Lady Rebel – Capítulo 5

Para variar o Mr. Fitz mostrou-se intransigente com o atraso de Jordan.

O discurso maçante foi repetido assim que ela colocou os pés dentro da sala de aula, as mesmas frases de todos os dias sob as ameaça de processo disciplinar e a intolerância com alunos desinteressados.

“Mais vale comprar um gravador e colocar em replay cada vez que eu chego!” pensou, dando de costas a um professor e ao seu monólogo entediante.

Ao sentar-se no lugar, Jordan pousou a bolsa na mesa e de lá retirou apenas um caderno.

Olhou de canto de olho e pôde ver Beth, a sua colega de carteira com os olhos colados no livro.

XXX

A aula foi-se arrastando entre suspiros e constantes mudanças de posição na cadeira. Jordan não tinha tocado sequer numa caneta e Beth já estava a acabar de preencher a sua terceira página de apontamentos.

Mas ela não conseguia manter a concentração, não quando tinha plena consciência de que Harry Van der Wood, encontrava-se a pouco mais de 50 metros de distância dela. Na sala de química.

*

- Carter! – chamou-a puxando a garota pelo pulso. – Pra que a pressa?

 Os olhos dele brilhavam desafiadores, sabendo perfeitamente aquilo que eles conseguia fazer com a garota.

- Eu vou chegar atrasada há minha aula. – desculpou-se puxando o braço, mas sem sucesso.

- Pensei que podias disponibilizar uns dez minutinhos para nós. Gostava que tu me mostrasses a escola. – sorriu. – As zonas mais calmas.

- Er…- os olhos de Jordan pareciam meio perdidos, olhando para todos os lados, menos para os globos verdes de Harry. – Talvez mais tarde, eu agora tenho de ir.

 Harry soltou o pulso da garota, mas não a deixou ir embora sem lhe falar… – Eu vou cobrar essa visita guiada Carter.

*

“Merda! Merda! Merda! Muita Merda!”

O relógio marcava 9.00H, faltavam ainda cinquenta minutos para o fim da aula e o Mr. Fitz continuava a falar do Nascimento de Vénus de Botticelli.

- Obrigado Lawrence,  por não lhe dares o que ele queria esta manhã! – murmurou Carter para si.

- Desculpa Jordan, mas não percebi. – Beth sussurrou, por trás da armação dos óculos.

- Não era para perceberes Jones, estava só a pensar no quão emocionante é a minha vida.

- Vocês duas aí! – Mr. Fitz não podia perder a chance de implicar com a Carter – Silêncio.

- Desculpe por interromper a sua aula super empolgante. – respondeu impetuosa.

- Menina Carter se tem algo contra os meus métodos de ensino pode compartilhar a sua opinião comigo e com o resto da turma, seria um prazer poder ouvi-la!

- Tem a certeza que quer ouvir a minha opinião? – perguntou em tom insinuante.

Fitz respondeu com um aceno de mão para que ela prosseguisse.

- Há muita coisa que eu realmente tenho contra si! Não falo apenas da sua particular implicância comigo, mas começo a achar que esse é um método de perseguição bastante usual para o Senhor. – sorriu sarcasticamente. – Eu não caio na sua lábia porque eu não sou como a…

- Cale a boca! – gritou desesperado.

- Porquê professor? Tem medo daquilo que eu posso dizer?

- Cale a boca e saia já! – falou colocando uma das mãos na cintura e apontando com a outra para a porta de saída.

- Sim senhor. – respondeu desafiadora.

Sob o olhar de toda a turma, a garota arrumou o único caderno que tinha na mesa e de forma lenta e provocante desfilou até à saída sem retornar o olhar para quem quer que fosse.

O corredor estava vazio e silencioso. Andando a passo curto e sequenciado Jordan deslocou-se sem rumo pela escola. Quando deu por si, já se encontrava na parte de trás do ginásio.

Com as mãos nervosas e inquietas tentou alcançar um cigarro dentro da bolsa e quando finalmente encontrou o maço percebeu que não tinha nenhum cigarro…

- Porra, decidiu ficar tudo contra mim hoje?

- Nem todos! – Harry estendeu a sua mão em direção a ela e ofereceu-lhe um cigarro. -Tu não tens aulas?

- Tu não tens aulas? – retornou ela a questão, arrancando o cigarro da mãe dele.

- Eu perguntei primeiro…

- E eu de seguida…

- Estamos a jogar Carter?

- Porquê? Queres jogar Van der Wood?

Harry olhou-a de cima a baixo, não escondendo as suas intenções. Mordeu o lábio inferior e aproximou-se um pouco mais de Carter.

- Coloca as cartas na mesa e eu faço o resto acontecer. – Harry falou inebriando a garota com o seu hálito a menta e tabaco batendo contra a face dela. – Tu ainda me deves uma visita guiada, eu gostava de… – pousou a mão na cintura dela, e deslizou a mão até a barra da sua saia. – … conhecer todos os lugares.

Ele era o perigo e a luxuria juntos em perfeita harmonia, e Jordan não sabia como lidar com aquilo.

Foi quando ela sentiu as costas em contacto com a parede do edifício, que percebeu que não tinha qualquer escapatória.

O cigarro estava ainda na boca de Jordan, á espera de ser aceso, e ela viu isso como uma oportunidade de contornar a situação.

- Tens isqueiro?

Harry lançou o seu sorriso sedutor de canto de lábio e acabou com a única possibilidade de escapatória de Jordan, assim que sussurrou ao seu ouvido… – Ao invés de fumar, tu deverias fazer algo mais produtivo com a tua boca!

Ela fechou os olhos, engoliu a seco e só de seguida percebeu que deixou cair o cigarro no chão.

Os segundos de silêncio que se seguiram pareceram os mais longos de toda a sua vida. Mesmo com os olhos fechados ela não conseguia desligar-se daquilo que se passava na sua frente.

O som que costumava ser o motivo das suas expressões descontentes e enfadonhas, foi a a sua salvação daquele clima hostil que se havia instalado entre Carter e Van der Wood…

O primeiro período de aulas tinha acabado e as pessoas começavam a sair das salas de forma dispersa e barulhenta…

- Salva pelo toque! – sussurrou uma última vez antes de colocar a mão no bolso do blazer da garota, entregar-lhe o isqueiro e deixá-la ali sozinha e desconcertada.

Lady Rebel – Capítulo 4

- Como é que é?

Após uma semana a ignorar as chamadas de Lucas Sparks, Jordan decidira finalmente se encontrar-se com o rapaz no apartamento dele.

O espaço era visivelmente velho e mal cuidado, a tinta das paredes lascava e a humidade era mais do que evidente nas extremidades superiores, algumas das tábuas do soalho estavam soltas e ao mais pequeno movimento, era possível ouvir-se o ranger agudo das mesmas.

Eles encontravam-se na sala, o único local da casa, que para além da cozinha possuía mais do que uma peça mobiliaria.

Jordan estava sentada numa poltrona velha e Luke, sentado na mesa de centro à frente dela.

- Jay, eu sinto muito pelo que fiz, mas ocorreu um imprevisto e eu não pude ir até ao 17Black.

- Luke não há desculpa, ok? Tu podias ter avisado. Tu sabes perfeitamente que sempre que vou ter contigo estou a arriscar-me. Se a Eleanor descobre que eu e tu…

- Hey! – exclamou o rapaz levantando o rosto de Jordan ao encontro do seu. – Ela não vai descobrir nada!

- Como podes ter tanta certeza?

- Jay confia em mim. – sussurrou Sparks, apertando com delicadeza o  queixo da garota.

O cheiro fresco e doce misturado com tabaco, distinguia Sparks de muitos outros. Jordan conhecia bem o seu amigo. Bem demais. As vezes em que ultrapassaram a linha da amizade foram poucas, mas foram as suficientes para Jordan entender em que pé eles se encontravam. E por esse mesmo motivo, Jordan queria evitar a qualquer custo todos os momentos nostálgicos em que a proximidade de ambos tornava-se inevitável e estranhamente agradável.

- Ela não pode descobrir. – disse Jordan, fechando os olhos.

- Ela não vai Jay, ela não vai.

O rapaz inclinou um pouco mais o rosto da garota para que ela o encarasse. Ele olhava-a expectante e esperançoso com o rumo da ação. Jordan sabia que era errado, mas não conseguia evitar. Lentamente ela fechou os olhos e sentiu o seu coração querer pular garganta fora. O toque de Sparks era reconfortante. Ela sentia necessidade desse conforto, dessa preocupação, desse carinho. E ele parecia ser o único capaz de oferecer-lhe tanto amor.

Luke deixou que as respirações se aproximassem uma da outra e arriscou passar os seus lábios pelos de Carter.

Jordan inspirou fundo, aceitando o toque do amigo e sentiu, quando a mão dele, foi de encontro com a nuca dela, e puxou-a mais para si. Não era um beijo voluptuoso, de arrancar respirações, mas aquecia a alma e o coração.

Jordan gemeu baixo em protesto, enquanto Luke fingiu não ouvir e aprofundou ainda mais o toque, passando a sua língua para o interior da boca dela. Carter empurrou o garoto e levantou-se de rompante e para a janela no funda da sala.

Luke escondeu a dor da rejeição e levantou-se também, para pegar um cigarro e um isqueiro.

Ela mantinha o olhar distante, fingindo-se interessada em alguma coisa do outro lado da janela. Ele estava de pé, encostado a uma das paredes da sala com um cigarro já aceso, entre os dedos. Jordan virou-se a e encontrou os olhos azuis do seu amigo. Ela viu uma resquia de frustração e descontentamento neles, mas não quis opinar sobre isso.

- Quando tu me ligaste na terça… – começou incerta. – disseste que tinhas algo que me iria interessar. – comentou, tentando acabar com o silencio pós-beijo.

Tragando uma última vez o cigarro, antes de o colocar no cinzeiro, ele pareceu ficar desconfortável na pequena sala de estar. Como se o apartamento fosse demasiado pequeno, o rapaz suspirou em alto e bom som, antes de começar a bater nervosamente com o calcanhar esquerdo sobre o soalho musical. Um tique nervoso que ele possuíra desde sempre.

O silêncio quis-se fazer de convidado e instalar-se no compartimento durante os breves segundos em que Lucas demorou para ganhar a coragem de responder…

-Bom isto…- passou a mão no queixo. – Eu precisei de te convencer a sair, porque eu tinha de te contar uma coisa… – balbuciou – Jay…Por onde é que ei de começar?

- Hum! Não sei Luke, e que tal pelo início?

- Mais vale dizer isto de uma vez!

- Chuta! Sou toda ouvidos.

- Euandoavenderdrogaaotreinadordatuaescola.

- Como é?

O rapaz passou as mãos freneticamente pelos cabelos castanhos deixando que a sua cabeça se mantivesse baixa com o olhar preso nas sapatilhas velhas, para não ter que encarar Carter.

- Eu…Eu ando a vender droga ao treinador Philips. – cuspiu serrando os olhos com força.

-O QUÊ? – Gritou a garota. – Tu ficaste louco de vez? Isso é crime.

- Desde quando é que te preocupas com isso?

- Desde que as drogas são vendidas para um professor que provavelmente está a vender aos seus próprios alunos! – exclamou exasperada.

- Jay não sejas tão dramática, a situação não é tão má assim!

- Luke estás a ouvir a merda que te está a sair da boca? – perguntou Carter incrédula. – Tu realmente não tens noção da gravidade do assunto pois não? Já paraste para pensar se alguém descobre?

- Ninguém vai descobrir Jay…

- Luke isto não como vender drogas para um grupinho de bandidos dependentes de heroína, isto é sério, muito mais sério!

- Ok! Estas a fazer uma tempestade num copo-d’água. – Luke disse, tentando recuperar a proximidade que antes foi desfeita.

Luke levantou a mão num gesto solene e deslizou a mesma sobre a face da amiga. Um gesto tão pequeno mas que para ele tinha um grande significado e talvez por essa mesma razão Jordan recuou um passo desviando o seu olhar para a porta principal do apartamento.

- Eu tenho que ir.

- Já?

- Sim, já! – falou em tom frio e objetivo, alcançando a bolsa que estava pousada no chão junto da poltrona castanha. – Eu tenho aula daqui a pouco e se me atrasar vou ouvir a Eleanor e o Fitz.

- Fitz?

- Professor de história da arte…

Luke rastejou até á porta e abriu-a, revelando as paredes de um corredor que algum dia teriam sido brancas e agora eram revestidas por um tom cinza velho e sujo. Jordan atravessou o batente da porta e seguiu o seu caminho ao longo do corredor até ao primeiro lance de escadas, antes de descer desviou o seu olhar uma última vez para o amigo que a observava na sua caminhada até à saída. Ambos deram um meio sorriso e Carter foi-se embora.

XXX

Um dia chuvoso e particularmente cinzento marcava o triste ambiente da cidade de Londres naquela manhã de Setembro.

Os carros topo de gama entravam no estacionamento de Ashbourne College. Deles saiam os mais jovens membros da socialite de Londres, alguns esperavam pelo motorista abrir a porta e oferecer o guarda-chuva. Os pobres serviçais mantinham o sorriso cordial e falsamente simpático para aqueles que lhes pagavam o salário no final do mês. Outros um pouco mais individualistas, se é que se pode dizer, estacionavam os seus veículos obscenamente caros no parque ee estacionamento, verificando uma última vez o seu aspeto no retrovisor do carro e saiam do veículo esbanjando superioridade a qualquer um num raio de 50km.

Jordan estava sentada no banco de condutor do seu tão amado Chevy, a fumar o último cigarro do seu maço e observando a rotina sempre tão igual das suas manhãs.

A música baixa tocava no rádio, deixando-a ainda mais compenetrada nos seus pensamentos, a testa estava enrugada, os seus lábios comprimidos numa linha reta, os seus olhos estavam fixos em qualquer ponto e a sua cabeça estava aérea. Aérea a qualquer coisa a seu redor, a qualquer som, a qualquer movimento…

Até as mãos de Eleanor, terem batido no capot do carro, causando um estrondo capaz de parar corações.

- Estás louca? – Jordan gritou ainda com a mão no peito.

- Não Jordan, eu não estou louca. Estou simplesmente frustrada. Só isso!

Jordan desligou o rádio, atirou o cigarro janela fora e saio do carro.

- E posso saber qual é o motivo das tuas frustrações? – questionou- a, esmagando o resto do cigarro contra o alcatrão.

-Como se tu não soubesses. – suou sarcástica.

- Não estou numa de joguinhos Lawrence, a manhã começou há pouco mas a merda já foi muita, por isso tenta ser mais clara porque acho que não estamos em pé de igualdade neste assunto.

- O que foste fazer ao apartamento do Luke esta manhã?

“Ok! Desta eu não estava à espera!” Jordan olhou embasbacada para a amiga. Não sabia se havia de ficar furiosa por a morena estar provavelmente a segui-la ou se deveria se enfiar no buraco para evitar uma discussão que mais cedo ou mais tarde, iria surgir.

A hesitação estava a suprimi-la e ela precisava de dizer alguma coisa.

- Andas a seguir-me? – optou por jogar na defensiva.

- Tecnicamente não, mas esse não é o ponto da situação. – rebateu Eleanor.

- Não é o ponto da situação? Eu não acredito Els, como é que tu tens coragem de fazer uma coisa dessas?

- Oh pelo amor de Deus Carter não dramatizes. Tu sabes que eu tenho os meus motivos para me preocupar e não sou eu quem te segue é o meu motorista o Bennett.

- Isso não te dá o direito de invadir a minha vida. Queria ver como te sentias se eu andasse por aí a espiar aquilo que tu fazes ou deixas de fazer quando não estamos juntas. E pagas ao teu motorista para me seguir? Baixo Lawrence, muito baixo!

- Como se fosses descobrir algo de interessante. – protestou Lawrence irritada com o rumo do assunto. – E eu pago para ele trabalhar, não estou a explorar ninguém.

- Quanto ao Bennett não vou argumento, mas eu relação à tua vida…vejamos.. – Jordan colocou uma mão no queixo e inclinou o olhar para o lado fingindo-se pensativa. – Começa com um “F” e acaba em “itz” e envolve um sério processo e o despedimento de um professor, talvez uma prisão, se considerarmos que tu ainda és menor de idade…

- Jordan cala a merda da boca! – exclamou Eleanor. – Não sei se reparaste, mas estamos no estacionamento da escola e a centenas de pessoas a circular aqui desejosas por adquirir uma informação como essa, por isso, caso não queiras acabar com a minha vida, faz-me um favor e cala a porra da boca…

- Desculpa Els, mas isto só está mesmo em sigilo porque tu és a minha melhor amiga, porque se fosse com outra aluna, eu já tinha queimado a ficha do Fitz há muito tempo. E por falar nele…- Jordan acenou com a cabeça para a entrada principal da secundária.

Eleanor abriu o mais belo dos sorrisos assim que viu o professor atravessar as portas do recinto escolar…

- Tens noção que esse teu sorriso não é dos mais discretos, não tens? – perguntou aborrecida.

- Vou andando. – Eleanor ignorou o comentário seco de Jordan abandonando a amiga. – Mas não te preocupes…- falou virando-se novamente para Jordan. – Esta nossa conversa ainda nem vai a meio.

Jordan suspirou alto e levantou a cabeça para o céu encostando-se ao carro. As gotas miúdas da chuva, começaram a  humedecer-lhe o rosto.

Um perfume atraente e irrefutavelmente agradável pareceu aproximar-se dela. Jordan abriu os olhos e virou-se para a frente.

- Podias continuar a olhar para o céu. Porque eu estava a ter uma pequena visão do paraíso. – sussurrou Van der Wood, exibindo um sorriso sensual, cheio de segundas intenções.

Jordan pensou em rebater a resposta do rapaz, mas não conseguiu fazê-lo. Quando finalmente olhou para o que ele estava a usar, todo o seu raciocínio foi por água abaixo.

Harry estava a usar o uniforme de Ashbourne College. A mesma camisa, a mesma gravata, o mesmo blazer e o mesmo par de calças, tudo igual.

E tudo indicava que Harry Van der Wood, era o novo aluno de Ashbourne College.

Lady Rebel – Capítulo 3

 

Uma nostalgia vinda daquele aroma inconfundível a limpo e caro. Jordan encontrava-se sentada numa das muitas mesas circulares que ocupavam o salão principal. A sua visão ia além da mesa onde se encontravam a sua mãe e os Lawrence. Ela observava o ambiente parado e monótono dos inquilinos de Southlake Side.

A palavra perfeita para descrever aquele sempre tão repetitivo cenário que se projetava na sua frente. A decoração do ambiente era clara e luminosa. As paredes forradas com um papel de parede floral azul claro completavam o especto sereno. Uma grande mesa retangular erguia-se ao longo da sala. Nela estendia-se uma toalha branca bordada com detalhes dourados nas pontas e centro, igual às que se encontravam nas mesas circulares. Viam-se centenas de pequenos aperitivos de nomes de difícil pronunciação, castiçais de prata que carregavam velas azuis e exuberantes vasos que transbordavam cravos brancos. Os candelabros de cristal chamavam a atenção de qualquer um e apesar de aquele local já lhe ser tão familiar, ela nunca conseguia deixar de se deslumbrar com a beleza do grande salão.

Uma pequena orquestra composta por um pianista, uma harpista e dois violinistas, contribuíam para o crescente entediar de Carter. Mas ela estava demasiado ocupada no momento. A sua cabeça trabalhava numa tentativa frustrada de desvendar o mistério por trás daqueles olhos verdes.

As suas noites mal dormidas não a deixavam raciocinar com grande coerência mas a sua determinação superava qualquer barreira imposta pela sua mente cansada e ela não conseguia pensar em mais nada senão nele.

 

Ali estava ela, sentada como tantos outros, à espera dos mais novos membros da sociedade milionária de Londres e pela milésima vez naquele pequeno espaço de tempo, desde o seu encontro com o belo desconhecido, ela pensava nele e somente nele.

- Estás a ouvir-me? – Eleanor perguntou.

- Hã?

Els soltou um suspiro pesado baixando a cabeça para ambas as mão que repousavam sobre o colo.

Jay assumiu que a amiga ficou descontente com a sua falta de atenção e colocou uma mão no ombro de Els na esperança de amenizar o seu descuido.

Um sorriso subtil escapou dos lábios de Lawrence e ela voltou a encarar a amiga.

- Eu estava a dizer que os Van der Wood chegaram.

- Ah! – exclamou Jordan. – Onde é que eles estão? – perguntou procurando pelas novas caras.

- Mesmo atrás de nós!

Com a maior destreza, Jordan desenhou o sorriso mais falso que os seus lábios conseguiam sustentar e levantou-se como todos os outros presentes na mesa para cumprimentar os seus novos vizinhos.

 

De repente o sorriso despencou.

Ela não conseguiu acreditar naquilo que se via.

Alucinação.

Uma hipótese possível, no entanto, pouco provável.

A sua insanidade parecia finalmente querer ataca-la. Só podia. Mas ela não estava louca e aquilo não era uma miragem. Era demasiado real para ser uma miragem. O seu coração pulsava a mil e a sua respiração começou a falhar.

Os olhos. Céus aqueles olhos! Aqueles belos olhos verdes que a atormentaram dias e noites seguidas durante aquela semana estavam ali na sua frente, mostrando-se serenos e calmos. Completamente diferentes dos dela que se mostravam confusos e até mesmo, atordoados.

- Grace, Nicholas! Esta é a minha filha Jordan! – falou Camille esboçando um sorriso cortes para os novos inquilinos.

Ao ouvir o seu nome, Jordan acordou, mas ainda assim parecia a leste de todo o cenário. A sua mente estava demasiado baralhada para conseguir formular qualquer palavra.

Tentou sorrir em resposta, sem grande sucesso.

- É muito bonita a sua filha Camille, aliás ambas as jovens Carter e Lawrences são muito bonitas. – sorriu o homem alto de cabelos ligeiramente grisalhos e olhos igualmente verdes.

- Obrigado Sr. Van der Wood! – Respondeu Lea educada.

- De nada querida! A verdade tem que ser dita. – interferiu a bela mulher de longos cabelos castanhos e olhos azuis oceano. – Vocês jovens estão cada vez mais bonitos! Falando em jovens…Este é o nosso filho Harry.

Harry Van der Wood. Era esse o nome do dono daquela beleza invulgarmente perfeita. Daquele belo cabelo, elegantemente bagunçado, daquela pele clara e visivelmente sedosa e daqueles malditos olhos que a atormentaram durante horas.

- Muito prazer, Harry. – a voz grave e rouca, capaz de cortar respirações suou no meio daquele casal sorridente e aparentemente simpático, acordando-a pela segunda vez em menos de um minuto.

A prazerosa perfuração dos tímpanos, a suave tontura e então, a assimilação daquilo que lhe era dirigido.

Harry estendeu a sua mão para cumprimentar primeiramente Eleanor.

- Por favor deixem-se de cordialidades e cumprimentem-se como jovens da vossa idade.

Inclinando-se para cumprimentar Eleanor com um beijo em cada uma das bochechas, Harry manteve a sua postural educada e elegante. De seguida estendeu a mão para o pai da mesma.

A inquietude apoderou-se das mãos de Jordan assim que percebeu que Harry a cumprimentaria dentro de alguns segundos.

Apertou uma mão contra a outra e pôde sentir o suor frio congela-la, fazendo com que Jordan mexesse freneticamente as palmas das mãos. Camille reparou na inquietude de Jordan e estranhando a disposição da filha perguntou-lhe – Jordan sentes-te bem? – colocou uma das suas mãos nas costas da filha.

Jordan que até então não tinha reparado no quão brusco eram os seus movimentos, paralisou um segundo antes de responder afirmativamente com a cabeça.

- Sim!

- Então se me permite… – um pequeno sorriso escapou de um dos cantos da boca de Harry e Jordan pôde reconhecê-lo como um sorriso de diversão. Como se ele se estivesse a se deleitar com toda aquela situação.

“Será que está?”

“Será que ele já sabia de tudo aquilo?”

Muito rapidamente as questões foram varridas da sua mente quando aquele tão inesperado aroma amadeirado lhe invadiu os pulmões contribuindo para a sua falta de equilíbrio. Para completar a já deplorável situação, uns lábios suaves e quentes encostaram – se à sua face e o seu coração disparou. Os poucos segundos de proximidade conseguiram acabar com o resto da sua sanidade e Jordan pensou que naquele momento ia desmaiar. O que realmente lhe pareceu uma surpresa não ter acontecido quando Harry sussurrou-lhe tais palavras – Senti a tua falta. – sibilou discretamente ao seu ouvido.

As quatro palavrinhas fizeram-na engolir a seco e inconscientemente fechar os olhos.

 

XXX

- Mas que Deus era aquele? – Eleanor sem qualquer pudor, perguntou para Jordan.

- Deus? Oh por favor Eleanor! Até parece que não viste melhor…

- Honestamente? Não, acho que não vi, no entanto a personalidade dele estraga qualquer cenário que a minha mente queira fantasiar. Se ele não fosse tão comportadinho eu acho que nós os dois nos iriamos divertir muito.

- Não sabes da missa nem a metade. – comentou Jordan mais para ela própria do que para a amiga.

- Como é que é?

- Nada.

- Nada?

- Merda Eleanor, não é nada.

- Hey Ok! Menina Jordan Irritadinha Carter.

 

XXX

 

Já aproximadamente 1 hora se tinha passado desde a tão inesperada revelação. Jordan fingia estar completamente normal dentro dos seus habituais parâmetros comportamentais e tentava não pensar em Harry a todo o custo. Decidira procurar uma distração e optou por manter um diálogo monossilábico com ambas as irmãs Lawrence. Na realidade a única a dar respostas curtas era Jordan, porque não fazia ideia do que Lea e Eleanor conversavam tão alegremente.

- Jordan não olhes agora, mas tu não vais acreditar em quem acabou de se levantar e está a vir na nossa direção …

Carter suspirou entediada e ignorou o pedido de Eleanor. Virou a cara descaradamente e mais uma vez arrependeu-se. Fechou os olhos assim que retomou a face para as duas irmãs e desejou morrer na mesma hora.

- Porra Jay eu não te disse para não virares a cara?

Jordan nada respondeu. O seu cérebro não conseguia processar fosse o que fosse, virou mais uma vez a cara para constatar que ele estava cada vez mais perto e vendo-se encurralada levantou-se apressada, deixando na mesa dois pares de olhos curiosos que não entenderam o motivo para tal reação.

XXX

Fechou bruscamente a porta e encostou-se na mesma respirando aliviada. Quando olhou para a frente encontrou a sala de convívio.

A era grande e tinha um aspeto majestoso. A iluminação forte oferecida pelos grandes janelões da parede oposta à qual se encontrava, permitiam-lhe ter uma maior perceção da amplitude do espaço. O salão era pouco menor do que aquele onde decorria a festa. As paredes pintadas de bege e dourado com inúmeros detalhes florais, contribuíam para o aspeto neo barroco. O silêncio no espaço surpreendeu-a e após uma revisão rápida verificou que o local estava vazio.

Ela definitivamente necessitava de aliviar todo o stress do momento e nada melhor do que o seu sempre fiel amigo Jack Daniels para ajudá-la na tarefa.

Após abrir uns 10 armários finalmente encontrou uma pequena aquisição onde estavam todas as bebidas alcoólicas. Vários tipos de Whiskeys, Champagnes, vinhos e até mesmo cervejas estavam organizadamente arrumados, o que facilitou a sua busca.

Assim que encontrou a garrafa com o tão característico rótulo preto, Jordan foi procurar um copo, para não correr o risco de ser encontrada a beber da garrafa.

A única coisa que encontrou foram chávenas de chá que se estavam em expositores de vidro no fundo do salão.

Enchendo a chávena até meio, Jordan guardou o resto da bebida no respetivo lugar e depois retomou a sua atenção para o pequeno recipiente branco.

Fechou os olhos e levou a peça em porcelana até aos lábios. O cheiro forte a álcool pareceu acalmá-la momentaneamente e permitindo a passagem da tão esperada bebida pela sua garganta, a garota deixou que o ardor da mesma a acalmasse.

Um ruido agudo, anunciou a entrada de alguém, no entanto Jordan não se assustou, porque ela estava a beber chá, aparentemente.

- Não sei como nunca tive essa ideia antes.

A voz que ela mais ansiava ter ouvido ao longo de toda aquela semana entrou numa velocidade assombrosa pelos seus tímpanos e pela primeira vez, Jordan gostava que aquele som fosse obra da sua mente desequilibrada.

Mas não era. Porque agora, não só a voz quente e rouca capaz de despertar os mais profundos suspiros de uma mulher, mas também todo aquele corpo alto, de ombros largos e pele clara entravam no seu campo de visão. E ela já tivera a prova de que aquilo não era obra dos seus delírios. Ele estava realmente ali.

- Que… Que ideia? – perguntou soando afetada.

O irritante sorriso presunçoso tomou um dos cantos da boca de Harry enquanto este tornava, pela segunda vez no mesmo dia, o restante espaço entre ambos inexistentes.

Sem grandes restrições, o rapaz retirou a chávena de chá das mãos de Carter, mantendo contacto visual com  Jordan para que ela não tivesse qualquer escapatória. Uma atitude insolente e indiscutivelmente sedutora aos olhos da garota. Mas ela não poderia admitir isso, pelo menos não em voz alta. Limitou-se a encostar-se à mesa de bilhar que estava no centro da sala e bufar descontente.

Após um primeiro gole, Harry decidiu acompanhá-la e encostar também o seu corpo próximo do dela.

- Como eu disse.. Não sei realmente como nunca tive esta ideia antes! Whisky e chá em sintonia, quem diria! – Falou baixo sem retirar o subtil sorriso no canto esquerdo do lábio.

- A originalidade é um dos meus muitos dons. – Respondeu Carter sem reconhecer de onde veio a sua repentina coragem.

Sim! Porque se havia coisa que o jovem Van der Wood conseguia fazer com Carter era desarmá-la. Deixá-la completamente à toa, sem rumo ou qualquer tipo de noção de ser e estar.

A surpresa estampada na sua cara foi quase cómica, e Jordan permitiu-se sorrir satisfeita com a reacção que tinha conseguido despertar nele. Um súbito derrame de toda aquela tensão pareceu ter acontecido e Jordan conseguiu finamente encarar o dono dos globos verdes sem mostrar os efeitos que eles lhe produziam.

- Acredito! – Falou devolvendo a chávena a Carter. – Aliás! – Acrescentou enquanto buscava algo no bolso interior do smoking – Estou realmente interessado em conhecer os teus muitos dons Jordan.

E mais uma vez ela ficou atónita em busca de palavras que simplesmente não surgiam. Mas outra coisa pareceu desliga-la dos seus desvaneios momentâneos.

Quando ela percebeu aquilo que Harry havia retirado do bolso ficou boquiaberta e visivelmente surpreendida.

Ele acendeu o cigarro, sem desviar por um segundo que fosse a sua atenção para ela e tragou o mesmo olhando fixamente para um ponto qualquer á sua frente.

- Se continuar a morder o seu lábio inferior Senhorita Carter… – Falou libertando uma pequena quantidade de fumaça no ar. -… não vou responder por mim e vou acabar por morde-lo eu.

Lady Rebel – Capítulo 2

 

“Take me I’m alive

(Leve-me, estou viva)

 

Never was a girl with a wicked mind

(Nunca fui uma garota com uma mente perversa)

 

But everything looks better when the sun goes down

(Mas tudo fica melhor quando o sol se põe)

 

I had everything

(Eu tive tudo)

 

Opportunities for eternity

(Oportunidades eternas)

 

And I could belong to the night

(E eu podia pertencer à noite)

 

Your eyes, your eyes

(Seus olhos, seus olhos)

 

I can see in your eyes”

(Posso ver nos seus olhos)

 

Your eyes

(Seus olhos)

 

You Make Me Wanna Die – The Pretty Reckless

 

A típica sensação de ansiedade.

Desde o pequeno desentendimento, de há poucas horas atrás com Camille, Jordan sentia-se estranha, nervosa, confusa. Um misto de emoções que se impregnavam na sua pele de forma subtil e ao mesmo tempo intensa.

Varias hipóteses àquele incómodo estado de espírito, vieram-lhe a cabeça.

A conversa com o Mr. Fitz, que ainda estava entalada na sua garganta, a estranha abordagem de Beth Jones durante a aula de História da Arte, a melhor amiga que procurava uma resposta que Jordan não queria dar e, por mais absurdo que possa parecer, a sensação que o envelope dourado lhe trouxera.

Já era natural ela aborrecer-se sempre que tinha de comparecer a eventos sociais de Southlake Side, mas nunca antes sentira aquela sensação de sufoco, que pela primeira vez, um dos muitos envelopes dourados lhe proporcionou. Como se o conteúdo da pequena carta fosse muito além das palavras lá registadas pela caligrafia requintada que ela não reconhecia.

Jordan pressentia que algo estava equivocado. Algo estava fora de sintonia, irremediavelmente errado.

Olhou para a pequena mesa-de-cabeceira, que na escuridão do seu quarto, não parecia ser pintada de um cinza metalizado, mas sim de um negro obscuro, à procura os ponteiros do relógio.

Suspirou aliviada e levantou-se de sobressalto.

1:20H.

Era hora de sair.

XXX

A noite sempre fora extremamente esclarecedora para Carter, a escuridão parecia tornar tudo mais simples na sua cabeça. Os seus conflitos emocionais pareciam apaziguar-se e resguardar-se do escuro. Então, uma sensação única e prazerosa dominava-a por completo.

A liberdade percorria por todas as suas veias e o seu coração batia exasperado. Era indiscutivelmente, a melhor sensação do mundo.

E a ironia parecia prevalecer. Quando muitos assumiam que a noite representava o perigo e o terror, Carter apreciava a escuridão até às suas últimas réstias, antes do nascer do sol.

Ela fugia da própria sombra. A sombra era o verdadeiro reflexo do seu estado de espírito assim que a manhã chegava.

 

O trânsito de Londres parecia finalmente suportável. Os carros deslocavam-se a uma velocidade considerável e não havia quaisquer paragens durante os percursos nas estradas. Mais uma das vantagens de se viver de noite.

O vento gélido e cortante batia-lhe na face enquanto os seus longos fios de cabelo castanhos dançavam ao sabor do mesmo. A música baixa era calmante e permitiam-lhe divagar no seu subconsciente sem que se apercebesse que o rádio estava ligado. O cigarro quase inexistente era agora atirado para o chão. A porta do carro abriu-se e Jordan saio do veículo.

 

Decidiu deixar o carro longe do bar. Apesar de aquela não ser a zona mais perigosa de Londres, sempre havia gangues de bandidos de meia tigela que tentavam roubar carros e mocinhas indefesas, e mesmo ela não se considerando uma, não pretendia ser estrupada por um velho devasso ou ficar sem o seu carro.

A temperatura baixa obrigou-a a colocar as mãos nos bolsos do casaco e a apertá-lo contra o corpo. Criticou-se mentalmente por não ter trazido uma roupa mais quente, porém agradeceu quando de longe, finalmente começou a avistar o letreiro já tão conhecido a seus olhos.

Naquela distância já era possível ler-se em letras garrafais e néon “17Black”.

Um segurança encontrava-se à porta com uma postura tensa e um ar carrancudo, era um homem de meia-idade com um físico bastante robusto e imponente. O seu cabelo era rapado e ele usava apenas uma t’shirt preta, um par de jeans escuros e sapatilhas a condizer. Através da pouca luz exterior, conseguiu perceber que o homem lhe dirigia um sorriso meigo, até mesmo terno, ao qual ela não teve como não corresponder…

- Vejam só se não é a minha querida Jordan Carter! – jason atencioso como sempre, abandonou a sua postura de segurança cumprimentando-a com um beijo na bochecha.

Ela reconhecia que tinha um grande carinho por ele. A sua aparência não correspondia nem um pouco à sua personalidade, o que a agradava. Numa pequena fisgada de maldade, Jordan deixou-se imaginar o quão interessante seria se sua mãe a visse a cumprimenta-lo, seria épico, sem dúvida.

- Boa noite Jason! – cumprimentou-o a garota afastando o seu rosto do dele após o contacto terno. – Sabes se o Luke já chegou?

- O Luke? Eu não o vi. Mas porquê?

- Ele disse que precisava de mim! – respondeu hesitante.

As sobrancelhas grossas de Jason, tomaram uma forma um quanto engraçada. Mas a sua expressão de engraçada, não tinha nada. Ele estava claramente preocupado. – Jordan tem cuidado com o Luke, ele não é propriamente flor que se cheire!

- Não te preocupes Jason, eu sei cuidar de mim. – respondeu segura.

- Eu sei. Eu sei. – Jason sorriu, descrente, abrindo a porta principal para que e Carter entrasse.

XXX

O cheiro de tabaco e perfume barato logo encontraram os pulmões da garota. A música eletrónica era alta e ruidosa, e salvo o erro, tocava We Found Love da Rihanna.

Jordan percorreu o corredor pouco iluminado, de paredes cobertas por tijolos que davam entrada ao estabelecimento. Passou a mão pela cortina de veludo vermelha, que cumpria a missão de porta e empurrou-a para a direita. Os seus olhos logo foram ofuscados pelas luzes incandescentes que vinham do teto. As paredes do bar eram pintadas de preto e nelas estavam expostos vários posters de alguns artistas dos anos 60 e 70. O cheiro agora não era só de tabaco e perfume de quinta, mas também de suor. A grande quantidade de pessoas ficou visível quando as luzes aleatórias, de mil e um efeitos e mil e uma cores, iluminaram os vultos pouco percetíveis na pista de dança. O bar estava cheio e o ambiente era pesado.

Definitivamente não seria tarefa fácil encontrar Luke, mas com alguma sorte ele estaria no mesmo lugar de sempre.

Com uma certa dificuldade, Jordan passou por entre as várias pessoas que dançavam de forma extasiada à sua volta. O ritmo alucinante das luzes da discoteca confundiam-na, ela nunca se habituaria àquilo. E por saber isso, perguntava-se como era possível mais ninguém parecer incomodado com a incandescência.

Quando finalmente conseguiu arrastar todo o seu corpo para fora daquele globo humano, olhou para a mesa mais escondida do local e bufou frustrada ao confirmar a ausência de Luke, ou de qualquer outro conhecido.

- Sinceramente! – Exclamou alto frustrada.

 

“Under the lights tonight

(Debaixo das luzes desta noite)

 

Turned around, and you stole my heart

(Me virei, e você roubou meu coração)

 

With just one look, when I saw your face

(Com só um olhar, quando eu olhei seu rosto)

 

I fell in love

(Me apaixonei)

 

Take a minute boy,

(Demorou um minuto garoto)

 

To steal my heart tonight”

(Para roubar meu coração esta noite)

 

*Stole  My Heart – One Direction Cover by – Carly Rose Sonenclar

 

Determinada a colocar-se de lá pra fora, Jordan voltou para a pista de dança, mesmo antes de alguém chamar a sua atenção. Do outro lado da pista estava um rapaz. Ele olhava-a fixamente e não parecia minimamente intimidado com a resposta inconsciente do olhar dela.

Uma força desconhecida até então, pereceu prende-la ao chão. Um pequeno aperto no peito, uma pequena pontada de ânsia e os globos verdes a seduziram em questão de segundos.

Como era possível um olhar ser tão cativante, tão ludibriante, tão tentador e ao mesmo tempo tão errado?

  1. Incrível como o som desta palavra despertava todos os seus sentidos, uma autêntica sinfonia aos seus ouvidos.

Uma onda de emoções desconexas e estranhas percorreu as suas veias. As suas batidas cardíacas estavam a ficar afetadas, uma estranha sensação apoderou-se dela e sem recuar um passo que fosse deixou que os olhares se aproximassem.

A proximidade permitiu-a finalmente ter uma inteira perceção do dono daqueles olhos deslumbrantes. Rapidamente confirmou que aquele era sem quaisquer sombras de dúvida, o ser mais bonito que viu em toda a sua vida. A perfeição quase angelical dos seus traços faciais tornava a sua respiração ainda mais descompensada, a sua estrutura perfeitamente esculpida, deixava as suas pernas moles e fracas. Como era possível existir alguém assim tão belo, tão perfeito.

Num rasgo de consciencialização, Jordan percebeu que os seus olhos já estavam a mais do que tempo recomendado a admira-lo e achou melhor dirigi-los para os dele. E mais uma vez aquele olhar ardente invadiu-a de forma indiscutivelmente intensa, penetrante. Era possível afirmar que a intensidade que eles emanavam, tornava-se palpável.

Jordan sentiu-se nua, como nunca antes se tinha sentido. Mas não no sentido literal, ela sentiu-se como se o olhar dele lhe despisse a mente, o coração, a alma.

Sem pedido prévio, um aroma descontroladamente irresistível adentrou nos seus pulmões. O cheiro era suave mas ao mesmo tempo profundo e incrivelmente único. O seu corpo logo respondeu. Encontrava-se completamente anestesiado, completamente rendido àquele que a olhava de forma tão carnal. O perfume amadeirado desnorteou-a, fê-la perder os sentidos.

Ela estava a sonhar.

E sem conseguir implorar por mais, deixou que um toque suave a despertasse. A zona do seu ombro, agora nua pela falta do casaco encontrava-se em contacto com a mão dele que passeava lentamente pelo local. O contacto fê-la formigar e morder o lábio inferior tímida.

Por mais assustadora e única que a situação fosse, Jordan não queria que ela acabasse. Era inexplicável o poder do toque dele, como se todos os toques que alguma vez outro homem lhe tivesse proporcionado, não valessem mais do que meras cocegas.

O seu polegar fazia pequenos desenhos circulares sobre o ombro dela, procurando provocar algum tipo de reação instantânea.

Aos poucos ele fez com que o espaço que os separava, acabasse.

Toda aquela ansiedade de a poucos minutos atrás voltou. Mas desta vez com o quadruplo da intensidade. Jordan estava completamente petrificada, sem qualquer tipo de reação. E como se não fosse possível respirar mais, Carter simplesmente prendeu a respiração quando sentiu um hálito morno se aproximar do seu ouvido antes de falar…- Como te chamas? – sussurrou com uma voz rouca e quente.

O som áspero da sua voz perfurou-lhe os tímpanos prazerosamente, sentindo-se desnorteada, Jordan optou por fechar os olhos por um segundo antes de lhe responder…

Assimilou a simples questão, que naquele momento parecia complexa demais para se decifrar e libertou todo o ar que até então tinha deixado encurralado nos seus pulmões respondendo… – Jordan.

E de repente, tudo ficou escuro.

A música parou e o único som percetível era o das vozes das várias pessoas que gritavam descontentes com o ocorrido.

Jordan começou à procura do telemóvel para que o pequeno aparelho lhe pudesse ajudar com falta de luz. Quando finalmente encontrou o telemóvel, sorrio vitoriosa…

Então, a luz volto.

Ela logo levantou o rosto em encontro de outro…

E para seu completo espanto ele desapareceu

  1. E a única coisa que deixou para trás foi o seu aroma inebriante no ar.

Os olhos da garota viajaram por todo o recinto, mas nada dele.

XXX

Nunca o seu quarto lhe parecera tão confortável como naquela noite. Assim que chegou a casa, despiu-se do seu casaco de couro e a atirou-o para cima do sofá bege da grande sala de estar antes de subir as escadas. Ao chegar ao aposento, libertou-se de todas as suas restantes peças de roupa e deixando-as no chão, dirigiu-se para a sua casa de banho.

Ligou a água fria do chuveiro e entrou na box.

Com os olhos fechados, permitiu que o frio lhe tomasse todo o seu corpo. Colocou ambas as mãos sobre a tijoleira azul da parede e encostou a sua testa na mesma. A água percorria-lhe pelas costas relaxante e dolorosa.

Os seus olhos abriram-se espontaneamente, quase que por vontade própria. Um espasmo de perceção veio-lhe à cabeça.

E então ela percebeu.

Agora tudo fazia sentido. As palavras de Beth Jones encaixaram-se perfeitamente.

Uma mudança.

Se fosse noutro momento, Jordan provavelmente teria rido da frase da colega de carteira. Teria rido ainda mais do pensamento que lhe ocorreu. Mas ela não o fez, porque dentro dela, ela sabia que aquilo, fosse lá o que fosse, era muito real.

XXX

 

4 Dias. 96 Horas. 5760 Minutos. E apenas um pensamento.

Uma irritante e insistente lembrança. Lembrança essa ainda incógnita.

Era ridículo e até mesmo insano, mas ela simplesmente não conseguia desviar a sua atenção para qualquer outra coisa que não fosse o rapaz de olhos verdes.

Admitir que ela ficou mexida depois daquele pequeno encontro com um completo estranho, seria um eufemismo para o seu real estado de espírito.

Jordan não dormia, não comia, não saia de casa, não ouvia nada que lhe fizesse respeito ou fosse dirigido sem que ele lhe viesse à cabeça.

Ele parecia estar presente em todos os segundos do seu dia-a-dia, impregnado como uma pequena parasita e nada parecia conseguir arranca-lo da sua mente.

 

Eram aproximadamente 11.00H e Jordan continuava deitada na cama com o olhar fixo no teto.

Os raios de sol que iluminavam parcialmente o seu quarto, permitiam que as paredes forradas de papel de parede floral suavizassem o ambiente. A atmosfera era leve e suave, uma propositada oposição à personalidade da dona daquele quarto. A falta de paz e conforto na sua vida, tinham-na obrigado a procurar um resguardo.

O quarto era o seu local sagrado. Nunca ninguém entrava lá. As duas únicas duas pessoas com permissão para tal eram Eleanor e, por necessidade e preguiça de Jordan, Emma a empregada.

Ela sabia que já devia estar fora da cama a preparar-se para a receção dos Van der Wood, mas a sua disposição para tal era abaixo de zero. Emma havia entrado duas vezes no quarto dando o aviso de que “a menina”, como ela costumava chamá-la, já deveria estar pronta, mas Jordan não demonstrava qualquer interesse em acatar ao que a empregada lhe dizia.

Então como ultimo recurso, Camille decidiu chamar Eleanor.

“Golpe baixo” de acordo com Jordan, porque todos sabiam que a Eleanor era a única que conseguia dominar a rebelde. Nem que fosse por breves minutos.

E então ela chegou. Sem qualquer cerimónia e disposição para aturar os resmungos de Carter, Els invadiu o seu quarto puxando as cobertas de cima da amiga e colocando Arctic Monkeys no máximo volume, para não permitir que Jordan protestasse…

- Mas que…

- Naham! – gritou Eleanor abrindo a porta que dava entrada ao closet da amiga. – Nem mas, nem meio mas. Quero-te já de pé Jordan Brigitte Carter. E nem ouses em protestar. A tua mãe está a dar em doida contigo e ela não é a única. – Eleanor caminhou até o interior do closet procurando uma roupa decente o suficiente para o evento. – Eu não sei o que se passa contigo, mas tens andado mais fora de orbita do que o que é já habitual. Eu não me esqueci de nada, tu deves-me sérias explicações minha menina. Eu ainda quero saber o que andas a fazer com o Luke.

Jordan ia abrir a sua boca para protestar, mas como já devia estar à espera o discurso de Eleanor estava só a começar…- Nem tentes arranjar desculpas Jay. – Els saiu de dentro do closet para encarar a amiga, que agora estava sentada na cama. – Eu sei quando estás a mentir e eu não quero começar logo de manhã a discutir com a minha melhor amiga. – avisou num tom mais terno e carinhoso caminhando até a borda da cama para tomar a mão de Carter e encará-la com os seus grandes olhos castanhos. – Jay tu sabes que podes confiar em mim.

- Eu sei…

- Então porque é que não me dizes o que se passa?

- Porque eu não sei Eleanor. Eu não sei! – Suspirou derrotada.

Eleanor franziu a testa inclinando a cabeça para um dos lados arrastando-se lentamente para perto de Jordan. Envolveu-a nos braços, encostando a cabeça no pescoço da amiga e apertou-a com força. Ela sabia que Jordan precisava daquele abraço. Independentemente do motivo, ela simplesmente sabia. Alguns longos segundos depois, Eleanor deixou que toda a tensão do momento fosse aliviada quando disse.- Tresandas a tabaco.

Nenhuma delas conseguiu travar os risos após aquele comentário.

- Obrigado pela parte que me toca. – brincou Jordan fingindo-se ofendida.

- O que te vai tocar vai ser a minha mão se tu não saíres neste exato momento da tua cama e entrares dentro de uma banheira para te livrares desse especto horripilante.

- Sempre tão avida esta minha melhor amiga.

- Se eu não fosse assim tu não me amarias…

- Hum….Verdade.

- Vá chega de ladainha! Em pé! Em pé!

- Sim general. – exclamou Carter fazendo continência.

 

 

Nota de Autora –  Para mais um capítulo é necessário um número mínimo de 10 comentários.

SIGA O SEU CORAÇÃO!!!!!

tumblr_lihr3mtj2e1qbao34o1_500Os 10 conceitos:

- 1 Estamos cá para aprender lições e o mundo é o nosso professor;

- 2 O Universo não tem favoritos;

- 3 A sua vida é o reflexo perfeito das suas crenças;

- 4 ASSIM QUE SE APEGA DEMASIADO ÀS COISAS, ÀS PESSOAS, AO DINHEIRO…ESTRAGA TUDO(NADA DE APEGOS)…..na minha opinião devemos treinar o DESAPEGO SEMPRE!

- 5 Aquilo em que se concentra na vida, EXPANDE-SE;

- 6 Siga o seu coração!

- 7 Deus nunca vai descer de uma nuvem e dizer :”Agora está autorizado a ter sucesso!”

- 8 Quando se luta com a vida, é SEMPRE A VIDA QUE GANHA;

- 9 Como é que se ama as pessoas? ACEITANDO-AS, simplesmente;

- 10 A sua missão na vida não é mudar o mundo…a sua missão é mudar-se!!!

Ponto nº 1: Sempre que não conseguimos aprender uma lição, temos de passar por ela outra vez…e outra vez!Assim que aprendemos a lição, passamos à seguinte.(E as lições nunca acabam!)

….Por outras palavras, a grande maioria das pessoas só aprende ALGUMA COISA QUANDO BATE COM A CABEÇA NA PAREDE! Porque é mais fácil não mudar. Por isso continuamos a fazer o que sempre fizemos até batermos contra a parede.Somos criaturas de hábitos. Continuamos a fazer o que habitualmente fazemos até sermos forçados(pela VIDA) a mudar.

SENDO ASSIM, SERÁ A VIDA UMA SÉRIE DE DESASTRES DOLOROSOS?Não necessariamente, o Universo está sempre a usar pequenos sinais para nos dar uns encontrões. Quando ignoramos os sinais, o Universo usa um MARTELO SOBRE VOCÊ!

CRESCER TORNA-SE MUITO MAIS DIFÍCIL QUANDO RESISTIMOS….AJA COMO SE CADA ACONTECIMENTO TIVESSE UM PROPÓSITO E SUA VIDA TERÁ UM PROPÓSITO, descubra por que razão precisava de uma determinada experiência, conquiste-a e não precisará dela novamente.

(excertos retirados do livro: “Siga o seu Coração, de Andrew Matthews”)

…Na próxima edição nº 2 “O Universo não tem favoritos”