pousado no ventre.

Jordan sorria ao recordar a noite passada. Na sua cabeça, aquilo era como um caleidoscópio de memórias coloridas, disformes e ainda um pouco duvidosas, mas era perfeito de certa forma.

Harry tinha-se comportado de uma forma surpreendentemente doce e cavalheira. Não havia dúvida na cabeça da garota, que aquela tinha sido a melhor maneira que ele poderia ter arranjado, para se desculpar.

A cabeça de Carter ainda não tinha dado aquele “clique”. M ela gostava de permanecer naquele estado. Não queria correr o risco de acordar e entender que tudo não passou de um sonho bom.

Ela ainda podia sentir, podia descrever cada uma das sensações como se elas ainda estivessem a fazer efeito no seu corpo.

Harry a havia beijado. Tinha sido apenas um pequeno choque na sua pele. Um choque que a deixou com todas as suas estruturas abaladas.

Duas batidas na porta anunciaram a entrada de Emma, a empregada –  Menina Carter a sua mãe ligou para avisá-la que vai ficar em Nova Iorque mais uma semana.

- Para variar, não é? – perguntou em tom irónico.

- Menina a sua mãe…

- Tem uma vida bastante atarefada. – completou. – Sim, eu já conheço a história Emma.

Emma não opinou mais sobre assunto, sabia melhor do que ninguém, que Carter era implacável quando o assunto era a sua mãe.

Informou Jordan sobre o jantar que tinha deixado dentro do micro-ondas e foi embora.

 

Carter ficou no quarto por pelo menos mais uma hora, revivendo todo aquele baile de trás para a frente.

Havia apenas uma coisa que a perturbava até então.

Jordan ainda não sabia quem era a loira do vestido amarelo e essa era realmente, a mais recente pulga atras da sua orelha. Ninguém a tinha visto, ninguém desconfiava de quem ela era. Como se ela nunca tivesse existido. Como se ela fosse obra da sua imaginação fértil.

XXX

Aquele beijo tinha sido a sua jogada de mestre. Mais uma vez, Harry estava sob o topo da situação. Jordan tinha ficado completamente rendida aos seus encantos e agora nada poderia parar Van der Wood de dar continuação ao seu plano.

 

Harry tinha-lhe mostrado o seu lado romântico, no baile de mascaras e hoje ele ia mostrar o seu lado sedutor, o que ela ainda não tinha visto.

Até ao momento, ele só tinha brincado com o psicológico dela, dando-lhe pequenas amostras daquilo que ele era capaz. Mas esta era a noite. Harry estava farto de esperar pelo momento ideal.

Levantou-se da cama e de avulso e só parou quando chegou ao carro.

Na sua mente, apenas um nome existia.

Jordan Carter.

XXX

Jordan pegou num casaco de cabedal preto e fechou o casaco até esconder o sutiã.

Quando Harry chegou, era já 23.00H. Jordan deu uma última olhada no espelho e sorriu de agrado com o seu visual. Os lábios estavam pintados de vermelho forte, o eyeliner de gatinho estava perfeitamente desenhado e a roupa assentava-lhe que nem uma luva.

 

Harry usava uma t’shirt branca que realçava cada um dos seus traços másculos. Um casaco de cabedal preto e um par de calças justas da mesma cor e Harry estava mais quente do que nunca.

- Vamos?

- Er… Sim. – respondeu um tanto embaraçada.

Ela não achou que desde aquele insignificante beijo, Harry passaria a trata-la como uma princesa, mas o fato de ele não ter feito qualquer menção ao seu aspeto, ou ter iniciado a mais insignificante das conversas, afetou um pouco o seu ego.

XXX

Durante a viajem até ao misterioso bar, do qual Harry fazia questão de não dar qualquer detalhe do seu paradeiro ou nome, Carter observava de canto de olho, cada um dos movimentos do garoto de cabelos bagunçados.

Ele mantinha os globos verdes fixos na estrada e ambas as mãos firmes, coladas sobre o volante, exercendo uma força desnecessariamente exagerada. Ele parecia falsamente calmo, apesar da respiração controlada e do seu estado ser aparentemente, de pura concentração, Harry não estava a agir como de costume, a típica descontração, os comentários dualistas e os olhares mal-intencionados não estavam lá, era como se estivesse a calcular cada um dos seus atos. Parecia que algo o estava a atormentar, algo do qual Carter não tinha conhecimento, mas Jordan não iria perguntar. Ela não tinha o direito de invadir a sua privacidade, pelo menos não tão cedo. Da última vez que o fizera as coisas não correram da melhor forma e ela não gostaria de correr riscos outra vez.

Jordan ainda estava muito além de gostar dele, mas isso não significava que ela não se importasse com os sentimentos de Van der Wood. Mas uma coisa era certa, Carter não podia negar, muito menos esconder que havia uma estranha conexão entre eles. Como se Harry fosse o lado negativo de um íman e ela fosse o lado positivo desse mesmo íman. Mesmo não querendo eles se encaixavam, se completavam. Eles eram os opostos, mas eles se atraiam.

XXX

O bar ficava muito mais longe do que Carter pensava, quando finalmente chegaram, Harry estacionou o seu Land Rover entre uma Harley e um Toyota velho e saiu.

Jordan sem saber bem como agir, fez o mesmo.

A noite estava fria e o ambiente era pesado. Caras mal-encaradas, sorrisos mal-intencionados, conversas baixas e olhares arrepiantes eram lançados por todos os lados. Não foi dicil para Jordan topar, que o“17Black” era como um parque infantil, comparado àquele lugar.

Harry não se mostrava minimamente assustado ou incomodado com a atmosfera tenebrosa que fazia o corpo da garota de cabelos castanhos arrepiar por completo. Ele parecia estar bastante familiarizado com aquele tipo de local e situação, o que inegavelmente surpreendeu Carter.

- Harry. – Jordan pigarreou perto dele. – Qual foi a tua ideia quando decidiste trazer-me aqui?

Os olhos verdes dele logo foram de encontro aos castanhos de Carter e Harry não pôde esconder um sorriso triunfante quando viu que Jordan sentia-se desconfortável naquele lugar.

- Carter pensei que eras um pouco mais durona.

- E sou! – protestou, enrugando a testa.

- Então porque é que estás a agarrar o meu braço como se a tua vida dependesse disso?

- Desculpa. – disse desconcertada, soltando o rapaz.

- Jordan não há o que desculpar. Eu até que gosto desse teu lado mais “donzela indefesa”.

Carter franziu ainda mais a testa, depois do recém apelido, mas não protestou.

Chegando mais perto, conseguiu ler o nome do bar num grande placar em letras garrafais, iluminadas a vermelho, “Highway to Hell”.

“Ironia” pensou ela.

- AC/DC? – perguntou.

- O dono é um fã!

- Conheces?

- Sim. – respondeu seco.

- De onde?

Harry lançou-lhe um olhar repreendedor e Jordan rapidamente entendeu que tocou num assunto proibido.

- Não precisas responder.

- Como se eu o fosse fazer. – soou rude, deixando Jordan confusa.

XXX

- Quem é ela Van der Wood? – o homem por trás do balcão apontou, levantando o queixo, segurando um copo numa mão e um pano na outra enquanto limpava-o.

- Não é da tua conta. – respondeu azedo sem tirar os olhos da garota que dançava propositadamente provocante.

Tudo que ele não precisava agora era alguém a fazer-lhe perguntas sobre Carter, quanto menos soubessem melhor.

Harry deu mais um gole na sua cerveja e respirou fundo.

Ele precisava de manter a calma. O suor escorria pelas suas costas por baixo da t’shirt branca. A falta de arejamento naquele bar contribuía ainda mais para o calor crescente. Harry lutava para manter o controlo e não estragar tudo.

Jordan estava muito mais à vontade agora. Ele sabia que tudo seria uma questão de tempo e de álcool, para que a garota se liberta-se.

Ela mexia-se à sua frente de forma insinuante e sensual. Cada balançar de cintura, cada rodopio exageradamente executado, era sempre com o propósito de captar a sua atenção. Carter olhava-o de 10 em 10 segundos, para se certificar se ele ainda a observava, encostado no balcão do bar.

- A garota está a tentar seduzir-te Hazza! – comentou o barman. – E pelo que vejo…Está a conseguir.

- Eu sei. – sorriu de lado.

Ele já havia chegado onde queria, mais par de horas e o seu problema estaria resolvido de vez.

Pelo menos era isso que Harry pensava, até ao segundo que reparou em quem o olhava de longe.

Liam Hayes estava sentado com um grupo de amigos num canto distante a Harry. Ele segurava uma cerveja na mão e fingia-se interessado no assunto dos outros, mas nunca perdia de vista o garoto de cabelos castanhos e olhos verdes.

“Merda”, pensou Harry para si.

Aquilo tinha acabado com todo o seu esquema. Ele estava perdido.

Tudo que havia planeado acabava de ir por-água-abaixo.

A sua cabeça começou a trabalhar rápido e de forma eficaz.

Sem pensar duas vezes, Harry correu ao encontro de Jordan e segurou-a firme pela cintura. Ele podia ter que adiar os seus planos, mas não ia desperdiçar aquela noite. Tudo era um jogo e não custava nada continuar com aquele bluff por mais algum tempo.

- Que susto Harry! – mostrou-se visivelmente assustada.

-Eu não estou num clima de dançar, então pensei que talvez pudéssemos jogar bilhar? – sugeriu sedutor.

XXX

 

Música maestro: http://www.youtube.com/watch?v=NlXTv5Ondgs

 

Era a sua vez de jogar e ela não perderia a oportunidade de arrancar o sorriso presunçoso de Harry quando a sua última bola entrasse no buraco e a vitória fosse clamada.

Desta vez ela não podia perder. Não quando o seu adversário era Van der Wood. A vitória era necessária, era uma prioridade.

Harry encostou as costas contra a parede mais próxima à mesa de bilhar, indicando a Jordan que ela poderia avançar com a sua jogada. As luzes vermelhas davam àquela sala um ar ainda mais misterioso e sedutor. A temperatura era já alta demais e a tensão pairava sobre aquela atmosfera. Kings of Leon tocavam a médio volume e impedia que o silêncio fosse criado.

Tragando uma última vez o seu cigarro, Harry pousou os olhos em Jordan inclinada sobre a mesa de bilhar. A garota encontrava-se na sua frente, com a mira na bola branca. Nunca antes houvera tanta malicia, nem tanto desejo naqueles globos verdes como naquele momento.

Jordan sabia que Harry a observava de forma carnal, mas não parecia se incomodar, pelo contrário, ela gostava. Gostava da sensação de ser desejada, de ser cobiçada. Harry era como um predador e ela a sua preza, mas não uma preza fácil. Se dependesse dela, aquele jogo duraria até Van der Wood começar a subir paredes e a implorar pelo seu toque.

Quando a necessidade por concentração falou mais alto, a música passou a ser o único som ouvido. Jordan levou toda a sua atenção para a bola vermelha que se encontrava estrategicamente perto da bola branca. Inclinando ainda mais o corpo contra a mesa, Carter focou o seu alvo e então lançou o taco contra a bola, fazendo com que esta atingisse a vermelha e essa entrasse diretamente no local certo.

Um meio sorriso de satisfação surgiu nos seus lábios e ela não esperou nem um segundo, para levantar o olhar e encontrar o de Harry…

- Eu poderia ficar aqui toda a noite ver-te inclinar e estender sobre essa mesa. – Harry disse transportando todas as possíveis segundas intensões nas suas palavras. – Seria um prazer.

O rubor nas suas bochechas foi impossível de evitar, mas logo ela entendeu que aquele comentário fora uma tentativa de a desconcentrar.

“Foco” interiorizou ela como se aquele fosse o seu mais novo mantra.

Harry pegou no giz e usou-o, soprando de seguida o excesso. Lentamente ele circulou a mesa e aproximou-se de Jordan. Nem por um segundo que fosse os seus olhares se desencontraram o que apenas contribuiu para a crescente sede sexual.

Jordan voltou a posicionar-se sobre a mesa de bilhar para dar mais uma tacada, agora na bola azul. Colocando-se propositadamente virada de costas para Harry, ela sorriu triunfante quando ouviu um suspiro alto vindo de trás.

- Eu sei qual é a tua ideia Carter. Já entendi qual é o jogo que tu realmente queres jogar.

Lentamente, Jordan levantou-se e virou-se para Harry. Olhar para ele só confirmou as últimas dúvidas que ainda restavam.

Harry queria-a mais do que qualquer outra coisa naquele momento. Se ela se atrevesse a olhar bem nos seus olhos, ela poderia até mesmo confirmar que aquela situação não era apenas uma questão de querer, mas sim uma necessidade de a tomar, tomá-la como nunca ninguém antes o fez.

O som do taco cair no chão acordou-a para o que ia acontecer de seguida.

Harry atirou o objeto contra o canto da sala e andou a passos rápidos até à garota. A primeira coisa que ela viu, foram aqueles dois olhos ardendo contra os dela, depois uma mão foi posicionada sobre a base da mesa e Carter viu-se obrigada a encostar a cintura contra a superfície.

- Eu não costumo interromper nenhum jogo de bilhar. – sussurrou rouco, encostando os seus lábios à orelha da garota. – Mas momentos desesperantes, pedem atitudes desesperantes.

Ela só se lembra de ter engolido a seco e fechado os olhos. Depois tudo ficou escuro, depois tudo ficou claro e então uma explosão de cores e sensações vieram tomá-la por completo.

Aquele cheiro afrodisíaco e inebriante invadiu os seus pulmões e drogou-a no segundo seguinte. Duas mãos quentes e desesperadas, envolveram a sua cintura apertando-a prazerosamente e levantando-a no ar. Por instinto ela não hesitou em enlaçar as pernas no tronco de Harry e lançar ambos os braços para o pescoço do garoto.

Sentindo-se ser pousada sobre a mesa de bilhar, a garota voltou a abrir os olhos para encontrar mais uma vez os de Van der Wood. E então aconteceu. E não foi como ela pensou que seria. Foi mil vezes melhor.

O choque entre aquelas duas bocas, causou a ambos os corpos descargas de energia elétrica. Se Jordan não desmaiasse com aquilo, nada neste mundo o poderia fazer. A agressividade misturada com a ânsia de se sentirem tão completamente, fazia-a querer ser livre da necessidade de oxigénio.

A exigência que lhe era pedida, juntamente com a entrega que lhe era dada, deixavam-na desconcertada e carecida por mais.

Se alguma vez ela tivera dúvidas de que o céu existia, as suas suspeitas acabavam de ser anuladas. Beijar Harry era como tocar num pedaço de céu.

As línguas lutavam em sincronia, enquanto ambas as mãos percorriam os corpos explorando cada centímetro ainda desconhecido.

Harry pressionava o corpo dela contra a mesa de bilhar e Jordan estremecia de cada vez que ele se insinuava.

A volúpia era muita, o desejo era demais. A necessidade era consumista.

A textura dos lábios de Harry, era quente e macia, uma total antonímia à força que ele entregava àquela ação tão carnal.

Os corações batiam descompensados, as respirações já falhavam e o calor começava a ser insuportável.

Ela sentiu a mão de Harry empurrar o casado dela para trás e não pensou duas vezes em ajudá-lo a executar a ação. Puxando o ziper para baixo, Jordan viu a cara de surpresa e satisfação surgir no rosto do garoto.

A peça de roupa foi atirada, fazendo agora companhia ao taco de bilhar no canto da sala.

Harry não se demorou em recolocar as mãos no corpo quente e suado da garota e Jordan também não perdeu tempo em retribuir o contacto.

- Eu sabia…- falou ele com os lábios colados na boca dela. – Sabia que havia algo interessante por baixo daquele casaco.

Eles voltaram a se beijar agora com maior desejo. O impacto fez com que um pequeno gemido escapasse da garganta do garoto e Jordan atingiu o ápice do seu desejo. Ela soube que naquele momento ele era tudo que ela mais desejava.

Van der Wood prensava-a contra ele de forma viril e sensual e cada vez tornava-se mais difícil manter-se lucida sobre quem era, onde estava e o que estava a fazer.

A sua boca estava roxa e dorida, mas a vontade de continuar era muito maior.

Harry encurralou mais uma vez os seus quadris contra os dela e Jay pôde ter finalmente a perceção do quão excitado ele se encontrava.

O ar em ambos os pulmões era já mais do que necessário. Harry deixou deslizar os seus dentes pelo lábio inferior de Carter e sentiu um sorriso formar-se na boca dela.

Jordan sabia que estava em desvantagem. Por baixo daquela jaqueta ela trazia apenas um sutiã de renda preto e naquele momento ela era a única fisicamente exposta na sala.

- Tira…- ela disse entre respirações pesadas, puxando a t’shirt do garoto para cima.

Ele não pensou antes de obedece-la. Tanto quanto ela, Harry estava fora de si e Jordan não perdeu tempo em depositar as suas mãos na pele nua e tatuada de Van der Wood quando este já não usava a t’shirt.

Os olhos castanhos da garota transbordavam luxuria e ela não conseguia desviar-se do corpo perfeitamente definido à sua frente.

Cada traço físico de Harry, era como uma escultura clássica e cada toque, era como um convite para uma viajem sem volta ao paraíso.

Então ela olhou para uma tatuagem em específico. No lado esquerdo do seu peito ele tinha um nome escrito.

Um nome bonito. Um nome de uma mulher.

“Bella”

Jordan não perguntou, no entanto não conseguiu evitar passar um dedo sobre aquela marca e Harry percebeu.

Bruscamente ele recuou, assustando a garota com a sua falta de sensibilidade e pegou na t’shirt sem encará-la.

- Harry…

- Vamos embora.

Simples e frio. Foi assim que ele soou.

A única vez em que Harry lhe falou assim fora quando Jordan questionou-o sobre quem era a garota na fotografia.

Agora não havia dúvidas. Bella era o nome da garota de olhos azuis.

Lady Rebel – Capítulo 8

O relógio de pulso marcava 22.00H em ponto. Era a terceira vez num espaço de 10 minutos que ela olhava para ele.

A festa já havia começado e Carter ainda não tinha ganho a coragem necessária para entrar no salão nobre.

Ela padecia de três grandes problemas.

O primeiro dos seus problemas tinha nome e sobrenome. Eleanor Lawrence.

Carter não soube como conseguiu encará-la durante todas aquela semana sem que a verdade viesse à tona a cada 5 segundos de conversa. Contudo, Jordan prometera a si mesma que desta noite não passaria, Eleanor era a sua melhor amiga e ela não lhe podia esconder algo tão sério.

O seu segundo problema era mais conhecido como Mr. Fitz.

Ela tinha passado toda a semana a evitar que a proximidade entre ambos fosse provocada em qualquer circunstância. Chegou sempre atrasada à aula e saiu antes de qualquer um dos seus colegas, assim que o toque avisava o fim da sua tortura.

Jordan passou grande parte das suas manhãs em fuga constante.

O seu último dilema e sem duvida, o mais estranho de todos, era Harry Van der Wood.

O medo de se esbarrar com Harry no baile, impedia-a de dar o primeiro passo para o corredor principal do Edifício Hepburn. A última vez que estivera com Harry não fora das mais memoráveis e não sabia como ele iria reagir quando estivessem juntos.

Jordan ainda se recordava perfeitamente da tristeza nos olhos verdes do rapaz. Era impossível esquecer a escuridão que os possuiu e transformou num poço profundo e vazio. O quanto desesperado ele ficou quando ela perguntou quem era a garota da fotografia. Em como ele arrancou o objeto da sua mão, sem pensar na brutalidade do seu ato, sem querer saber se a magoaria ou não. Em como ele olhou nos seus olhos sem expressar o mais escrupuloso dos sentimentos e mandou-a sair. E tudo aquilo foi culpa dela, dela e da sua estúpida necessidade em fazer perguntas que não devia.

O tempo em que esteve longe dele, fora o suficiente para ela entender que a sedução natural de Harry, era uma máscara que ele usava, para esconder o seu lado negro e deprimente. “Mas, por quanto tempo ele iria manter aquela fachada?” “Quando é que a máscara cairia?”

Ela realmente não sabia, mas esperava que não demorasse muito.

XXX

O salão nobre estava elegantemente decorado em tons de branco e dourado. Uma luz púrpura brilhava na pista de dança, tornando todo aquele ambiente ainda mais misterioso. Um majestoso candelabro de cristal enfeitava o teto branco, combinando adequadamente com os caixotões em estilo barroco.

Arcos de volta inteira preenchiam todas as paredes da grande sala, as mesas redondas que poderiam arrecadar até oito pessoas em seu torno, circulavam todo o salão decoradas com exuberantes vazos e velas nos mesmos tons de dourado.

Não levou muito tempo para Jordan reconhecer as irmãs Lawrence no meio da pista de dança. O medo entranhou-se na sua pele assim que os seus olhos caíram sobre Eleanor. Ela usava um vestido lilás e uma máscara branca a condizer. A missão que a arrastava ao encontro de Eleanor tornava-se cada vez mais impossível de realizar, a casa passo que Carter dava em direção à melhor amiga.

- Jordan estás deslumbrante! – elogiou Lea parando a sua dança exuberante.

- Tu também estas muito bem Lawrence!- Jordan devolveu o galanteio sem tirar os olhos de Eleanor. – Els… – chamou-a hesitante. – Podemos falar?

Não foi preciso nem um segundo olhar, para que Eleanor entendesse que por trás da aparente serenidade de Jordan, ela escondia uma expressão alarmante.

Sem responder nada, Eleanor enlaçou a mão com a da amiga e levou-a consigo para longe daquela confusão.

 

Quando Eleanor fechou a porta da casa de banho devolveu a Jordan o mesmo olhar preocupado depois de retirar a máscara.

- Carter eu sei o que se passa. – declarou Els.

- Sabes? – perguntou num misto de surpresa terror.

- Sim, ele falou comigo.

- Ele falou contigo?

- Jay, vocês os dois têm que resolver-se! – Carter achou que nada mais a pudesse surpreender depois desta frase. – Desde o primeiro dia em que vos vi juntos que eu venho reparado na tensão que se cria quando ele se aproxima de ti e…

- Tens reparado na tensão? Mas Eleanor não há nada, não significou nada, foi um erro, aquilo foi só…

- O Van der Wood contou-me o que aconteceu.

“ O quem?”

- O Harry contou-te o que aconteceu?

- Sim, ele contou-me tudo.

- Não escondeu nenhum detalhe. – Jordan repetiu mais para si, sentindo todo o ar dos seus pulmões ser-lhe arrancado no mesmo segundo.

- Ele falou-me do seu descontrole quando tu questionaste-o sobre quem era a mulher na fotografia. E ele me pareceu bastante sincero quando disse que estava muito arrependido em ter-te tratado tão mal e de forma tão bruta. Tu nem vais acreditar Jay, mas o rapaz quase chorou na minha frente.

Carter não sabia o que dizer. Não sabia em que ponto da situação ficar.

Era bastante óbvio que elas não estavam em sintonia de assuntos, mas agora a coragem de Jordan havia-se resumido a uma pequena e insignificante ervilha que tinha acabado ser esmagada, juntamente com o seu orgulho quando percebeu que o seu coração palpitava somente com a ideia de Harry se preocupar com ela. De chorar por causa dela.

Mas isso era estranho. No mínimo. Harry não era do tipo que chorava por causa de uma mulher. Disso ela tinha a certeza.

- Jordan, o Harry está realmente arrependido e eu na minha honesta opinião, acho que tu deverias falar com ele. – avisou-a recolocando a máscara. – Tentar resolver esse problema. Tenho a certeza que ele vai ficar feliz se falares com ele ainda hoje.

Jordan nada respondeu, apenas acenou afirmativamente com a cabeça e deu um meio sorriso fraco para a amiga. Observou Eleanor abandonar a casa de banho e permaneceu ali durante alguns minutos em puro silêncio.

XXX

  1. 00H e Jordan ainda deambulava pelo salão nobre na espectativa de encontrar Harry. Estava farta de esbarrar contra gente colorida e mascarada. Queria achá-lo o mais rápido possível.

Agora mais do que nunca, Jordan queria poder encontrá-lo e pedir desculpas pelo seu ato infantil e intrometido.

Já era a quarta vez que ela percorria a festa de ponta a ponta, e nada.

“Mas quem foi o infeliz que teve a ideia de fazer disto um baile de máscaras?”

Tirou a mascara do rosto e deu mais uma vista d’olhos rápida. Bufou frustrada e baixou o rosto. Ela não o conseguia encontrar, sequer tinha certeza de que ele estava ali.

De repente, alguém puxou-a e quando deu por si, já estava a ser arrastada para trás dos cortinados improvisados.

O seu primeiro instinto foi gritar, mas uma mão forte e pesada, impediu-a de o fazer. Ele usava uma máscara escura, com um terno a condizer, a pouca luz não permitia que Jordan entende-se se a máscara era realmente preta ou não.

Quando o individuo afrouxou o aperto no braço da garota e tirou a mão da sua boca, falou pela primeira vez. – Carter, nós temos que falar!

Aquele tom de voz autoritário e razinza fê-la finalmente perceber quem a havia arrastado para aquele canto.

- Mr. Fitz? – Perguntou perplexa.

- O próprio. – respondeu frio. – Tu sabes porque eu te trouxe até aqui. Eu tentei falar contigo esta semana, mas a única coisa que tu fazias era fugir. Tornaste esta missão bem mais difícil do que eu esperava. – ele parou por um instante. – Carter aquilo que aconteceu foi um erro imensurável.

A forma tão prática que ele usou para avaliar a situação permitiu que ela respondesse segura e tranquila.

- Não poderia concordar mais.

O homem olhou-a com desdém, como se tivesse ficado ofendido, mas não deixou o seu discurso nem a sua ideia de parte.- Ainda bem que estamos de acordo neste assunto. – falou reaproximando-se do cortinado lilás. – Não gostaria realmente de ter que prolongar este equívoco.

- Mais uma vez, eu não poderia concordar mais. – retrocou indo em direção dele. -Alias, eu não quero que a minha amizade com a Eleanor seja afetada por um ato impulsivo e inconsequente.

XXX

A noite sempre a acolhia, sempre lhe era muito convidativa e naquele momento ela precisava mais daquilo, do que de oxigénio.

Os pensamentos voavam como pássaros sem rumo na sua mente. Nada se encaixava, nada lhe parecia certo.

Ela tinha a certeza que aquele encontro com o diabo havia sido um aviso.

O Fitz não queria que Eleanor soubesse de nada. E Jordan concordara em não contar nada.

Sentia-se uma hipócrita. Estava a fazer tudo ao contrário, a agir como não gostava, porém a coragem necessária para enfrentar a Lawrence já não existia e Jordan teria que deixar a ideia de contar a verdade de parte.

 

Carter sentou-se a contemplar o céu estrelado na escadaria do Edifício Hepburn. Tentando manter sã aquela pequena parte do seu cérebro que ainda não tinha sido afetada.

Quando se apercebeu, havia uma garota sentada do seu lado. Ela usava um vestido amarelo, e uma máscara branca. Os seus cabelos loiros estavam presos numa trança perfeitamente desconcertada e os seus olhos castanhos fixavam o céu.

- Eu gosto de observar as estrelas. – começou ela.- Elas contam-me histórias. Algumas tristes, outras nem tanto. – A garota falava sem nunca olhar para Carter. – Algumas engraçadas, outras entediantes. Mas todas as histórias são histórias. Todas têm um início, um meio e um fim. – então ela olhou para a de cabelos castanhos ao seu lado. – A tua história começou agora. E já trouxe demasiada confusão, porém eu vejo que o final que esperas não é o final que vais ter. – Jordan pôde ter a certeza que viu um brilho diferente surgir no fundo daquele olhar quando ela finalizou a sua sentença. – Vocês estão escritos nas estrelas Carter. Independentemente do desfeche, vocês estão escritos nas estrelas.

Lea chamou por Carter e acenou-lhe para que ela voltasse para a festa. Jordan fez-lhe sinal, para que esta esperasse, mas quando se voltru novamente para a loira, ela já não estava lá.

Jordan levantou-se de rompante e olhou para todo o lado, mas nada, ela simplesmente tinha sumido.

XXX

(Música: https://www.youtube.com/watch?v=a9YQPWqTnx4)

A música tocava lenta e suave. As notas dançavam na sua cabeça uma valsa triste e melancólica. Se antes ela estava nostálgica, presa nos seus pensamentos e memórias mais remotas. Agora ela estava esmorecida e desolada. Sentada no canto daquele salão contando o número de flores que havia dentro daquele vaso exageradamente arrojado sob a mesa redonda. Jordan já tinha desistido de encontrar fosse quem fosse.

 

Sentia-se uma fraca, uma incapaz. Sentia-se a pior pessoa do mundo por não ter coragem de contar a verdade a Eleanor e de concordar em manter o sigilo.

Sentia-se confusa com as palavras da desconhecida que parecia saber mais do que ela própria.

Sentia-se desamparada e perdida.

Se autoaversão matasse, Jordan já estaria a sete palmos do chão há muito tempo.

Tudo a seu redor era nada, mas na sua cabeça tudo era tudo.

Nada naquele cenário a chamava. Nada a atraía, até ao momento em que uma mão pousou no seu ombro e um perfume amadeirado penetrou as suas narinas, diretamente para os seus pulmões.

- Seria possível esta bela dama me dar a honra de uma dança?

Mesmo soando duas oitavas a baixo, aquele tom fora o suficiente para acordar todos os sentidos de Jordan e reconhecer imediatamente o dono da voz atrás dela.

Por trás daquela máscara negra, Harry parecia o ser mais sedutor e enigmático que alguma vez Carter vira.

Ele estendeu a mão expectante que a garota a tomasse. E ela assim o fez.

Caminhando de mãos dadas até ao centro da pista de dança, nenhum deles ousou pronunciar alguma palavra com medo de arruinar o momento.

Quando Harry parou e se colocou na frente dela, tomou as mãos da garota e enlaçou-as ao redor do seu pescoço.

Até então nada era dito, nenhum protesto, nenhum impedimento.

De forma delicada, Harry pousou ambas as mãos nas costas dela e aproximou os corpos.

O perfume dele queimava sem arder nos seus pulmões, a calma dele agitava o inconsciente dela.

Invés de desejo, ela sentiu segurança.

O primeiro passo foi dado, seguido de outros, calmos, comedidos, sossegados e puros.

Tudo naquele momento parecia ser puro e natural. Nada parecia forçado, nada parecia perigoso ou errado.

Era apenas Jordan e Harry, sozinhos num salão cheio de gente, a dançar.

Ele embalava-a numa dança mágica e intima. Ela seguia os seus passos, sem medo de se perder na contagem daquela valsa, apenas usufruindo daquele momento inesperado e aguardado durante toda a noite.

Ela pousou a cabeça no peito dele e sentiu. Sentiu um coração. Ele batia forte, mas sereno. Batia em entendimento com o dela. Como se sempre assim tivesse estado e sempre assim iria ficar.

Hesitante, ela arriscou-se a olhá-lo. Jordan viu os olhos verdes, puros e simplesmente verdes.

O garoto desceu lento até aproximar o seu rosto do dela. Ela sentiu a respiração dele bater-lhe contra os lábios, a vacilação nas mãos que começavam a subir devagar até às laterais do seu rosto. Sentiu o seu coração querer saltar da boca quando percebeu o que ia acontecer.

Então ela fechou os olhos e experienciou o toque suave dos lábios de Harry Van der Wood contra a sua bochecha.

#experiência Concerto com os Space Jam

Tal como prometido, vou começar a partilhar alguns momentos da minha vida e nada melhor do que começar em grande, não é mesmo?

Por isso aqui fica, a minha primeira atuação com uma banda de rock  local os “Space Jam”.

Lady Rebel – Capítulo 7

Libertando o seu pescoço do aperto da gravata, Van der Wood percorreu o parque de estacionamento da Ashbourne College em direção ao seu Land Rover preto

Ele estava a suar frio das mãos, enquanto lutava internamente para conter a imensa vontade de entrar na sala de aula e agredir o professor de História da Arte. Mas ele não o podia fazer sem mais nem menos.

E pelo pouco que sabia sobre si mesmo, Harry não nutria qualquer sentimento afetuoso por Carter, era tudo um jogo de sensualidade que ele usava para atingir os seus objetivos, que até ao momento não eram nem um pouco nobres. Contudo ele não conseguia evitar o orgulho ferido, venda-a tão entregue a um outro homem que não ele, sem que o mesmo tivesse feito grande esforço.

- Merda! – resmungou batendo com o punho no capô do carro. – Isto só vai atrapalhar os meus planos.

- A falar sozinho Van der Wood?

A voz era já tão conhecida de outros tempos, não o enganou nem por um segundo.

Soltou um suspiro alto e cerrou os olhos numa tentativa de acalmar o seu temperamento instável, ou pelo menos mante-lo controlado.

- Sparks. – soou seco. – O que fazes aqui? – Harry afastou-se do veículo e olhou para o rapaz de cabelos escuros e olhos azuis.

- Estava só a resolver uns negócios. –  Luke respondeu despreocupado.

- Negócios? – questionou-o cruzando os braços sobre o peito. – E que tipo de negócios um homem como tu tem para resolver aqui na Ashbourne?

- Coisa de peixe grande Van der Wood. – disse com um sorriso confiante.

- Vender drogas a um bando de adolescentes viciados, deve ser algo em grande para uma pessoa como tu, não é Luke – espicaçou em tom sarcástico. – Honestamente Sparks! Ou tu estás mesmo desesperado pelo dinheiro, ou então estás a perder as tuas qualidades.

- Aqui ninguém está a perder qualidades nenhumas! – Luke rebateu, tomando uma posição defensiva. – E tu sabes perfeitamente que o dinheiro é o meu real problema, caso contrário nunca teria convencido a Jordan a ir até ao 17Black durante a semana. E falando nela, tu ainda não me explicaste porque é que me pagaste para eu levar a Jay até lá?

Van der Wood manteve-se cabisbaixo, disperso à pergunta de Luke. O nome da garota reavivava as suas últimas memórias dela. Memórias essas que ele fazia questão de não recordar.

Aquilo era um problema. Um problema dos grandes. Se ele não tomasse rédeas à situação rapidamente, tudo que ele havia planeado iria acabar mesmo antes de começar.

Harry encarou a face curiosa e intrigada de Luke e sorriu em deboche. – Não é da tua conta. –respondeu por fim.

- Tudo que envolve a Jordan é da minha conta! – argumentou zangado. – E aliás… – acrescentou ainda, colocando o dedo indicador em frente da face de Harry. – Se tu estás a pensar em fazer-lhe alguma coisa eu…

- Tu o quê? – Harry levantou a voz. – Ouve bem Sparks. Eu não te quero ver envolvido mais do que já estiveste. Se tu por um acaso tentares seja de que forma for, meter-te nos meus planos, as coisas vão acabar muito mal para o teu lado.

- Então há um plano! – aquilo não foi uma pergunta.

Aquele assunto já estava a prolongar-se mais do que o que devia. De impulso, Harry empurrou Sparks para longe, focando nos intensos olhos azuis de Luke antes de entrar no carro.

Acelerou e saiu da escola com a cabeça cheia e os pensamentos a mil.

XXX

A ampla sala de estar dos Van der Wood era decorada em variados tons de pastel. As janelas que permitiam acesso à varanda, cobriam quase toda a parede a Este do local. Harry sentiu-se aliviado quando chegou a casa.

Aquele era o único local onde ele não tinha que fingir ser alguém que não fosse ele mesmo, onde ele não tinha que vestir a pele de Harry Van der Wood o bom menino.

Em casa, Harry podia ser apenas Harry. O rapaz solitário e incompreendido. O rapaz triste e vazio que ele sempre soube ser, desde à 3 anos atrás.

Entrou no seu quarto com o intuito de passar lá o resto do seu dia para refletir e se possivelmente chegar a alguma solução, mas a tarefa foi adiada assim que ouviu a voz da sua mãe pedindo que ele fosse até à sala de estar.

De contragosto, Harry levantou-se da cama, soltando um resmungo baixo e arrastou-se até ao encontro de Grace. Não se preocupou em vestir uma camisola, que escondesse as várias tatuagens que a sua mãe tanto odiava. Estava em casa e não se ia privar de estar à vontade no seu próprio lar.

Chegando na sala, viu a sua mãe levantar-se e sorrir-lhe, um passo mais á frente, surpreendeu-se com a outra figura que se encontrava do lado da matriarca da família Van der Wood.

Jordan estava ali. No único local onde ele achava que podia se expor sem que ninguém o julgasse.

E ela olhava-o de forma diferente.

Jordan olhava-o compreensiva, como se naquele nano segundo de contacto visual, ela tivesse entendido quem ele realmente era, o que ele realmente queria e do que ele mais precisava.

E invés do ódio que ele costumava sentir, ele sentiu alívio. Alívio por saber que ela já não estava mais com aquele homem, alívio por ver aquele novo olhar meigo vindo dela, alívio por tê-la por perto, mesmo que na maior parte das vezes, ele preferisse que ela estivesse longe.

- Harry! – chamou-o Grace, tirando Harry dos seus desvaneios momentâneos. – Eu chamei a Jordan aqui porque achei que fosses querer conversar com ela. A Jordan pode apresentar-te alguns dos seus amigos e talvez tu possas criar novas amizades, não achas?

Harry olhou para a mãe, sem saber o que responder ao certo. Muita coisa lhe passava na cabeça e nem uma dessas coisas servia de resposta à pergunta de Grace.

- Já que não me dizes nada eu deixo-vos aqui sozinhos. – avisou antes de sair da sala. – Ah! E Jordan! – recuou recebendo logo de seguida a atenção da garota. – Qualquer coisa que precisares é só pedir. Aqui não há quaisquer cerimónias, finge que esta é a tua casa.

- Obrigada.

XXX

 

Harry apresentava calma, até mesmo, uma certa indiferente à presença de Jordan.

Desde que Grace abandonou a sala, ele manteve-se sentado no sofá, desligado de tudo a seu redor. Soube que Jordan também mudou de posição, pois ouviu passos que acusaram os seus movimentos. Ele podia senti-la perto de si. Sabia que Carter estava à espera do momento em que ele desse início ao diálogo.

Mas a plenitude de Van der Wood, era apenas uma fachada. Por dentro ele estava a conter o seu tumulto interior. Harry estava a pisar em terreno desconhecido, e todo o cuidado era pouco. Ele tinha de manter o controlo e fingir que não tinha apanhado Jordan com o Mr. Fitz.

- Eu não sabia que tinhas tatuagens. – comentou baixo.

Foi uma observação interessante, pensou ele. E obviamente inteligente. Iniciar o assunto com algo simples e banal, para evitar os momentos tensos que sempre se instalavam entre eles.

- Porque é que vieste? – contrapôs, tomando controlo da conversa.

- O que se passa contigo Van der Wood? – perguntou, enquanto observava uma estante cheia de fotografias emolduradas.

Harry não gostou nem um pouco daquela pergunta. Foi inesperadamente invasiva e ele não queria dar-lhe satisfações sobre fosse o que fosse. O facto de a pergunta ter-lhe saído tão naturalmente, mostrava que ela havia ficado a estudá-lo durante os minutos de silêncio. E se existia coisa que Harry odiava, era ser observado. Jordan estava a tentar descobri-lo e isso ele não iria permitir. Ela não tinha o direito de saber de nada. Nada que fosse dele lhe dizia respeito. Nada, exceto uma coisa. Mas isso ficaria guardado até ao momento certo.

- Porque é que vieste? – insistiu ele impaciente.

Jordan bufou obviamente aborrecida com a insistência infantil de Harry, mas não se deixou afetar pela óbvia atitude defensiva.

- Eu vim porque a tua mãe me pediu. – falou segurando um porta-retratos nas mãos.

- Imaginei! – murmurou.

Ele sabia que tinha de haver um motivo por trás da vinda de Jordan à casa dos Van der Wood. Não fazia qualquer sentido ela visitá-lo sem mais nem menos.

No entanto, estranhou que ela tenha ido a sua casa, só porque Grace lhe pediu. Talvez estivesse entediada, talvez não tivesse nada para fazer naquela tarde, ou…Ou talvez estivesse na esperança que Harry lhe pudesse fazer esquecer do professor.

“Não! Não é isso”

- Quem é esta? – Jordan virou a fotografia para ele.

Aquela foi a gota d’água. A estabilidade que poderia haver, acabou assim que Harry colocou os seus olhos verdes sobre o porta-retratos que Jordan lhe mostrou.

Era uma memória de um dos seus últimos momentos felizes antes do trágico acidente. Eles passeavam por Londres com sorrisos alegres e sinceros. Sorrisos jovens e esperançosos.

Harry não soube explicar qual a sensação que teve naquele momento, mas a primeira coisa que ele quis fazer foi arrancar aquela moldura das mãos de Carter.

Colocou-se de pé e rapidamente foi ao encontro da garota. Sem se preocupar se a magoava ou não, Harry tirou a fotografia da mão dela e cerrou o punho.

Jordan ficou assustada. – Desculpa Harry eu não queria…

- Cala-te! – gritou. – Sai daqui!

- Mas…

- Merda, sai Jordan! – gritou mais uma vez olhando profundo no azul dos olhos dela. – Já!

O medo falou mais alto e ela preferiu não enfrentar a raiva que Van der Wood exalava naquele momento, então afastou-se do garoto e dirigiu-se para a saída, sem retornar a visão ou a palavra. Porém não conseguiu sair antes de pedir desculpa pela última vez.

A porta bateu e Harry cerrou os olhos apertando com força a moldura na mão. Suspirou pesado e deslocou-se até à estante, pousou o objeto e observou-o. Era estranho o quão vulnerável aquilo ainda o deixava. Ver aquela fotografia fazia-o reviver enumeras memórias onde a felicidade ainda lhe pertencia. Eram tantas as recordações que ele nem sabia como todas elas ainda cabiam no seu coração, na sua memória.

Aquela dor que sempre acabava por vir, explodiu finalmente dentro dele e ele lutou contra aquela vontade ridícula de chorar. Ali estava ela, imortalizada numa imagem linda. O seu sorriso iluminado, os seus traços angelicais e os seus olhos sonhadores e esperançosos por um futuro que nunca chegou. E tudo acabou da forma mais cruel possível. Tudo por causa de um erro estúpido, tudo por causa de motivos fúteis. Mas se dependesse dele, a justiça chegaria, cedo ou tarde, mas ela chegaria.

- Harry?

- Agora não mãe! – avisou ainda virado de costas.

Tudo que ele menos precisava no momento era da sua mãe a tentar acalma-lo e a dizer-lhe que tudo acabaria por ficar bem.

Ele odiava aquele discurso, sempre as mesmas palavras, sempre a mesma alusão ao tempo que passaria e afastaria as tristezas deixando apenas as memórias felizes.

“Mentira desmedida!” Era o que ele pensava sobre aquilo.

- Onde está a Jordan querido?

Não quis parecer simpático depois daquela pergunta, então para evitar confusões abandonou a sala…

- Foi-se embora! – respondeu saindo para o seu quarto. – Como todos os outros.

Quando chegou finalmente ao seu refugiu, Harry sentiu a humidade escorrer-lhe pela face. Ele não chorava há muito tempo e não era agora que ele quereria recuperar esse hábito. Num ato desesperado e aversivo, ele esfregou as mãos violentamente pela cara e tentou manter o pouco de lucidez que ainda achava ter.

Jordan havia sido impertinente. Ela não deveria saber de nada. Ainda era muito cedo.

Tudo parecia estar fora de controlo e Harry tinha acabado de estragar ainda mais a situação com o seu temperamento tempestuoso. Jordan fugiu dele. Ela havia ficado com medo e fugira. Ele agora teria que reparar aquilo, ou tudo que seria em vão. Se ele queria justiça, ele teria que resolver aquele problema o mais rápido possível.

Abriu os olhos e encarou o espelho à sua frente. Viu-se no reflexo e pensou mais uma vez em tudo que lhe aconteceu ao longo daquele dia. Carter e o Mr. Fitz, Luke na Ashbourne, Jordan em sua casa e finalmente, Jordan a questioná-lo sobre ela.

De tudo de mal que lhe poderia ter acontecido, decidira acontecer-lhe o pior. Ele ainda não estava preparado para enfrentar aquele fantasma. Ainda não era a altura certa, mas mesmo assim a sua falta de paciência arruinara aquele pequeno vínculo que começava a criar com Carter e agora ele teria que reconstrui-lo.

Não estranhou aquele olhar depressivo, carregado de dúvidas e incertezas na sua frente. Aquele era Harry Van der Wood.

No reflexo do espelho era ele. Era só ele. Ele e mais ninguém. Ele e a sua sombra, a sua única companheira. Harry estava sozinho na escuridão do seu quarto.